domingo, 12 de agosto de 2007


O mar
O mar. Uso palavras antigas e talvez em mim desato-me do que seja tradicional ou moderno. Vagas lembranças retornam, decantadas em estantes ou mesa de cabeceira, feito acenos no trânsito e na infovia. Vagas, ondas. Cara de livro é assim, pousar, ficar, permanecer, retornar. Também assim minhas lembranças. No meu sonho, alguém desencaixotava lembranças. Eram as mudanças, as caixas, embalagens e cordões nos quais se desarmavam nossos provisórios mundos. As várias casas. A Ribeira, o mar e a península em ponta. A fotografia via satélite me pinça do momento, e caio na real que era, privilégio espantoso, morar na ponta exata da península de Itapagipe, o verde azul, esmeralda e safira, brilho do sol, respiros do mar, espreguiçar-se sempiterno do mar. Sempre, eterno, terno. Mesmo que, no real, “brilho do sol”, “respiros do mar”, não passem hoje de nomes de lojas de biquíni.


Free as a bird. Foto de Mário Vítor.



2 comentários:

Camila Lemos Barata disse...

Leve brisa esse texto.
Um carinho...

Raiça Bomfim disse...

Uma vez eu fui ver um papo com Ferreira Gullar e ele falou um sobre sua inspiração ao ver a foto por satélite de uma casa que havia morado. Esse texto remeteu-me a essa fala. Não só pelo tema, mas pelo ritmo, sempre tão suave, que me trouxe a imagem das mãos dele gesticulando de modo tão ameno, tão bonito.
É realmente comovente essa gentileza de tuas palavras para/com a compreensão do tempo.

Uma grande abraço, Ana, cheio de carinho e admiração.