Blog-episteme (3).



Sangue em nós
Perambular, para isso serve um blog.
Vai-se no escuro; o próximo blog, em qualquer idioma, é uma surpresa, por vezes uma beleza. Há os conhecidos, uma festa de encontros e coincidências, ultrapassando idades e lugar. No exato segundo em que atualizo o meu, milhares de outros blogs são atualizados mundo afora.

É como pertencer a algo em fluxo contínuo, perambulante.
Às vezes perambulo por antigos escritos, coisas em surdina que nunca pensei em tirar do limbo.
Às vezes encontro um verso. Neste, tristeza se define como

em silêncio
dormir
e deixar que o poema
se escreva.

Agora não é propriamente tristeza, mas um estado de espera e calma, plúmbeo e reconfortante como hoje, um dia de agosto e chuva na Bahia.

Versos demandam uma espera. São de Rilke essas palavras que amo (são de Os Cadernos de Malte Laurids Bridge e estão na epígrafe de meu livro):

"E por causa de um verso é preciso ver muitas cidades, pessoas e coisas, é preciso conhecer bichos, é preciso sentir como voam os pássaros, e saber com que gestos flores diminutas se abrem ao amanhecer. É preciso poder recordar caminhos em regiões desconhecidas, encontros inesperados, e despedidas que há muito sentíamos chegar - dias da infância, ainda não explicados (...). E também não basta ter recordações. É preciso saber esquecê-las, quando são muitas, e ter a grande paciência de esperar que retornem por si. Pois as lembranças em si ainda não o são. Só quando se tornarem sangue em nós, olhar e gesto, sem nome, não mais distinguiveis de nós mesmos, só então pode acontecer que numa hora muito rara se erga do meio delas a primeira palavras de um poema".


Itacimirim. Foto de Mário Vítor.


Comentários

É preciso ser alma.

Passei tantos verões em Itacimirim...Lá ganhei pedoço bom da minha alma.

Um beijo grande,nega!

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