sexta-feira, 20 de julho de 2007

Procura



Drummond é um poeta que se ama de forma total. Impossível escolher um livro seu, um poema, de forma absoluta. Mas entre seus poemas, um de meus favoritos é Nosso Tempo, que traz esses versos definitivos:

Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono,
luz dormindo acesa na varanda?



Não sei porque retorna, em tempo de mega-eventos (megaviagens, megacongressos).

Através desses acontecimentos grandiosos é o encontro que brilha. A amiga com tantas responsabilidades no congresso e que, entre tanto (coisas que a mim me deixariam esgotada), lembra de me perguntar por minha saúde. Esse registro pessoal é uma versão real, em carne viva, da imaginação ética (nome dado por Arendt, conforme aprendi), que implica em deixar-se afetar pelo outro como valor, pelo que é público e interessa aos outros. Esse gesto pessoal, naquele contexto, vale uma conferência inteira.

Assim como, em meio ao turismo e seus tentáculos e através da deslumbrante e fossilizada beleza do velho mundo, que parecem, ambos, nos subtrair o real da experiência em si mesma, o que mais valeu foram os encontros com as pessoas em seu cotidiano - aquilo que não foi fotografado mas permanece.

Também a obsessiva vigilância se desfaz. Penso em escrever um post: “brincos, rinossoro e terrorismo”. Sobre o controle no aeroporto de Londres, ritual desesperado, entre o trágico e o risível. A seriedade dos agentes manuseando um vidro de soro fisiológico ou uma bolsinha com brincos e nos dizendo: I'm looking for explosives. Mas passou a hora, crônica extemporânea. O tempo dos blogs é escorregadio, descartável talvez. Já não lembro, são reais, aqueles gestos de tão relativa resolutividade? Pobre ser humano, perdido entre rituais inúteis, que apenas persistem e nada asseguram.


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