quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Poema escrito durante a greve da PM em 2001

Imagens de Salvador sitiada


O silêncio felino nestas noites em que o absurdo nos toma.

As fotos de Salvador tomada pela violência.

Em Pituaçu, o artista palmilha silencioso e melancólico os vestígios da destruição*.

Perplexo, atônito.

A criança chora sem nada compreender.

O desconexo das imagens e o longo caminho da cidade.

A cidade submersa, a cidade ao sol.

O corpo ferido da cidade.

A cidade viva e violenta.

A morte.

Busco a sintonia possível com seu movimento sempre tão dentro da minha própria pele.

A cidade emudece, paralisada.

Silêncio onde havia gritos e algazarra.

Gritos onde tudo era murmúrio.

O gato passa silencioso e atravessa o opaco em luvas de algodão e espinho.




*Mário Cravo, cujas esculturas haviam sido depredadas.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A bordo de um navio chamado Música.



Temos à frente dois dias inteiros de alto mar - pleno mar.

Agora essa cidadela flutuante cruza a superfície das águas, que neste momento têm uma cor entre o índigo e o plúmbeo.

Deslizamos pela superfície líquida do planeta Terra, de cuja forma esférica tenho neste instante uma clara intuição (não é uma apreensão intelectual; é, antes, proprioceptiva).

Tudo é mar e, apesar do burburinho das 3500 pessoas a bordo, prevalece em mim o profundo silêncio do mar e o aparente deserto de suas águas.

Certamente uma sensação ilusória de deserto; assim é o contraste entre faces e almas, entre o oceano em sua superfície e a intensa, prodigiosa vida que ele contém e é. Talvez o oceano armazene, imenso HD externo, as memórias inconscientes e ancestrais dos homens, como no filme Solaris. O elemento água, que é fluido e fluxo, ineludível mutação, pode fazê-lo, ter impressas em si tais memórias – profundas mas imperceptíveis aos esquemas e visão de aparência.

Aqui estamos singrando um dos sete mares do mundo (pelo menos eram sete na história infantil do Gato Azul, que desistia de cruzar os sete mares do mundo na companhia de Martim Pescador, somente para ficar com Pedrinho, seu dono).

A água nos circunda e nos ampara (maravilha do engenho humano). O navio lhe devolve, em troca, a mais bela renda que alguém jamais terá tecido, em fibra ou areia. Esse desenho cria fosforescências e ilumina as águas agora muito escuras.
Tudo isto se funde neste momento presente e real.

Nenhuma terra à vista; sequer pássaros que sinalizem sua proximidade.

Hoje é 8 de janeiro de 2012. São 17 horas e 3 minutos. Sou profundamente grata pela vida.


(Flashes anotados neste linda caderneta florida que ganhei da querida amiga Marina Massimi)

domingo, 25 de dezembro de 2011


O presépio mais lindo

Uma vez perguntei: a que horas da vida há este sorriso nos olhos dos filhos? Agora sei: nas horas em que deixamos cair o que nos cega e reconhecemos o amor entre nós.

Na hora de Mariana, amor em ciranda.

Ontem era noite de Natal e fizemos ciranda, quatro gerações, em torno do presépio vivo. As palavras sendo ditas eram lindas. O silêncio dizia mais ainda, do puro encantamento de estar ali, a contemplar. Enternecimento, lágrimas. Olhos que brilhavam e sorriam e se sabiam pertencentes.

Assim renasceu o Menino Jesus em nosso presépio vivo.

Bem assim, no meio do que há de mais precioso, e cotidiano, e vivo, ele habitou entre nós.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O poesia.net, de Carlos Machado, está de volta

O excelente Boletim poesia.net, editado por Carlos Machado, está de volta: com Drummond (edição anterior) e, esta semana, com Rubem Braga.

Esta é uma das melhores notícias literárias dos últimos tempos!

Segue o link para o site:

http://www.algumapoesia.com.br/

De lá, é possível acessar o poesia.net e cadastrar-se para recebê-lo regularmente.

Na epígrafe da edição de hoje, Mário Quintana: «Todos os poemas são um mesmo poema.»

Dizia Bruno Tolentino, que foi um dia um amigo querido: "como é possível passar um só dia sem ler poesia"?

É sempre este o meu espanto. É quando sinto que me furto à vida, à verdadeira.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Novidades no Casulo pós-Bienal

Implementei no Casulo essa coisa curiosa que se chama "gadgets". São dois:

a versão digitalizada de "A Impossível Transcrição", em pdf, via ISSUU.

o vídeo (pelo Youtube) da leitura que fiz do poema "Dor", na Praça do Cordel e da Poesia (3/11/11).

São facilmente localizáveis na coluna à direita.

Espero que vocês, leitores, gostem dessas novidades.

sábado, 5 de novembro de 2011

Os novos poetas

Esta Bienal 2011 é um celeiro de jovens poetas - eles me comovem: delicados como Monica Menezes, performáticos como Gibran Sousa, intensos como Darlon Silva. Poetas que já nascem lançados no mundo, em plena sociedade do espetáculo. Menestréis pós-modernos, rompendo fronteiras entre privado e público, ousando novas formas e novos recursos, inscrevendo a poesia na praça, na blogosfera, nas redes sociais (que, afinal, são a praça...).

Queridos jovens poetas, vocês me comovem e me interessam. Quero acompanhá-los e saber de vocês.

Obrigada a José Inácio Vieira de Melo! Você fez a festa e conseguiu reunir essa gente bonita.

Registro, para homenageá-los, o momento especial em que Gibran Souza disse o poema "seu nome" (sem maiúsculas), do jovem poeta paulista Fabrício Corsaletti. Uma pena que não tenhamos o vídeo.



seu nome


“se eu tivesse um bar ele teria o seu nome
se eu tivesse um barco ele teria o seu nome
se eu comprasse uma égua daria a ela o seu nome
minha cadela imaginária tem o seu nome
se eu enlouquecer passarei as tardes repetindo o seu nome
se eu morrer velhinho, no suspiro final balbuciarei o seu nome
se eu for assassinado com a boca cheia de sangue gritarei o seu nome
se encontrarem meu corpo boiando no mar no meu bolso haverá um bilhete com o seu nome
se eu me suicidar ao puxar o gatilho pensarei no seu nome
a primeira garota que beijei tinha o seu nome
na sétima série eu tinha duas amigas com o seu nome
antes de você tive três namoradas com o seu nome
na rua há mulheres que parecem ter o seu nome
na locadora que frequento tem uma moça com o seu nome
às vezes as nuvens quase formam o seu nome
olhando as estrelas é sempre possível desenhar o seu nome
o último verso do famoso poema de Éluard poderia muito bem ser o seu nome
Apollinaire escreveu poemas a Lou porque na loucura da guerra não conseguia lembrar o seu nome
não entendo por que Chico Buarque não compôs uma música para o seu nome
se eu fosse um travesti usaria o seu nome
se um dia eu mudar de sexo adotarei o seu nome
minha mãe me contou que se eu tivesse nascido menina teria o seu nome
se eu tiver uma filha ela terá o seu nome
minha senha do e-mail já foi o seu nome
minha senha do banco é uma variação do seu nome
tenho pena dos seus filhos porque em geral dizem “mãe” em vez do seu nome
tenho pena dos seus pais porque em geral dizem “filha” em vez do seu nome
tenho muita pena dos seus ex-maridos porque associam o termo ex-mulher ao seu nome
tenho inveja do oficial de registro que datilografou pela primeira vez o seu nome
quando fico bêbado falo muito o seu nome
quando estou sóbrio me controlo para não falar demais o seu nome
é difícil falar de você sem mencionar o seu nome
uma vez sonhei que tudo no mundo tinha o seu nome
coelho tinha o seu nome
xícara tinha o seu nome
teleférico tinha o seu nome
no índice onomástico da minha biografia haverá milhares de ocorrências do seu nome
na foto de Korda para onde olha o Che senão para o infinito do seu nome?
algumas professoras da USP seriam menos amargas se tivessem o seu nome
detesto trabalho porque me impede de me concentrar no seu nome
cabala é uma palavra linda, mas não chega aos pés do seu nome
no cabo da minha bengala gravarei o seu nome
não posso ser niilista enquanto existir o seu nome
não posso ser anarquista se isso implicar a degradação do seu nome
não posso ser comunista se tiver que compartilhar o seu nome
não posso ser fascista se não quero impor a outros o seu nome
não posso ser capitalista se não desejo nada além do seu nome
quando saí da casa dos meus pais fui atrás do seu nome
morei três anos num bairro que tinha o seu nome
espero nunca deixar de te amar para não esquecer o seu nome
espero que você nunca me deixe para eu não ser obrigado a esquecer o seu nome
espero nunca te odiar para não ter que odiar o seu nome
espero que você nunca me odeie para eu não ficar arrasado ao ouvir o seu nome
a literatura não me interessa tanto quanto o seu nome
quando a poesia é boa é como o seu nome
quando a poesia é ruim tem algo do seu nome
estou cansado da vida, mas isso não tem nada a ver com o seu nome
estou escrevendo o quinquagésimo oitavo verso sobre o seu nome
talvez eu não seja um poeta a altura do seu nome
por via das dúvidas vou acabar o poema sem dizer explicitamente o seu nome”