quarta-feira, 20 de junho de 2007

Do que é muito para contar

Muita coisa, mesmo! Do lado de fora e dos interiores. Impossível contar aqui, com esse teclado faltando acentos. Mas a viagem está ótima. Depois de Luxemburgo, retorno aqui.

Do que Paris me faz lembrar

Liberté


Paul Eluard
(in Poésies et vérités, 1942)


Sur mes cahiers d'écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable de neige
J'écris ton nom

Sur les pages lues
Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre
J'écris ton nom

Sur les images dorées
Sur les armes des guerriers
Sur la couronne des rois
J'écris ton nom

Sur la jungle et le désert
Sur les nids sur les genêts
Sur l'écho de mon enfance
J'écris ton nom

Sur tous mes chiffons d'azur
Sur l'étang soleil moisi
Sur le lac lune vivante
J'écris ton nom

Sur les champs sur l'horizon
Sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres
J'écris ton nom

Sur chaque bouffées d'aurore
Sur la mer sur les bateaux
Sur la montagne démente
J'écris ton nom

Sur la mousse des nuages
Sur les sueurs de l'orage
Sur la pluie épaisse et fade
J'écris ton nom

Sur les formes scintillantes
Sur les cloches des couleurs
Sur la vérité physique
J'écris ton nom

Sur les sentiers éveillés
Sur les routes déployées
Sur les places qui débordent
J'écris ton nom

Sur la lampe qui s'allume
Sur la lampe qui s'éteint
Sur mes raisons réunies
J'écris ton nom

Sur le fruit coupé en deux
Du miroir et de ma chambre
Sur mon lit coquille vide
J'écris ton nom

Sur mon chien gourmand et tendre
Sur ses oreilles dressées
Sur sa patte maladroite
J'écris ton nom

Sur le tremplin de ma porte
Sur les objets familiers
Sur le flot du feu béni
J'écris ton nom

Sur toute chair accordée
Sur le front de mes amis
Sur chaque main qui se tend
J'écris ton nom

Sur la vitre des surprises
Sur les lèvres attendries
Bien au-dessus du silence
J'écris ton nom

Sur mes refuges détruits
Sur mes phares écroulés
Sur les murs de mon ennui
J'écris ton nom

Sur l'absence sans désir
Sur la solitude nue
Sur les marches de la mort
J'écris ton nom

Sur la santé revenue
Sur le risque disparu
Sur l'espoir sans souvenir
J'écris ton nom

Et par le pouvoir d'un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer

Liberté.




quinta-feira, 14 de junho de 2007

Poema maior


O poema

Mário Quintana


Um poema como um gole d'água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida para sempre na
[floresta noturna.
Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa condição
[de poema.
Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.

Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005.

Blog-episteme (2)

Mas por que uma criatura não pode simplesmente escrever um blog e por ele passear, nesse fazer-dissolver-refazer, sem se perguntar o que é, por que é, qual sua natureza e alcance, status enquanto algo que se publica, etc. etc.?

Presa dessa mania de perguntas e definições (e dessas últimas nem gosto), lá vou eu...

Um blog é um espaço informal, sem marcadores de começo e fim, feito de redes intrapessoais e/ou interpessoais que se conectam e desmancham no ar (literalmente, on-line), sem razão nenhuma que seja necessária, constituinte, definidora.

Sem razão nenhuma: apenas sua misteriosa condição de coisa escrita.
Esse desejo que ninguém diz tão bem quanto Mário Quintana:

Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa condição
de poema..

Pois então: por um tempo esse Casulo será um casulo-postal, onde vou depositar notícias de viagem para eventuais navegantes interessados.

Depois disso, será o que vier a ser.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Blog-episteme

Talvez um blog seja um invólucro, não conhecido, onde se possa guardar, intocado e imperecível, tudo o que de cada dia é o seu duplo, vestígio ou ruína.

domingo, 10 de junho de 2007

Obrigada!

Esse blog escapa de mim e encontra sua dimensão dialógica. Parece que para isso serve um blog, explícito espaço, a um só tempo pessoal e público. Este tem um caráter experimental e não sei ainda me mover dentro dele: deleto partes, perco imagens e até o calendário. Esqueci que usava um pseudônimo. É curioso.

O poema de Carlos Machado inaugura nele cores, imagens e ritmo tão belos que o tornam pleno neste domingo. Nenhuma outra palavra seria mais necessária e é o silêncio emocionado que acompanha meu agradecimento ao amigo, excepcional poeta.

Poema de Carlos Machado

A mulher de maio

Para Ana Cecília

A mulher de maio atravessa,
em linha reta, a Praça do Calendário.
Na cabeça, margaridas espaciais, gatos
ronronantes e receitas de alfenim.
A mulher de maio não cabe em si,
não cabe na cidade. E, no entanto, vai.

Auto-insuficiente, ela se transforma
em outras coisaturas – fio d’água,
beija-flor, lagarta de múltiplas peles,
cartomante sem baralho e cineasta
que desenrola na palma da mão
seu inumerável carretel de prodígios.

A mulher de maio está no meio
da nuvem e dispara uma chuva azul
de bem-me-queres. Quer nascer
de novo. Mas, por enquanto, passa
disfarçada de pedestre diante do Relógio
de São Pedro e de todos os relógios.

07/06/2007

Carta de Francisco Carvalho

Denise Coutinho me envia essa belíssima frase de Barthes:"Escrever implica calar-se, escrever é, de certo modo, fazer-se silencioso como um morto, tornar-se o homem a quem se recusa a última réplica, escrever é oferecer, desde o primeiro momento, essa última réplica ao outro". Barthes, Roland (1999). Crítica e verdade.Trad. Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Perspectiva, p. 15.

Sinto que aí está o mistério da poesia: brumas entre o profundo silêncio e a alteridade.Tenho revisitado (inclusive para alimentar esse blog-experimento) um texto de alguns anos atrás, não publicado, chamado justamente Escritos Extraídos do Silêncio. Ontem reencontrei algo por demais precioso: uma carta de Francisco Carvalho e suas reflexões sobre o ofício da poesia e do estar no mundo (também um ofício, com certeza). Comovida, e como a um tesouro, venho depositá-la aqui.

O Poeta faz 80 anos no próximo dia 11 e Carlos Machado faz uma bela homenagem a ele na última edição do Poesia.Net (http://www.algumapoesia.com.br/poesia.htm).Suas palavras são puro saber poético (sendo meus escritos apenas uma circunstância que lhes serve de objeto), razão pela qual não posso deixá-las guardadas. São para todos, e ao trazê-las aqui lhe faço também minha homenagem e registro de profunda admiração.

Fortaleza, 20 de dezembro de 2004

Cara Poeta Ana Cecília:

Antes de mais nada, registrar o feliz acontecimento, que foi conhecê-la pessoalmente. Dantes, só a imagem desenhada pela imaginação. Agora posso vê-la em pessoa, até mesmo nos subterrâneos da memória.

Li os seus Escritos vagarosamente. A beleza palpita nas entrelinhas, como um peixe acabado de sair do útero da água. A maior beleza é esta que jorra dos conflitos e dilemas do corpo e da alma. E isso já é poesia. Sem dúvidas e perplexidades, seguramente não se faz boa poesia. Adolfo Casais Monteiro nos ensina que a bem-aventurança não produz boa literatura.Pode-se chegar a Deus de olhos fechados? Cegamente? Talvez. Decerto os caminhos de Deus não são juncados de rosas. O mais certo é serem constelados de espinhos. Santo Agostinho e São Paulo (todos sabem disso) só chegaram a Deus depois que provaram dos sabores do pecado. Viveram grande parte de suas vidas cercados de dúvidas e interrogações. Mas, ao final, tombaram “feridos de mortal beleza”.

Ao ler os seus Escritos, a gente percebe facilmente que a poesia está colada à sua pele feito musgo na rocha. Sua prosa expressiva, carregada de conflitos e expectativas, é a plenitude da palavra que desabrocha em poema. Sua maneira de ser e de estar no mundo é essencialmente poética. Pilastras desse universo interior que é a sua visão do mundo.

Não escrever sempre, ou escrever apenas a longos intervalos, é absolutamente natural e até mesmo salutar. Quando se extrai muito água de um poço, será preciso dar-lhe tempo para recuperar a água perdida. O mesmo se dá com os poetas: se escrevem de forma compulsiva, correm o risco de se repetir, ou de chover no molhado, como nos adverte a sabedoria popular. Os prodigiosos veios poéticos também costumam se exaurir.

Mas tudo isso você já sabe desde os tempos do dilúvio. Poetas da sua qualidade velejam nos mares da intemporalidade. “E há tempo e reconhecimento para isso, agora sei o lugar onde dói, entre o coração e o diafragma”. A beleza dos Escritos começa justamente onde há “Tanta dúvida, tão pouca certeza. Mulher de pouca fé. A dúvida me tortura, como um ethos sem o qual não sou”. Aqui, já estamos “feridos de mortal beleza”. E a poesia, como diz você, “é o milagre que aplaca esse alvoroço, esse nó na garganta”.

Deus cava abismos para todos nós, até mesmo para os que não são poetas, mas apenas vassalos de sua misericórdia. “Deus cava abismos” para todos, é verdade, mas os faz mais caprichados para os poetas. Você fala em “milagre definitivo”. E eu lhe digo que o ser humano, com todas as suas vulnerabilidades e contradições, é o clímax do “milagre definitivo”. Basta atentar para as singularidades do corpo, mais complexo e preciso que a mais sofisticada engrenagem de um relógio suíço, para concluir que somos o milagre mais alto de todas as hierarquias da criação. Milagre que raciocina e escreve poemas; milagre que se manifesta nas grandes e pequenas coisas, nas palavras que criam sensações, no amor que se multiplica como os peixes do Tiberíades para alimentar a diáspora dos judeus no deserto.

“Eclipses ocultos dentro de mim. Contínua implosão marcando minha voz, minha pele, meu corpo. Sempre à flor da pele, essa sensibilidade, mesmo quando não estou, quando me ausento, me congelo”. Tudo isso é poesia jorrando do mais íntimo do ser, das imponderabilidades da alma. “A vida me atravessa sempre”. Quanta energia, quanta densidade espiritual não se desprende dessas palavras! Sua poesia nos convoca para reflexões mais profundas, para as epifanias de um tempo em que a palavra era o verbo primordial.

Toda essa retórica para dizer-lhe que os seus Escritos do Silêncio estão impregnados da melhor poesia. Um mergulho do ser na plenitude do húmus essencial. Você, amiga Ana Cecília, é uma Poeta. Sem adjetivos. Sem meias palavras. A poesia está entranhada em você, musgo na rocha de Deus. Sua forma de expressão é essencialmente poética. Chego a pensar que se você redigisse o preâmbulo de um balancete bancário, você o faria seguramente numa perspectiva poética. Talvez o banco fosse à falência, mas o balancete-poema ficaria nos anais da literatura.

Qualquer que fosse a sua profissão: bancária, economista, geóloga, aeromoça, aeromusa, pesquisadora da ONU ou do Pentágono, pastora de centauros, coordenadora da comissão dos admiradores da Cabeleira de Berenice – você poderia ser tudo isso mas, na hora de escrever, enquadraria todas essas coisas na moldura da gramática estética. A poesia está em você como a águia nos píncaros das cordilheiras. Você é a poesia. E, como tal, deve elevar o mais alto possível o privilégio desse estigma. Todas as admirações e sinceros votos de feliz Natal para todos os que lhe são caros. Afetuosamente, o

Francisco Carvalho

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Um gato chamado Milk

Como tem gente aqui em casa reclamando - por que uma homenagem a Shake e não a Milk? - completo o registro sobre essa dupla inseparável.
Milkinho é um gato persa amarelo muito inteligente e elegante. Desde que era um filhote, ele é absolutamente convicto de que é o rei dos animais. Porisso atravessa o espaço em direção aos lugares mais altos, seus por direito natural, de onde pode nos olhar de cima e observar tudo o que se passa em seus domínios - que por vezes incluía inadvertidos versos...
E aqui termina a felina saga poética, prometo!


Definição do gato.


Contato portátil com a natureza.
Nuvem atravessando a mesa
e outros espaços imprevistos.

Nova casa se revela
na fotografia
felina,
em ângulos de precisão
e neblina.

O mundo visto em sobressaltos:
O desafio e o salto,
sempre mais alto,
sempre mais belo,
o gato amarelo.
Elo.

Imagens de Salvador sitiada

O silêncio felino nestas noites em que o absurdo nos toma.
As fotos de Salvador tomada pela violência.
Em Pituaçu, o artista palmilha silencioso e melancólico os vestígios da destruição.
Perplexo, atônito.

A criança chora sem nada compreender.
O desconexo das imagens e o longo caminho
da cidade.
A cidade submersa, a cidade ao sol.
O corpo ferido da cidade.
A cidade viva e violenta.
A morte.
Busco a sintonia possível com seu movimento sempre tão dentro
da minha própria pele.

A cidade emudece, paralisada.
Silêncio onde havia gritos e algazarra.
Gritos onde tudo era murmúrio.
O gato passa silencioso e atravessa o opaco em luvas de algodão e espinho.


quinta-feira, 7 de junho de 2007

Um gato chamado Shake

Sim, adoro gatos. Os meus queridos, Milk e Shake, foram desterrados, mas vou visitá-los sempre. Sinto falta de seu movimento pela casa. Hoje fui almoçar com meu pai, por seu aniversário. Meu irmão poeta fez um lindo presente para ele e o mundo ficou pura beleza e coração.
Depois visitei os gatos e o mundo ficou aveludado.
Um poeta é a alma da vida perambulando pela casa.
Um gato é contato portátil com a natureza.
Às vezes escrevi versos para eles.


A novidade


Pequeno gatinho ronronante,
bamboleante pela casa.
Ele passa, orelhas e bigode
desfazendo esse celofane de cansaço e monotonia.

O gatinho passa e em seu movimento
toda cor é bela,
todo som é festa,
toda alegria é luz.

Esse gatinho que faz do cinza
Pura beleza em mil tons.

Vertigem

E Deus que me chama, de Sua misericórdia, e me mostra caminhos, e cava abismos diante de mim para que eu possa ter a exata medida do meu ser.
Para que eu não me fixe nem me instale a não ser na vertigem de Sua morada. Este Reino que não é deste mundo mas nele se constrói, neste caminho de maravilha, assombro, pavor e miséria.
Esta, a única conexão possível, tudo o mais circunstância, caminhada, contingência.
Deus cava abismos diante de mim para que eu seja salva.

terça-feira, 5 de junho de 2007

Meu pai faz 85 anos

Meu pai faz 85 anos.
Tantos anos de amor presente em nossas vidas.
Penso em legados, transmissão intergeracional.
O marcador de emoção e beleza em seu modo de estar na vida.
Lembro quando contou: “estava ouvindo o Adágio de Albinoni quando chegou a notícia do início da guerra”.
A tristeza da música, indefectível, bela, e o trágico.
Seu impacto sobre aquele jovem, tão próximo ao impacto que para mim têm certas notícias do mundo.
O mundo me afeta, sim. Sua tragédia, seu enredo desesperado. A vida normal, cais que construímos, talvez em vão, sem rumo, talvez rumo ao destino...

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Comoção

JUNHO

Alceu Valença/Geraldo Valença

Eu sei que é junho, o doido e gris seteiro
Com seu capuz escuro e bolorento
As setas que passaram com o vento
Zunindo pela noite, no telheiro
Eu sei que é junho, esse relógio lento
Esse punhal de lesma, esse ponteiro,
Esse morcego em volta do candeeiro
E o chumbo de um velho pensamento
Eu sei que é junho, o barro dessas horas
O berro desses céus, ai, de anti-auroras
E essas cisternas, sombra, cinza, sul
E esses aquários fundos, cristalinos
Onde vão se afogar mudos meninos
Entre peixinhos de geléia azul