Tempo, tempo



Tempo. Este "senhor tão bonito quanto a cara do meu filho", como diz Caetano. Este "compositor de destinos/tambor de todos os ritmos". Desisti de seguir qualquer cronologia neste blog. "Por seres tão inventivo/e pareceres contínuo (...) Que sejas ainda mais vivo/No som do meu estribilho ".

O tempo é agora e é promessa. Remexo guardados e encontro notas como se fosse hoje.
Colo aqui um manuscrito, entre viagens no tempo.
O que está longe, o que está perto? O que é ontem, o que é agora?

Manuscrito à noite

Quero escrever sobre fatos importantes.
Coisas da essência, das quais somos usurpados.

Aceitar o acontecer do dia em todos os seus ritmos.
Atravessá-lo nas horas quentes e nessa chuva do anoitecer,
sem depender de nenhum homem do tempo para declarar, como fatos, condições atmosféricas já dadas. Trocas essenciais ainda, ainda sei no meu corpo que vai chover, coisa aprendida na infância, numa terra em que a chuva era sempre bem vinda.

A chuva vista de dentro de casa, da varanda onde estou.
Os círculos concêntricos nas pedras do pátio.
O cheiro da grama molhada apenas na memória olfativa.

Os círculos concêntricos e outras noites de chuva e outros dias de chuva nas casas da infância. Banhos de chuva no pátio de casa, clandestinos ou não, mas sempre a fusão com o elemento água, nenhuma necessidade de limites.
As bicas que emergiam dos telhados, inesperadas e festivas.
As enxurradas e, claro,
os barquinhos de papel,
a fuga para a rua na cola deles,
até onde vão, até onde vou?

O vestido molhado colado no corpo, única menina a estar no banho de chuva na rua, fora dos limites da casa, os irmãos como um só organismo na festa que a chuva trazia como dádiva. Um presente de alegria, a cumplicidade da mãe que não se esquecia de seus banhos de chuva quando criança.

E meus filhos tão urbanos que nunca tomaram banho de chuva... E eu que não sei de que formas lhes revelei, se é que pude fazê-lo, minha infância e minha essência.
Herzog&demeuroniana. Foto de Mário Vítor Bastos.

Comentários

Layla disse…
Cara Bê, obrigada pela visita. Vim retribui-la e não posso me furtar a registrar a admiração que tive por tuas palavras. Todas tão delicadas como vidro, e fortes como o coração de uma mãe de muitos filhos.
Sê bem-vinda em meu blogue sempre que quiser.
Salaam
Layla
mario disse…
a revelou em lindos versos...
beijo!

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