Pai e mãe, ouro de mina






Carta a amigos


Queridos,

Meu pai me entregou hoje, quando estive em sua casa, essas notas (ver post do dia 04 deste mês) sobre aquele material que andei editando, A impossível transcrição (basicamente a mesma versão que vocês têm). Em um envelope com meu nome completo, e ele assina todo o próprio nome.


Sim, é meu pai, e vocês podem ler com lentes psicológicas ou psicanalíticas. Mas algo me diz que não o farão: vão sentir (como eu) a beleza que é a deste senhor de 85 anos, capaz de se deixar tocar pelas coisas como se fosse um adolescente.


Sim, pode ser que ver por esse ângulo não seja incompatível com nossas teorias – é que ando muito anarquista agora que estou envelhecendo, e toda teoria me incomoda, acho tudo autoritário, intrinsecamente autoritário, e a vida, outra coisa, que lhes escapa.


Acho que foi sempre assim – nosotros nos afligimos com a vida, e trabalhamos demais, e nos sentimos sufocar, e a violência que chega até nós e dentro, e o cansaço de tudo, e os acordos, as conciliações, abdicações, o preço de nós mesmos, etc. etc. – e meu pai atravessando a vida desse lugar só dele, sem nunca perder a possibilidade do belo e da emoção. Como se o cotidiano não lhe impusesse uma centralidade das coisas em si, preponderante sobre ele mesmo - o que por vezes é bem complicado, para ele e para os outros.


Ainda assim quero ser pelo menos um pouco como ele quando crescer. Afinal de contas... é meu pai.

Beijos, bom fim de semana.


***



Poema materno inacabado



Mãe é feito sangue consagrado no parto,
o coração trêmulo.
Memórias de mãe são como sangue.
Sangrar é anúncio, pois que mãe é matriz.
Sangue é via veias artérias vida.
Memória tem artérias e são vermelhas.
O sangue marca os ciclos e se lava com água, amor e silêncio.
Quando a menina em susto vê o sangue,
vem a mãe, e vem a água,
e lavam os panos.
Pois que mulher existe entre panos,
e o silêncio é ouro.
A natureza fala por gestos e lágrimas e sangramentos,
o que também se conhece pela palavra amor.

A mãe se desdobra antes de retornar a si mesma,
em concavidades.
Agora cabe à filha o mesmo ancestral gesto de trazer a água
e lavar as marcas do corpo quando não sabe de si mesmo.
E o silêncio é outro.
O cuidado sustenta o existir,
sem palavras.

Mãe é feita de concavidades, colos que se estendem por sobre os dias,
e através das noites.
Nunca se ausenta a mãe das madrugadas,
mesmo se as madrugadas podem trazer sua ausência.
Não deveriam.
Mãe nunca é ausente,
Ela transparece.


Barcos. Foto por Mário Vítor.




Comentários

Já havia lido esse seu texto,Ana,e me comoveu muito,pois eu acabara de ter meu filho na época...

Em conversa com uma amiga dramaturga,ela me falava de um curso que tomou,cujo facilitador dizia que, não importa como, mas o ator em cena,sempre deve estar emocionado.
Se nos emociona, é porque dele a emoção,transpassa todas as barreiras e nos toca num compartilhamento de sentir.

Penso ser assim com as palavras e não pude me negar a vontade de te dizer que a sua escrita compartilha meu sentir.

Obrigada por ser caminho de tanta beleza.

Grande abraço!
Luiz disse…
E que se faça a luz! Onde já existe luz sem se pedir nada em troca.

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