domingo, 10 de junho de 2007

Carta de Francisco Carvalho

Denise Coutinho me envia essa belíssima frase de Barthes:"Escrever implica calar-se, escrever é, de certo modo, fazer-se silencioso como um morto, tornar-se o homem a quem se recusa a última réplica, escrever é oferecer, desde o primeiro momento, essa última réplica ao outro". Barthes, Roland (1999). Crítica e verdade.Trad. Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Perspectiva, p. 15.

Sinto que aí está o mistério da poesia: brumas entre o profundo silêncio e a alteridade.Tenho revisitado (inclusive para alimentar esse blog-experimento) um texto de alguns anos atrás, não publicado, chamado justamente Escritos Extraídos do Silêncio. Ontem reencontrei algo por demais precioso: uma carta de Francisco Carvalho e suas reflexões sobre o ofício da poesia e do estar no mundo (também um ofício, com certeza). Comovida, e como a um tesouro, venho depositá-la aqui.

O Poeta faz 80 anos no próximo dia 11 e Carlos Machado faz uma bela homenagem a ele na última edição do Poesia.Net (http://www.algumapoesia.com.br/poesia.htm).Suas palavras são puro saber poético (sendo meus escritos apenas uma circunstância que lhes serve de objeto), razão pela qual não posso deixá-las guardadas. São para todos, e ao trazê-las aqui lhe faço também minha homenagem e registro de profunda admiração.

Fortaleza, 20 de dezembro de 2004

Cara Poeta Ana Cecília:

Antes de mais nada, registrar o feliz acontecimento, que foi conhecê-la pessoalmente. Dantes, só a imagem desenhada pela imaginação. Agora posso vê-la em pessoa, até mesmo nos subterrâneos da memória.

Li os seus Escritos vagarosamente. A beleza palpita nas entrelinhas, como um peixe acabado de sair do útero da água. A maior beleza é esta que jorra dos conflitos e dilemas do corpo e da alma. E isso já é poesia. Sem dúvidas e perplexidades, seguramente não se faz boa poesia. Adolfo Casais Monteiro nos ensina que a bem-aventurança não produz boa literatura.Pode-se chegar a Deus de olhos fechados? Cegamente? Talvez. Decerto os caminhos de Deus não são juncados de rosas. O mais certo é serem constelados de espinhos. Santo Agostinho e São Paulo (todos sabem disso) só chegaram a Deus depois que provaram dos sabores do pecado. Viveram grande parte de suas vidas cercados de dúvidas e interrogações. Mas, ao final, tombaram “feridos de mortal beleza”.

Ao ler os seus Escritos, a gente percebe facilmente que a poesia está colada à sua pele feito musgo na rocha. Sua prosa expressiva, carregada de conflitos e expectativas, é a plenitude da palavra que desabrocha em poema. Sua maneira de ser e de estar no mundo é essencialmente poética. Pilastras desse universo interior que é a sua visão do mundo.

Não escrever sempre, ou escrever apenas a longos intervalos, é absolutamente natural e até mesmo salutar. Quando se extrai muito água de um poço, será preciso dar-lhe tempo para recuperar a água perdida. O mesmo se dá com os poetas: se escrevem de forma compulsiva, correm o risco de se repetir, ou de chover no molhado, como nos adverte a sabedoria popular. Os prodigiosos veios poéticos também costumam se exaurir.

Mas tudo isso você já sabe desde os tempos do dilúvio. Poetas da sua qualidade velejam nos mares da intemporalidade. “E há tempo e reconhecimento para isso, agora sei o lugar onde dói, entre o coração e o diafragma”. A beleza dos Escritos começa justamente onde há “Tanta dúvida, tão pouca certeza. Mulher de pouca fé. A dúvida me tortura, como um ethos sem o qual não sou”. Aqui, já estamos “feridos de mortal beleza”. E a poesia, como diz você, “é o milagre que aplaca esse alvoroço, esse nó na garganta”.

Deus cava abismos para todos nós, até mesmo para os que não são poetas, mas apenas vassalos de sua misericórdia. “Deus cava abismos” para todos, é verdade, mas os faz mais caprichados para os poetas. Você fala em “milagre definitivo”. E eu lhe digo que o ser humano, com todas as suas vulnerabilidades e contradições, é o clímax do “milagre definitivo”. Basta atentar para as singularidades do corpo, mais complexo e preciso que a mais sofisticada engrenagem de um relógio suíço, para concluir que somos o milagre mais alto de todas as hierarquias da criação. Milagre que raciocina e escreve poemas; milagre que se manifesta nas grandes e pequenas coisas, nas palavras que criam sensações, no amor que se multiplica como os peixes do Tiberíades para alimentar a diáspora dos judeus no deserto.

“Eclipses ocultos dentro de mim. Contínua implosão marcando minha voz, minha pele, meu corpo. Sempre à flor da pele, essa sensibilidade, mesmo quando não estou, quando me ausento, me congelo”. Tudo isso é poesia jorrando do mais íntimo do ser, das imponderabilidades da alma. “A vida me atravessa sempre”. Quanta energia, quanta densidade espiritual não se desprende dessas palavras! Sua poesia nos convoca para reflexões mais profundas, para as epifanias de um tempo em que a palavra era o verbo primordial.

Toda essa retórica para dizer-lhe que os seus Escritos do Silêncio estão impregnados da melhor poesia. Um mergulho do ser na plenitude do húmus essencial. Você, amiga Ana Cecília, é uma Poeta. Sem adjetivos. Sem meias palavras. A poesia está entranhada em você, musgo na rocha de Deus. Sua forma de expressão é essencialmente poética. Chego a pensar que se você redigisse o preâmbulo de um balancete bancário, você o faria seguramente numa perspectiva poética. Talvez o banco fosse à falência, mas o balancete-poema ficaria nos anais da literatura.

Qualquer que fosse a sua profissão: bancária, economista, geóloga, aeromoça, aeromusa, pesquisadora da ONU ou do Pentágono, pastora de centauros, coordenadora da comissão dos admiradores da Cabeleira de Berenice – você poderia ser tudo isso mas, na hora de escrever, enquadraria todas essas coisas na moldura da gramática estética. A poesia está em você como a águia nos píncaros das cordilheiras. Você é a poesia. E, como tal, deve elevar o mais alto possível o privilégio desse estigma. Todas as admirações e sinceros votos de feliz Natal para todos os que lhe são caros. Afetuosamente, o

Francisco Carvalho

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