terça-feira, 31 de julho de 2007

Londres

Anotei do relógio no chão da praça, próximo a Westminster:

“O God! Methinks it were a happy life,
To be no better than a homely swain;
To sit upon a hill, as I do now,
To carve out dials quaintly, point by point,
Thereby to see the minutes how they run,
How many make the hour full complete;
How many hours bring about the day;
How many days will finish up the year;
How many years a mortal man may live
".

De Henry VI, Parte III.
Shakespeare

Canções que eles fizeram para nós

PARADEIRO

Arnaldo Antunes,
Marisa Monte e Carlinhos Brown


Haverá paradeiro
para o nosso desejo
dentro ou fora de um vício?

uns preferem dinheiro
outros querem um passeio
perto do precipício

uns vão de pára-quedas
outros juntam moedas
antes do prejuízo

num momento propício
haverá paradeiro para isso?

haverá paradeiro para
o nosso desejo
dentro ou fora de nós?

haverá paraíso
sem perder o juízo e
sem morrer?

haverá pára-raio
para o nosso desmaio
no momento preciso?


CAIS

Milton Nascimento e Ronaldo Bastos

Para quem quer se soltar
Invento o cais
Invento mais que a solidão me dá
Invento lua nova a clarear
Invento o amor e sei a dor
de me lançar

Eu queria ser feliz
Invento o mar
Invento em mim
O sonhador

Para quem quer me seguir
Eu quero mais
Tenho o caminho do que sempre quis
E um saveiro pronto pra partir
Invento o cais
e sei a vez de me lançar.

domingo, 29 de julho de 2007

Poema de Isabel Maria Sampaio de Oliveira Lima


Isabel é minha amiga querida, irmã em planos de intocável referência.

Incluo aqui este seu poema, jóia entre muitas.

Somente porque vejo é que acredito que alguém pode sentir e escrever assim como ela.

Obrigada, Bel, por você e pelo milagre de sua palavra ligando Deus e homens e mulheres, abraçando generosamente nossa humanidade.




Habita em mim o mistério

Habita em mim o mistério

e em cada um, sua porção.

Nenhuma medida contém o infinito

Nenhum contingente dá limite

e nenhum espelho reflete a imagem inteira.

Habita em mim o mistério

e eu limpo, com um paninho de flanela,

a opacidade tanta deste humano espelho

onde, em sorriso, Deus se reflete

imenso e farto

borda musical de misericórdia

raiz e vento

vertigem de sossego de mim.

Nada O retém ou O transporta

porque, mistério pleno, não tem verbo

verbo nenhum que Lhe agasalhe a grandeza.

Melhor assim para amá-Lo inteira e analfabeta

enquanto sigo, no espelho, Seu hálito refletido

ajardinando meu medo em madressilva.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Espólio


Ia morreu em maio. Ontem chegou para mim uma caixa com pertences dela.


Seis panos de prato.
Um conjunto de panos bordados para a cesta de pães.
Meu copinho de prata quando criança.
Sete porta-retratos.
Muitas fotografias nossas, a família que minha mãe lhe deu enquanto ela ajudava a cuidar de nós.
Fotos de todos nós quando crianças, e fotos de nossos filhos.
Um rádio Phillips All Transistor, anos 60 ou 70, ainda guardado em sua caixa original.
Presentes que lhe dei, ainda intactos.
Um vestido cuja costura não se concluiu.
Meu primeiro diário de viagem, aos onze anos de idade, que eu julgava perdido.
Uma camisola de dormir, bordada.
Suas anotações de uma viagem a Recife, 1966.
Um terço de contas peroladas e douradas.
Uma foto minha e de Maninha dentro de um pequeno binóculo.
Um terço de madeira de Belém, guardado de uma peregrinação.
Meus talheres de prata quando criança.
Uma imagem de Nossa Senhora da Rosa Mística, que gira ao som de “Noite Feliz” e brilha quando no escuro.
Meu diário da quarta série ginasial.
Fotos de pessoas que já morreram.
Sua foto junto ao túmulo da irmã, o qual ela arrumou para ser enterrada junto, mas que não foi mais localizado no cemitério.
As fotos de seu aniversário de 90 anos, que comemoramos no ano de 2001 em minha casa, sua única festa de aniversário desde que me entendo por gente.
Uma caderneta de poupança do dinheiro ganho costurando dia após dia por toda a vida, guardada dentro de saco plástico mais envelope e cujo valor não chega a cinco por cento do que se paga no Brasil por mês a um deputado.
Muitas anotações em fins de noite registrando as horas do dia.
Uma missa rezada na intenção de minha mãe por seu aniversário.
Muitas missas que assistiu como se fossem (e eram) festas.
Muitas saudades do tempo em que viveu conosco.
Uma nostalgia do mar da Bahia.
Saudades de alguém que ficou em segredo.
Saudades de mim, que talvez não estivesse lembrando dela naquela ocasião.
Muitos registros marcando o tempo da vida de outras pessoas.
Um saber de quem chegou e de quem partiu, em tal dia e tais horas.
Um encantamento pelas luzes da cidade e pela festa que há no mundo,
e pelos aeroportos com aviões chegando e saindo.
Uma animação a cada viagem.
Uma alegria infinita pelas luzes do Natal e pelas festas dos santos padroeiros.
Muitos dias passando mal do estômago e do fígado.
Uma dose de medo das estradas quando se viaja e dos ônibus “que não merecem confiança”.
Registro das refeições feitas e por trás disso o medo de quando passou fome, seu maior medo na vida.
Muitas horas esperando o trem.
Muitas viagens marcadas sem se saber o tempo de chegar.
Uma rotina sempre a mesma.
“Arranjar” a casa - costurar saias vestidos panos diversos -
ouvir rádio- conversar - ir ao comércio - assistir novelas - dormir.
Uma imensa
solidão.

Memórias em tempo de luto

Já aos 96, após se dar conta, um mês antes, de que "estava envelhecendo", ela um dia sentiu-se cansada, sentou-se, deitou-se e suavemente morreu.

Assim meu irmão Paulo, poeta de sonhos e pássaros, recorda sua vida:

Ia

Conheci uma mãe, que foi capaz de ser mãe, mesmo de quem já tinha uma.
Ela pegou a linha da vida que enchia o carretel do destino e começou a desenrolar.
Foi puxando a linha e dando voltas, até que descobriu que poderia
com ela costurar o tecido da existência que chegava o tempo todo às suas mãos.
Desenhando, cortando e alinhavando, juntou retalhos da vida
e fez deles uma bonita colcha.

Aprendeu a costurar acordos com os outros.
Elaborou, com paciência, uma pequena mas segura trama de laços de ternura.
Parece que a paciência não lhe foi de grande serventia
no caso de buscar para ela um alfaiate.
Escolheu viver sem um.
Ajudou a vestir meninos, meninas, rapazes e moças, senhoras e senhores.
Fazia reparos, recriava guarda-roupas, cuidava de crianças.
Pregava botões e fazia pequenas maravilhas com a máquina de costura, sua roca de 220 volts.

Com a saliva de seus lábios umedecia a ponta da linha,
para que pudesse passar pelo buraco da agulha, no lugar de camelos(1).
Dado o nó firme, começava o festival de idas e voltas, a dança ágil da agulha em seus dedos,
tudo acompanhado de perto pela sua vista apurada.

Ia não dava ponto sem nó.
Sabia tratar cada um e ganhar o respeito de todos.
No tecido do seu rosto sempre se viu a estampa clara de um sorriso,
singelo riri (2) que raramente se fechava.
Seu mau humor ocasional era volátil e depressa se extinguia
depois do terceiro ou quarto “dhabo!”, herança sonora do sertão.
Logo voltava a ser a afável Ia, que seus filhos pelo coração abreviaram de Maria,
seu nome, bonito e bem aplicado como um colchete.

Latas de Leite Ninho ou de Farinha Láctea eram seus pequenos baús portáteis,
além das caixas de papelão, onde levava sempre doces do Cariri,
biscoitos, sequilhos, rapaduras, bolachas de padaria e a inseparável Cream Craker Fortaleza.
Era para as crianças. Era ela, sem dúvida, uma das beneficiadas.
Fortaleza, Recife e Salvador eram suas rotas freqüentes,
vencidas a bordo de trens da RFFSA ou dos ônibus da Pernambucana,
Rio Negro, Princesa do Agreste, Penha e São Luís.
Jamais embarcava sem suas estimadas especiarias!

Ia sabia que um botão era para uma casa,
mas que somente uma série de casas bem abotoadas poderia deixar firme a camisa no corpo.
Por isto, vivia de casa em casa, percebendo cedo
que as casas dos parentes eram acolhedoras para ela.
Ainda que únicas e diversas, formavam um tecido bastante resistente,
multicolorido e fácil de costurar.
Não lhe faltavam quarto, comida, dinheiro, afeto e assunto.

Entre novelas, novelos e merendas, partilhou das refeições diárias e da vida de famílias
que aprenderam rapidamente a amá-la, muito além dos laços de sangue.
Algumas gerações de crianças e jovens passaram por ela e por lições de corte e costura,
aplicadas ao cotidiano de cada um.

Quinta-feira passada, no final da tarde,
Maria encontrou a outra ponta do carretel que começara a desenrolar há quase cem anos.
Não esperou para ver o Papa na televisão, mas ainda recebeu sua benção à distância.
Nunca faltava às missas, fosse ela onde fosse.
E o que fez Ia com a ponta da linha?
Simplesmente a molhou de saliva, a fez passar por um pequeno portal de luz,
desta vez sem dar nó, e a entregou a Quem a colocara em suas mãos quando o carretel estava cheio.

Agora, que tem assegurado seu ofício no atelier do Criador,
vai pintar e bordar como sempre fez,
com a sua maneira peculiar de cozer e arrematar

Ia, que agora foi, fica em nós, com seu nome caprichosamente bordado
no lado avesso dos nossos corações.
Vão-se os botões, ficam as casas, que esta mãe de muitos filhos
ajudou a consolidar como casas.

Essa estória daria muito pano pra manga.
São lembranças, são retalhos.
Justo mesmo é parar neste ponto, pois não conheço o pano todo
nem sou capaz de tecer muitos comentários.

Pode ser que a homenagem aqui ensaiada lhe caia bem.
Mas Maria o faria melhor.
Por ter a mestria de desembaraçar as linhas tortas da vida, não teria aperreio
ao desembaraçar estas mal traçadas linhas.

Alguém poderia perguntar:
“Mas, qual era o segredo dessa mãe-costureira que viveu tanto?”
A resposta é muito simples:
- O seu bom coração de criança: Ia ria!


Paulo de Tarso

Salvador, sábado, 12 de Maio de 2007



(1) Referência ao texto bíblico que afirma: “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus”. (Marcos, 10, 17-30 [26] ).

(2) Riri é o nome que se dá ao éclair no sertão do Ceará.

domingo, 22 de julho de 2007

O mais querido poeta



Neste domingo, um poema de meu pai :


Uma nuvem... um saveiro...


Uma única nuvem no céu,
Um só saveiro no mar.

Um saveiro, assim branquinho,
é nuvem por sobre o mar.

Uma nuvem, assim distante,
é saveiro a navegar.

Não poderei esquecer
a tarde peninsular:

Uma só nuvem no céu,
um só saveiro no mar.

(José Newton Alves de Sousa. Poemar. Salvador, Contemp, 1982.
Um livro dedicado "Aos que sonham, aos que lutam, aos que amam").

sábado, 21 de julho de 2007

Felinos



Minha irmã, que é minha melhor amiga, me deu de presente pelo dia do amigo fotos e este poema felino:

Ana,
os seus "amores" pelo dia do amigo.
Não pode tê-los.
Apenas, vê-los.
Os pelos são a sua pena.
Que pena!
São suaves como penas
E os pelos macios
Massageiam a nossa alma.
Mesmo com loratadina
vale a pena tocá-los.

Beijos,
Bia.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Procura



Drummond é um poeta que se ama de forma total. Impossível escolher um livro seu, um poema, de forma absoluta. Mas entre seus poemas, um de meus favoritos é Nosso Tempo, que traz esses versos definitivos:

Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono,
luz dormindo acesa na varanda?



Não sei porque retorna, em tempo de mega-eventos (megaviagens, megacongressos).

Através desses acontecimentos grandiosos é o encontro que brilha. A amiga com tantas responsabilidades no congresso e que, entre tanto (coisas que a mim me deixariam esgotada), lembra de me perguntar por minha saúde. Esse registro pessoal é uma versão real, em carne viva, da imaginação ética (nome dado por Arendt, conforme aprendi), que implica em deixar-se afetar pelo outro como valor, pelo que é público e interessa aos outros. Esse gesto pessoal, naquele contexto, vale uma conferência inteira.

Assim como, em meio ao turismo e seus tentáculos e através da deslumbrante e fossilizada beleza do velho mundo, que parecem, ambos, nos subtrair o real da experiência em si mesma, o que mais valeu foram os encontros com as pessoas em seu cotidiano - aquilo que não foi fotografado mas permanece.

Também a obsessiva vigilância se desfaz. Penso em escrever um post: “brincos, rinossoro e terrorismo”. Sobre o controle no aeroporto de Londres, ritual desesperado, entre o trágico e o risível. A seriedade dos agentes manuseando um vidro de soro fisiológico ou uma bolsinha com brincos e nos dizendo: I'm looking for explosives. Mas passou a hora, crônica extemporânea. O tempo dos blogs é escorregadio, descartável talvez. Já não lembro, são reais, aqueles gestos de tão relativa resolutividade? Pobre ser humano, perdido entre rituais inúteis, que apenas persistem e nada asseguram.


domingo, 8 de julho de 2007

Até um dia, Bruno

Em 01 de julho
Vou chegar de volta e no Brasil não estará mais Bruno Tolentino.
Escrevi para ele quando ainda no hospital: "a saudade dos amigos é azul". Mas haverá cor para definir a insuperável falta que faz um Poeta como Bruno?
Sua poesia, é certo, não morre. Grande, única, sem igual na literatura brasileira.
A morte do poeta é, contudo, imensa; estava com ele há muito tempo, menos em seu corpo que em sua infinitamente lúcida consciência do próprio destino.

Em silêncio, transcrevo aqui apresentação e poemas selecionados, por Juliana Pasquarelli Perez, publicados no site Fé e Cultura: http://www.pucsp.br/fecultura/textos/via_da_beleza/poemas_bruno_tolentino.html.


Bruno Tolentino (12 novembro 1940 – 27 junho 2007) foi um dos maiores poetas católicos da Língua Portuguesa em todos os tempos, ganhador de dois prêmios Jabuti de Poesia e finalista para um terceiro em 2007. A seguir, poesias selecionadas de seus três livros mais importantes.

A imitação do amanhecer
(Ed. Globo, finalista para o Prêmio Jabuti de 2007)

Em frontispício
“Eu vos compensarei pelos anos que o gafanhoto comeu...” (Joel, 2: 25)

O Senhor prometera nos compensar os anos
que a legião dos gafanhotos devorara,
meu coração, mas a promessa era tão rara
que achei mais natural vê-Lo mudar de planos

que afinal ocupar-Se de assuntos tão mundanos.
Assombra-me, portanto, ver uma luz tão clara
fecundar-me as cantigas, coração meu – repara
como crescem espigas entre escombros humanos...

Naturalmente, quem sou eu para que Deus
cumprisse em minha vida promessa tão perfeita,
e no entanto ei-Lo arando, limpando os olhos meus,

fazendo-os ver que, no trigal em que se deita
a luz dourada e musical, se algo perdeu-se
foi como grão – entre a seara e a colheita.


II. 63
Há algo mais que me ocorre a propósito disto,
um algo mais que há de ser sempre a diferença
entre a vaga oratória que chamamos de “crença”
e o sentido da História: esse “algo mais” é o Cristo.
Ou Jesus, se preferem; ou Joshua, o homem visto
em seu corpo de glória. A visão era intensa,
mas não era outra imagem: a Perfeita Presença
não é um personagem ou uma noção, é um quisto,
uma intrusão carnal por sob o imaginário
de cada ocidental. Que pode não segui-Lo,
reembobinar a História, ater-se a isto ou àquilo,
e dar o resto às Parcas... Mas resta que, ao contrário
do óbvio e do imprevisto, o Verbo, a Forma e o Estilo
são o Corpo do Cristo, o uno por trás do vário.


II. 64
Ninguém fará jamais da mera negação
um solo firme, um chão em que edifique nada,
e a fábula do ser é uma edificação,
que fazer...? Edifica-se a Cruz quando a alvorada
prega os braços da luz num muro, ante a calçada
de um terreno baldio, num vazio, num vão
entre este mundo e seus reflexos na amplidão:
é ali que o ser, na escuridão crucificada,
recobra uma vez mais solidez e estatura.
Se a História fosse apenas uma charada triste,
uma tirada à parte do Todo, à criatura
ainda lhe restaria aquela Cruz em riste
de encontro a um Céu em derrocada: “Deus existe”
(soluça o nada); “Um corpo morre mas procura-O!”.


III. 116
Deixai-me entre esses dois extremos exemplares:
a dor elementar, de Estela senciente,
de um grande cervo branco ante a noite iminente,
e a rosa itinerante de todos os lugares,
de todos os instantes de Alexandria... Os pares
perfeitos são opostos, e entre um deles, à frente
um sol como fantasma, atrás a luz cadente,
hei de durar sozinho enquanto tu durares,
ó labareda ao longe, ó cego atrás do lume,
ó vivo amor da viuvez como perfume,
ó limpa, ó lúcida altivez, ó cervo agora
e para sempre oposto à imitação da aurora,
que o velho Egito diviniza!
Numa saudade é a eternidade que agoniza.

As horas de Katharina
(Companhia das Letras, ganhador do Prêmio Jabuti em 1994)

Os rascunhos e a túnica

II

Existe a realidade e existe o sopro
do real, a vertigem instauradora;
existe aquele susto e, mais não fora,
existe a grande aspiração do corpo.

Porque existe no corpo uma incorpórea
Inquietação, a vocação do morto
em ser mais que seu corpo.
Porque o corpo nesta vida estraçalha-se por fora

mas é salvo por dentro. Existe aquilo
que os sentidos agarram na corrida
e largam para trás, por não feri-lo

demais, o corpo ponto de partida.
Nobre demais para viver tranqüilo.
Pobre demais para conter a vida.


105
Celebrar este mundo adivinhando
a incurável beleza, a inabalável
certeza do esplendor interminável
da luz de Deus, aurora ruminando

para sempre a quietude do imutável.
Somos reflexos dessa luz, um bando
de flamingos ardendo, misturando-
se ao sol nascente, ao inimaginável

incêndio indescritível, todo asas,
todo luz... Somos feitos como brasas
abrindo o vôo,

somos como o vôo
dos flamingos em brasa ao oriente...
E nunca há de se apagar aquele ardente
sol perfeito que neles se espelhou.


O mundo como idéia
(Editora Globo, Prêmio Jabuti de 2003)

Ao divino assassino

[...] Talvez na pressa,

no pânico de Pedro, eu negue um dia
e trate de escapar, mas hoje não;
hoje sofro com fé e, sem poesia,

metrifico uma dor sem solução,
mas não vim negar nada! Faz efeito
essa dor: faz sangrar, mas faz questão

de defender-me como um parapeito
contra a queda e a revolta. Um Botticelli
despedaçou-se todo, mas que jeito,

se por Lear enforcam uma Cordélia
e encarceram a Ariel por Calibã...?
Alvorece, a manhã beata velha

enfia agulhas no Teu céu de lã,
antenas às Tuas cenas de TV,
e eu penso: ela morreu... Hoje, amanhã,

enquanto Te aprouver e até que dê
a palma do prego e o último verso à traça,
vai dor – mas Amém! Não há porque

amar a morte, mas que venha a Taça,
aceito suar sangue até o final,
como não... Tudo dói, menos a graça,

mata, Senhor, que a morte não faz mal!
(Paray-le-Munial, 1979)