domingo, 8 de julho de 2007

Até um dia, Bruno

Em 01 de julho
Vou chegar de volta e no Brasil não estará mais Bruno Tolentino.
Escrevi para ele quando ainda no hospital: "a saudade dos amigos é azul". Mas haverá cor para definir a insuperável falta que faz um Poeta como Bruno?
Sua poesia, é certo, não morre. Grande, única, sem igual na literatura brasileira.
A morte do poeta é, contudo, imensa; estava com ele há muito tempo, menos em seu corpo que em sua infinitamente lúcida consciência do próprio destino.

Em silêncio, transcrevo aqui apresentação e poemas selecionados, por Juliana Pasquarelli Perez, publicados no site Fé e Cultura: http://www.pucsp.br/fecultura/textos/via_da_beleza/poemas_bruno_tolentino.html.


Bruno Tolentino (12 novembro 1940 – 27 junho 2007) foi um dos maiores poetas católicos da Língua Portuguesa em todos os tempos, ganhador de dois prêmios Jabuti de Poesia e finalista para um terceiro em 2007. A seguir, poesias selecionadas de seus três livros mais importantes.

A imitação do amanhecer
(Ed. Globo, finalista para o Prêmio Jabuti de 2007)

Em frontispício
“Eu vos compensarei pelos anos que o gafanhoto comeu...” (Joel, 2: 25)

O Senhor prometera nos compensar os anos
que a legião dos gafanhotos devorara,
meu coração, mas a promessa era tão rara
que achei mais natural vê-Lo mudar de planos

que afinal ocupar-Se de assuntos tão mundanos.
Assombra-me, portanto, ver uma luz tão clara
fecundar-me as cantigas, coração meu – repara
como crescem espigas entre escombros humanos...

Naturalmente, quem sou eu para que Deus
cumprisse em minha vida promessa tão perfeita,
e no entanto ei-Lo arando, limpando os olhos meus,

fazendo-os ver que, no trigal em que se deita
a luz dourada e musical, se algo perdeu-se
foi como grão – entre a seara e a colheita.


II. 63
Há algo mais que me ocorre a propósito disto,
um algo mais que há de ser sempre a diferença
entre a vaga oratória que chamamos de “crença”
e o sentido da História: esse “algo mais” é o Cristo.
Ou Jesus, se preferem; ou Joshua, o homem visto
em seu corpo de glória. A visão era intensa,
mas não era outra imagem: a Perfeita Presença
não é um personagem ou uma noção, é um quisto,
uma intrusão carnal por sob o imaginário
de cada ocidental. Que pode não segui-Lo,
reembobinar a História, ater-se a isto ou àquilo,
e dar o resto às Parcas... Mas resta que, ao contrário
do óbvio e do imprevisto, o Verbo, a Forma e o Estilo
são o Corpo do Cristo, o uno por trás do vário.


II. 64
Ninguém fará jamais da mera negação
um solo firme, um chão em que edifique nada,
e a fábula do ser é uma edificação,
que fazer...? Edifica-se a Cruz quando a alvorada
prega os braços da luz num muro, ante a calçada
de um terreno baldio, num vazio, num vão
entre este mundo e seus reflexos na amplidão:
é ali que o ser, na escuridão crucificada,
recobra uma vez mais solidez e estatura.
Se a História fosse apenas uma charada triste,
uma tirada à parte do Todo, à criatura
ainda lhe restaria aquela Cruz em riste
de encontro a um Céu em derrocada: “Deus existe”
(soluça o nada); “Um corpo morre mas procura-O!”.


III. 116
Deixai-me entre esses dois extremos exemplares:
a dor elementar, de Estela senciente,
de um grande cervo branco ante a noite iminente,
e a rosa itinerante de todos os lugares,
de todos os instantes de Alexandria... Os pares
perfeitos são opostos, e entre um deles, à frente
um sol como fantasma, atrás a luz cadente,
hei de durar sozinho enquanto tu durares,
ó labareda ao longe, ó cego atrás do lume,
ó vivo amor da viuvez como perfume,
ó limpa, ó lúcida altivez, ó cervo agora
e para sempre oposto à imitação da aurora,
que o velho Egito diviniza!
Numa saudade é a eternidade que agoniza.

As horas de Katharina
(Companhia das Letras, ganhador do Prêmio Jabuti em 1994)

Os rascunhos e a túnica

II

Existe a realidade e existe o sopro
do real, a vertigem instauradora;
existe aquele susto e, mais não fora,
existe a grande aspiração do corpo.

Porque existe no corpo uma incorpórea
Inquietação, a vocação do morto
em ser mais que seu corpo.
Porque o corpo nesta vida estraçalha-se por fora

mas é salvo por dentro. Existe aquilo
que os sentidos agarram na corrida
e largam para trás, por não feri-lo

demais, o corpo ponto de partida.
Nobre demais para viver tranqüilo.
Pobre demais para conter a vida.


105
Celebrar este mundo adivinhando
a incurável beleza, a inabalável
certeza do esplendor interminável
da luz de Deus, aurora ruminando

para sempre a quietude do imutável.
Somos reflexos dessa luz, um bando
de flamingos ardendo, misturando-
se ao sol nascente, ao inimaginável

incêndio indescritível, todo asas,
todo luz... Somos feitos como brasas
abrindo o vôo,

somos como o vôo
dos flamingos em brasa ao oriente...
E nunca há de se apagar aquele ardente
sol perfeito que neles se espelhou.


O mundo como idéia
(Editora Globo, Prêmio Jabuti de 2003)

Ao divino assassino

[...] Talvez na pressa,

no pânico de Pedro, eu negue um dia
e trate de escapar, mas hoje não;
hoje sofro com fé e, sem poesia,

metrifico uma dor sem solução,
mas não vim negar nada! Faz efeito
essa dor: faz sangrar, mas faz questão

de defender-me como um parapeito
contra a queda e a revolta. Um Botticelli
despedaçou-se todo, mas que jeito,

se por Lear enforcam uma Cordélia
e encarceram a Ariel por Calibã...?
Alvorece, a manhã beata velha

enfia agulhas no Teu céu de lã,
antenas às Tuas cenas de TV,
e eu penso: ela morreu... Hoje, amanhã,

enquanto Te aprouver e até que dê
a palma do prego e o último verso à traça,
vai dor – mas Amém! Não há porque

amar a morte, mas que venha a Taça,
aceito suar sangue até o final,
como não... Tudo dói, menos a graça,

mata, Senhor, que a morte não faz mal!
(Paray-le-Munial, 1979)

Um comentário:

Janela indiscreta disse...

E quando essa borboleta sairá do casulo de novo?