Espólio


Ia morreu em maio. Ontem chegou para mim uma caixa com pertences dela.


Seis panos de prato.
Um conjunto de panos bordados para a cesta de pães.
Meu copinho de prata quando criança.
Sete porta-retratos.
Muitas fotografias nossas, a família que minha mãe lhe deu enquanto ela ajudava a cuidar de nós.
Fotos de todos nós quando crianças, e fotos de nossos filhos.
Um rádio Phillips All Transistor, anos 60 ou 70, ainda guardado em sua caixa original.
Presentes que lhe dei, ainda intactos.
Um vestido cuja costura não se concluiu.
Meu primeiro diário de viagem, aos onze anos de idade, que eu julgava perdido.
Uma camisola de dormir, bordada.
Suas anotações de uma viagem a Recife, 1966.
Um terço de contas peroladas e douradas.
Uma foto minha e de Maninha dentro de um pequeno binóculo.
Um terço de madeira de Belém, guardado de uma peregrinação.
Meus talheres de prata quando criança.
Uma imagem de Nossa Senhora da Rosa Mística, que gira ao som de “Noite Feliz” e brilha quando no escuro.
Meu diário da quarta série ginasial.
Fotos de pessoas que já morreram.
Sua foto junto ao túmulo da irmã, o qual ela arrumou para ser enterrada junto, mas que não foi mais localizado no cemitério.
As fotos de seu aniversário de 90 anos, que comemoramos no ano de 2001 em minha casa, sua única festa de aniversário desde que me entendo por gente.
Uma caderneta de poupança do dinheiro ganho costurando dia após dia por toda a vida, guardada dentro de saco plástico mais envelope e cujo valor não chega a cinco por cento do que se paga no Brasil por mês a um deputado.
Muitas anotações em fins de noite registrando as horas do dia.
Uma missa rezada na intenção de minha mãe por seu aniversário.
Muitas missas que assistiu como se fossem (e eram) festas.
Muitas saudades do tempo em que viveu conosco.
Uma nostalgia do mar da Bahia.
Saudades de alguém que ficou em segredo.
Saudades de mim, que talvez não estivesse lembrando dela naquela ocasião.
Muitos registros marcando o tempo da vida de outras pessoas.
Um saber de quem chegou e de quem partiu, em tal dia e tais horas.
Um encantamento pelas luzes da cidade e pela festa que há no mundo,
e pelos aeroportos com aviões chegando e saindo.
Uma animação a cada viagem.
Uma alegria infinita pelas luzes do Natal e pelas festas dos santos padroeiros.
Muitos dias passando mal do estômago e do fígado.
Uma dose de medo das estradas quando se viaja e dos ônibus “que não merecem confiança”.
Registro das refeições feitas e por trás disso o medo de quando passou fome, seu maior medo na vida.
Muitas horas esperando o trem.
Muitas viagens marcadas sem se saber o tempo de chegar.
Uma rotina sempre a mesma.
“Arranjar” a casa - costurar saias vestidos panos diversos -
ouvir rádio- conversar - ir ao comércio - assistir novelas - dormir.
Uma imensa
solidão.

Comentários

Luiz Fernando disse…
Lindo, Ana.
É a vida guardada em caixas de madeira, aquelas que ficam num canto especial do guarda-roupas, junto com roupas de cama, vestidos e memórias.
As coisas se perdem, ou nós nos perdemos na vida. Sua tia, como minha tia-biza, como minha avó e minhas tias-avós, são de um tempo em que as coisas pequenas, as pequenas passagens de vida, tem um sentido especial a cada momento. São relicários.

Hoje mudamos de casas/apartamentos, mudamos de vida, jogamos coisas fora e compramos tudo novo, como se assim nos renovássemos, voltássemos a nascer. É um pouco desse tempo presente imediato, em que tudo é pra ontem e não conseguimos integrar a vida sempre fugitiva, fugidia.

Tem coisas, no entanto, que sempre ficam, dentro de nós, e não dá pra jogar fora ou descartar facilmente. É nossa memória, nossos amores, nossos segredos, nossos momentos mágicos.

O que posso falar? Não conhecia sua tia, mas acredito a solidão é criativa, é aquele momento em que paramos, avaliamos nossas lembranças e vislumbramos o amanhã, mesmo que esse seja sempre tão igual e cotidiano.
Elinalva disse…
Belo e Triste.
Simplesmente chorei...
Tiago Barreto disse…
Querida Ana;
Fiquei emocionada com suas palavras. Sinceramente, as saudades que sinto de Maria Luiza vieram à tona. Era uma pessoa amiga a quem estimava muito. Ainda hoje, sinto a sua presença. Sua amizade verdadeira deixou em mim um vazio impreenchível.
Muito obrigada.
Abraços afetuosos de sua tia amiga:
Isa

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