Poema de Carlos Machado

A mulher de maio

Para Ana Cecília

A mulher de maio atravessa,
em linha reta, a Praça do Calendário.
Na cabeça, margaridas espaciais, gatos
ronronantes e receitas de alfenim.
A mulher de maio não cabe em si,
não cabe na cidade. E, no entanto, vai.

Auto-insuficiente, ela se transforma
em outras coisaturas – fio d’água,
beija-flor, lagarta de múltiplas peles,
cartomante sem baralho e cineasta
que desenrola na palma da mão
seu inumerável carretel de prodígios.

A mulher de maio está no meio
da nuvem e dispara uma chuva azul
de bem-me-queres. Quer nascer
de novo. Mas, por enquanto, passa
disfarçada de pedestre diante do Relógio
de São Pedro e de todos os relógios.

07/06/2007

Comentários

líria porto disse…
belíssimo este poema que acabo de ler no livro de carlos machado - tesoura cega.

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