domingo, 26 de agosto de 2007

Pai e mãe, ouro de mina






Carta a amigos


Queridos,

Meu pai me entregou hoje, quando estive em sua casa, essas notas (ver post do dia 04 deste mês) sobre aquele material que andei editando, A impossível transcrição (basicamente a mesma versão que vocês têm). Em um envelope com meu nome completo, e ele assina todo o próprio nome.


Sim, é meu pai, e vocês podem ler com lentes psicológicas ou psicanalíticas. Mas algo me diz que não o farão: vão sentir (como eu) a beleza que é a deste senhor de 85 anos, capaz de se deixar tocar pelas coisas como se fosse um adolescente.


Sim, pode ser que ver por esse ângulo não seja incompatível com nossas teorias – é que ando muito anarquista agora que estou envelhecendo, e toda teoria me incomoda, acho tudo autoritário, intrinsecamente autoritário, e a vida, outra coisa, que lhes escapa.


Acho que foi sempre assim – nosotros nos afligimos com a vida, e trabalhamos demais, e nos sentimos sufocar, e a violência que chega até nós e dentro, e o cansaço de tudo, e os acordos, as conciliações, abdicações, o preço de nós mesmos, etc. etc. – e meu pai atravessando a vida desse lugar só dele, sem nunca perder a possibilidade do belo e da emoção. Como se o cotidiano não lhe impusesse uma centralidade das coisas em si, preponderante sobre ele mesmo - o que por vezes é bem complicado, para ele e para os outros.


Ainda assim quero ser pelo menos um pouco como ele quando crescer. Afinal de contas... é meu pai.

Beijos, bom fim de semana.


***



Poema materno inacabado



Mãe é feito sangue consagrado no parto,
o coração trêmulo.
Memórias de mãe são como sangue.
Sangrar é anúncio, pois que mãe é matriz.
Sangue é via veias artérias vida.
Memória tem artérias e são vermelhas.
O sangue marca os ciclos e se lava com água, amor e silêncio.
Quando a menina em susto vê o sangue,
vem a mãe, e vem a água,
e lavam os panos.
Pois que mulher existe entre panos,
e o silêncio é ouro.
A natureza fala por gestos e lágrimas e sangramentos,
o que também se conhece pela palavra amor.

A mãe se desdobra antes de retornar a si mesma,
em concavidades.
Agora cabe à filha o mesmo ancestral gesto de trazer a água
e lavar as marcas do corpo quando não sabe de si mesmo.
E o silêncio é outro.
O cuidado sustenta o existir,
sem palavras.

Mãe é feita de concavidades, colos que se estendem por sobre os dias,
e através das noites.
Nunca se ausenta a mãe das madrugadas,
mesmo se as madrugadas podem trazer sua ausência.
Não deveriam.
Mãe nunca é ausente,
Ela transparece.


Barcos. Foto por Mário Vítor.




quarta-feira, 22 de agosto de 2007



São estes os acontecimentos:
A tarde me possui que me dissolvo.

A chuva me disseca.
Tenho que fechar os olhos para não desvairar totalmente, tomada em pleno trânsito por tal aflição.

A chuva são mil vagalumes, imagens inebriantes.
A chuva é delírio, desvario em plena tarde.
Intoxico-me sem defesas.
As margens da rua são magia, pura vibração e me emociona até mesmo uma fachada de shopping onde as sombras flutuam pelo efeito das luzes dos carros que passam.
Isso a chuva faz comigo.
Querer pensar em nada.
Dissolver-se. Foto de Mário Vítor.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Blog-episteme (3).



Sangue em nós
Perambular, para isso serve um blog.
Vai-se no escuro; o próximo blog, em qualquer idioma, é uma surpresa, por vezes uma beleza. Há os conhecidos, uma festa de encontros e coincidências, ultrapassando idades e lugar. No exato segundo em que atualizo o meu, milhares de outros blogs são atualizados mundo afora.

É como pertencer a algo em fluxo contínuo, perambulante.
Às vezes perambulo por antigos escritos, coisas em surdina que nunca pensei em tirar do limbo.
Às vezes encontro um verso. Neste, tristeza se define como

em silêncio
dormir
e deixar que o poema
se escreva.

Agora não é propriamente tristeza, mas um estado de espera e calma, plúmbeo e reconfortante como hoje, um dia de agosto e chuva na Bahia.

Versos demandam uma espera. São de Rilke essas palavras que amo (são de Os Cadernos de Malte Laurids Bridge e estão na epígrafe de meu livro):

"E por causa de um verso é preciso ver muitas cidades, pessoas e coisas, é preciso conhecer bichos, é preciso sentir como voam os pássaros, e saber com que gestos flores diminutas se abrem ao amanhecer. É preciso poder recordar caminhos em regiões desconhecidas, encontros inesperados, e despedidas que há muito sentíamos chegar - dias da infância, ainda não explicados (...). E também não basta ter recordações. É preciso saber esquecê-las, quando são muitas, e ter a grande paciência de esperar que retornem por si. Pois as lembranças em si ainda não o são. Só quando se tornarem sangue em nós, olhar e gesto, sem nome, não mais distinguiveis de nós mesmos, só então pode acontecer que numa hora muito rara se erga do meio delas a primeira palavras de um poema".


Itacimirim. Foto de Mário Vítor.


domingo, 19 de agosto de 2007

Acenos





Hoje o dia tem acenos e é volátil.
Versos me espiam pelos cantos da casa e se dissolvem em preguiça
no corredor.
Percorro três canções e a vida dos insetos me assombra,
tamanha maravilha.
Há um trânsito de vozes e segredos rumo à varanda
e dentro de casa.
No silêncio da rua sombras experimentam roupagens,
atravessam vãos,
como se fosse domingo.
De manhã cedo era o dia do Senhor,
havia abraço, choro, aflições e o Magnificat.
Volto para casa repleta.
Lagoa de Itacimirim. Foto de Mário Vítor.

sábado, 18 de agosto de 2007

Delicadeza



A day without rain
Enya


Who can say where the road goes,
Where the day flows?
Only time...

And who can say if your love grows,
As your heart chose?
Only time...

Who can say why your heart sighs,
As your love flies?
Only time...

And who can say why your heart cries,
When your love dies?
Only time...

Who can say when the roads meet,
That love might be
In your heart?

And who can say when the day sleeps,
If the night keeps all your heart?

Who can say if your love grows,
As your heart chose?
Only time...

And who can say where the road goes,
Where the day flows?
Only time...

Who knows?
Only time...

Who knows?
Only time...
Pelo ralo. Foto de Mário Vítor.

domingo, 12 de agosto de 2007


Empatia?

Foto anônima, via orkut.
Sem comentários.

O mar
O mar. Uso palavras antigas e talvez em mim desato-me do que seja tradicional ou moderno. Vagas lembranças retornam, decantadas em estantes ou mesa de cabeceira, feito acenos no trânsito e na infovia. Vagas, ondas. Cara de livro é assim, pousar, ficar, permanecer, retornar. Também assim minhas lembranças. No meu sonho, alguém desencaixotava lembranças. Eram as mudanças, as caixas, embalagens e cordões nos quais se desarmavam nossos provisórios mundos. As várias casas. A Ribeira, o mar e a península em ponta. A fotografia via satélite me pinça do momento, e caio na real que era, privilégio espantoso, morar na ponta exata da península de Itapagipe, o verde azul, esmeralda e safira, brilho do sol, respiros do mar, espreguiçar-se sempiterno do mar. Sempre, eterno, terno. Mesmo que, no real, “brilho do sol”, “respiros do mar”, não passem hoje de nomes de lojas de biquíni.


Free as a bird. Foto de Mário Vítor.



quinta-feira, 9 de agosto de 2007



Flashes
Coisas vistas de relance, contos mínimos que gostariam de ser escritos.
Eu poderia ser essa página em branco querendo ser escrita,
se tivesse um livro de cabeceira.
Se tivesse um tempo de cabeceira, essa coisa entre parênteses.
Mas às vezes durmo
para sempre.

Este é o tempo, e não me pertence.

Este conto que se quer escrito é fragmentos.
Coisas ditas, e seus silêncios.
Cantos de coisas, prefiro,
pedaços de olho, mão, voz.
Frases reunidas absolutamente ao acaso,
aquilo que às vezes se escuta, dialogia possível.
Aquilo que seguimos pensando, almas do intangível,
plano sem tempo marcado,
onde tudo flui e acontece vivo.
Sombras. Foto de Mário Vítor Bastos.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007


Uma oração, por que não?
As palavras nos escolhem, ou é o contrário?
Às vezes - aliás, sempre - o Verbo nos acolhe.
Este Hino é muito antigo e está no "Livro das Horas" (Belo Horizonte, Companhia Ilimitada, 2003). E me fascina, talvez porque não o alcance verdadeiramente.



HINO

Se Tu me acolhes, ó Pai bondoso
Antes que venha a noite
Se Tu me dás o Teu perdão
Terei a paz verdadeira
Te chamarei meu Salvador
E voltarei, Jesus, contigo

Pois na angústia mais profunda
Quando o inimigo ataca
Se a Tua graça me circunda
Não temerei qualquer mal
Te invocarei, meu Redentor
E ficarei sempre contigo.
Ascensão. Foto de Mário Vítor.

domingo, 5 de agosto de 2007





Paz


Um lindo dia caiu sobre a cidade, enquanto eu me virtualizava por aqui. Fugi para conferir. A natureza brinca, adolescente. O mar, como um felino. Cores, flores, amores. A vida é um dom, sempre.

Vôo. Foto de Mário Vítor Bastos.

sábado, 4 de agosto de 2007





O mais legítimo prefácio



...vem do mais querido poeta, que leu meu manuscrito "A impossível transcrição (De tudo fica a poesia)" e aqui expressa sua sábia intuição do que seja este impossível movimento da escrita.

À querida filha Ana Cecília

Este é um universo poético em que o tempo flui, ora em momentos de saudade, ora de apreensão, nem sempre aclarados de sol, mas sempre reveladores de abismos e culminâncias. A consciência do ser por vezes é uma angústia em procura e por vezes uma realidade que dói. Mas uma plenitude ôntica é fonte motivacional permanente. A palavra, aqui, é abismo e força, sentimento e beleza, solidão e liberdade. Move, comove, fere, queima, procura e liberta. É pólo e substância. O próprio ser da poetisa é mistério transfigurante, é dor, é grito, é consciência, caminho, encontro e reencontro. Infinito endolorido e metanóia.

A palavra, aqui, não é mercadoria de vitrine, mas uma voz do interior mais recôndito e mais carente de comunicar-se. Nela, as incertezas transitam pelas angústias e pela esperança; esta, nem sempre explícita, mas ao alcance da percepção participante.

Da infância à maturidade, a poesia brota nestas composições, numa sofrida busca que é prenúncio de um amanhecer metafísico.

Salvador, 21 de novembro de 2006

José Newton Alves de Sousa
Encontro lunar. Foto de Mário Vítor Bastos.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007





Tempo, tempo



Tempo. Este "senhor tão bonito quanto a cara do meu filho", como diz Caetano. Este "compositor de destinos/tambor de todos os ritmos". Desisti de seguir qualquer cronologia neste blog. "Por seres tão inventivo/e pareceres contínuo (...) Que sejas ainda mais vivo/No som do meu estribilho ".

O tempo é agora e é promessa. Remexo guardados e encontro notas como se fosse hoje.
Colo aqui um manuscrito, entre viagens no tempo.
O que está longe, o que está perto? O que é ontem, o que é agora?

Manuscrito à noite

Quero escrever sobre fatos importantes.
Coisas da essência, das quais somos usurpados.

Aceitar o acontecer do dia em todos os seus ritmos.
Atravessá-lo nas horas quentes e nessa chuva do anoitecer,
sem depender de nenhum homem do tempo para declarar, como fatos, condições atmosféricas já dadas. Trocas essenciais ainda, ainda sei no meu corpo que vai chover, coisa aprendida na infância, numa terra em que a chuva era sempre bem vinda.

A chuva vista de dentro de casa, da varanda onde estou.
Os círculos concêntricos nas pedras do pátio.
O cheiro da grama molhada apenas na memória olfativa.

Os círculos concêntricos e outras noites de chuva e outros dias de chuva nas casas da infância. Banhos de chuva no pátio de casa, clandestinos ou não, mas sempre a fusão com o elemento água, nenhuma necessidade de limites.
As bicas que emergiam dos telhados, inesperadas e festivas.
As enxurradas e, claro,
os barquinhos de papel,
a fuga para a rua na cola deles,
até onde vão, até onde vou?

O vestido molhado colado no corpo, única menina a estar no banho de chuva na rua, fora dos limites da casa, os irmãos como um só organismo na festa que a chuva trazia como dádiva. Um presente de alegria, a cumplicidade da mãe que não se esquecia de seus banhos de chuva quando criança.

E meus filhos tão urbanos que nunca tomaram banho de chuva... E eu que não sei de que formas lhes revelei, se é que pude fazê-lo, minha infância e minha essência.
Herzog&demeuroniana. Foto de Mário Vítor Bastos.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007





Subways (notas extemporâneas)


Os metrôs são os intestinos das cidades neste lado do mundo que é outro. Vísceras que reconectam pessoas, fornecendo espaços transitórios pelos quais retornar ao mundo privado, afastando de cada rosto os traços que o tornam anônimo.

A imensa solidão humana das multidões na cosmopolita Londres, em dia de ameaça terrorista. Este mundo, que se apresenta como espelho da civilização, é oco.

É hora do rush e a multidão prossegue, seguindo impotente, quase autômata, imenso mecanismo, hidra de mil cabeças, seguindo.

Este é o rosto da solidão e da mais total incomunicabilidade.

Criamos células de alegria ali dentro, modos de estar como que subterrâneos. Subways. Felizes no deserto. Como disse meu filho à nossa anfitriã após sua primeira viagem mais longa, aos três anos: "eu gosto muito de você, mas a minha felicidade não foi aí em Brasília, foi aqui em Salvador".
Lugar Nenhum. Foto de Mário Vítor Bastos.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

É o amor



Nesse mês de agosto, não vou negar: você é meu doce mel
(tanto quanto há 34 anos).

Casamento

Adélia Prado

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

Poesia Reunida
São Paulo: Siciliano.





É o amor. Foto de Mário Vítor Bastos.