Memórias em tempo de luto

Já aos 96, após se dar conta, um mês antes, de que "estava envelhecendo", ela um dia sentiu-se cansada, sentou-se, deitou-se e suavemente morreu.

Assim meu irmão Paulo, poeta de sonhos e pássaros, recorda sua vida:

Ia

Conheci uma mãe, que foi capaz de ser mãe, mesmo de quem já tinha uma.
Ela pegou a linha da vida que enchia o carretel do destino e começou a desenrolar.
Foi puxando a linha e dando voltas, até que descobriu que poderia
com ela costurar o tecido da existência que chegava o tempo todo às suas mãos.
Desenhando, cortando e alinhavando, juntou retalhos da vida
e fez deles uma bonita colcha.

Aprendeu a costurar acordos com os outros.
Elaborou, com paciência, uma pequena mas segura trama de laços de ternura.
Parece que a paciência não lhe foi de grande serventia
no caso de buscar para ela um alfaiate.
Escolheu viver sem um.
Ajudou a vestir meninos, meninas, rapazes e moças, senhoras e senhores.
Fazia reparos, recriava guarda-roupas, cuidava de crianças.
Pregava botões e fazia pequenas maravilhas com a máquina de costura, sua roca de 220 volts.

Com a saliva de seus lábios umedecia a ponta da linha,
para que pudesse passar pelo buraco da agulha, no lugar de camelos(1).
Dado o nó firme, começava o festival de idas e voltas, a dança ágil da agulha em seus dedos,
tudo acompanhado de perto pela sua vista apurada.

Ia não dava ponto sem nó.
Sabia tratar cada um e ganhar o respeito de todos.
No tecido do seu rosto sempre se viu a estampa clara de um sorriso,
singelo riri (2) que raramente se fechava.
Seu mau humor ocasional era volátil e depressa se extinguia
depois do terceiro ou quarto “dhabo!”, herança sonora do sertão.
Logo voltava a ser a afável Ia, que seus filhos pelo coração abreviaram de Maria,
seu nome, bonito e bem aplicado como um colchete.

Latas de Leite Ninho ou de Farinha Láctea eram seus pequenos baús portáteis,
além das caixas de papelão, onde levava sempre doces do Cariri,
biscoitos, sequilhos, rapaduras, bolachas de padaria e a inseparável Cream Craker Fortaleza.
Era para as crianças. Era ela, sem dúvida, uma das beneficiadas.
Fortaleza, Recife e Salvador eram suas rotas freqüentes,
vencidas a bordo de trens da RFFSA ou dos ônibus da Pernambucana,
Rio Negro, Princesa do Agreste, Penha e São Luís.
Jamais embarcava sem suas estimadas especiarias!

Ia sabia que um botão era para uma casa,
mas que somente uma série de casas bem abotoadas poderia deixar firme a camisa no corpo.
Por isto, vivia de casa em casa, percebendo cedo
que as casas dos parentes eram acolhedoras para ela.
Ainda que únicas e diversas, formavam um tecido bastante resistente,
multicolorido e fácil de costurar.
Não lhe faltavam quarto, comida, dinheiro, afeto e assunto.

Entre novelas, novelos e merendas, partilhou das refeições diárias e da vida de famílias
que aprenderam rapidamente a amá-la, muito além dos laços de sangue.
Algumas gerações de crianças e jovens passaram por ela e por lições de corte e costura,
aplicadas ao cotidiano de cada um.

Quinta-feira passada, no final da tarde,
Maria encontrou a outra ponta do carretel que começara a desenrolar há quase cem anos.
Não esperou para ver o Papa na televisão, mas ainda recebeu sua benção à distância.
Nunca faltava às missas, fosse ela onde fosse.
E o que fez Ia com a ponta da linha?
Simplesmente a molhou de saliva, a fez passar por um pequeno portal de luz,
desta vez sem dar nó, e a entregou a Quem a colocara em suas mãos quando o carretel estava cheio.

Agora, que tem assegurado seu ofício no atelier do Criador,
vai pintar e bordar como sempre fez,
com a sua maneira peculiar de cozer e arrematar

Ia, que agora foi, fica em nós, com seu nome caprichosamente bordado
no lado avesso dos nossos corações.
Vão-se os botões, ficam as casas, que esta mãe de muitos filhos
ajudou a consolidar como casas.

Essa estória daria muito pano pra manga.
São lembranças, são retalhos.
Justo mesmo é parar neste ponto, pois não conheço o pano todo
nem sou capaz de tecer muitos comentários.

Pode ser que a homenagem aqui ensaiada lhe caia bem.
Mas Maria o faria melhor.
Por ter a mestria de desembaraçar as linhas tortas da vida, não teria aperreio
ao desembaraçar estas mal traçadas linhas.

Alguém poderia perguntar:
“Mas, qual era o segredo dessa mãe-costureira que viveu tanto?”
A resposta é muito simples:
- O seu bom coração de criança: Ia ria!


Paulo de Tarso

Salvador, sábado, 12 de Maio de 2007



(1) Referência ao texto bíblico que afirma: “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus”. (Marcos, 10, 17-30 [26] ).

(2) Riri é o nome que se dá ao éclair no sertão do Ceará.

Comentários

Elinalva disse…
Feliz de nós que tivemos - vocês "Ia", nós "Tia". Coincidentemente, ambas com os mesmos ofícios - a costura, os bordados e os filhos do coração.

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