
domingo, 22 de novembro de 2009
domingo, 8 de novembro de 2009
VIETNÃ. Um poema de Wislawa Szymborska

Quando nasceste, tua origem? - Não sei.
Por que cavaste um buraco na terra? - Não sei.
Há quanto tempo estás aqui escondida? - Não sei.
Por que mordeste o meu anular? - Não sei.
Sabes, não te faremos mal nenhum. - Não sei.
De que lado estás? - Não sei.
É tempo de guerra, tens de escolher. - Não sei.
Existe ainda a tua aldeia? - Não sei.
E estas criancas, são tuas? - Sim.
WISLAWA SZYMBORSKA, nascida em Kórkik, Polônia, 2 de Julho de 1923, foi Prêmio Nobel de Literatura em 1996. Ver perfil em http://www.algumapoesia.com.br/poesia3/poesianet265.htm. O poema acima foi transcrito de http://justme-anordinarygirl.blogspot.com/2009/05/maes.html. Desconheço quem traduziu para o português.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Rosácea (para meus amores: Virgílio, Vítor e Ana Clara)

Nenhum exercício, tudo pára.
A quem afasto, a quem me uno.
Se o Senhor toma em Suas mãos o meu destino, paraliso?
Abrem-se comportas.
Estou visceral e a escrita quer desatar-se.
Ribeirão da Mata, ata-me.
Desata-me.)
Amoroso, a áurea cor de rosa.
Rosa de ventos e afetos.
O meu amor, ternura e cuidado.
Os filhos e suas trilhas abertas, riscando certeza
Ainda respiro por eles, suspiro, amor, apreensão.
ainda velar por eles adormecidos.
Nem tentáculos.
Elos.
Terra fértil que me alimenta até hoje.
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Impressões

Perdi-me a mim mesma do escrever, há meses.
A poesia envia-me sinais,
imagem de vida em mundo cristalizado e imóvel.
seca as minhas palavras.
Perco a centelha, mesmo a de uma poesia de impressões
A aderência à areia. E era tudo.
E vinham poemas, com a brisa.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
No silêncio do corpo

segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Um poema de Hilda Hilst
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha).
Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel.
Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.
Hilda Hilst. Do Amor. Poema no. 40
domingo, 11 de outubro de 2009
As memórias inventadas da infância de Manoel de Barros: "Manoel por Manoel".

Eu tenho um ermo enorme dentro do olho. Por motivo do ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade do que não fui. Acho que o que faço agora é o que não pude fazer na infância. Faço outro tipo de peraltagem. Quando eu era criança eu deveria pular muro do vizinho para catar goiaba. Mas não havia vizinho. Em vez de peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto.
Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação.
Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio. Era os meninos e as árvores.
Manoel de Barros. Memórias Inventadas. A Terceira Infância.
Menino. Foto de MVìtor.
