Permanências


Nota prévia: velhos escritos, imagens definitivas. Inspiração e selo. Como que atravessando, feito procissão, tudo que em mim é matéria de vida.

Cantorias, sombras, árvores, sol, sertão, trilhas, segredos, levadinhas estreitas por onde corria a água nascida da pedra, pura música. Tudo causticante, tudo impresso na alma como se a ferro e fogo: a luz, o sol, o céu, claridade em demasia para um só coração. Como teto das nossas vidas apenas o céu, o esplêndido, o infinito. O infinito a nos envolver, em lugar e tempo alguns houve um céu tão perto, tão claro, tão nítidamente posto ali para nos proteger. Um sheltering sky. E todas as estrelas ao alcance da mão.

E o modo de cantar plangente, pungente, sempre um aboio e uma tristeza sem fim. De onde vem essa tristeza impregnando para sempre o coração, para sempre nordestino? A tristeza do cáustico, a expressão do humano sempre feito faca cravada no âmago da alma, verdadeira, afiada, incisiva como uma pedra. A fome no olhar da criança que passava na rua, e aquelas mulheres todas, fortes, algumas sombra só, em algum espaço fantasmagórico. Era um metabolismo diferente do que era o nosso, nós pessoas, gente, "a família"; eles povo, pobres, coitados, e nós, pessoas tão boas que éramos, tão apaziguados pela admiração por nós mesmos...

O mundo tanto, e o cotidiano tão pouco. O mundo vida, o cotidiano regras. E a vida se infiltrando incisiva, que podiam as regras? E a gente vivendo, e aqueles olhos de criança, nariz escorrendo, chupeta e saliva, espreitando pelos cantos nas barracas na feira, aqueles olhos que falavam mais do que quaisquer regras e histórias de quase aristocracia da família... E o cheiro do fumo de rolo, igual em todo o Nordeste, de fora a fora (e até na Bahia); o mascar e o cuspir no chão, e por trás dos chapéus o olhar sombrio e desdentado dos homens, facão na cintura. E o cantar, a festa, pois quando era alegria era absoluta.

E a sala de visitas das casas nossas, arrumadas, o óleo passado nos móveis, a flanela, até brilhar. A sala imóvel, a qualquer hora podia chegar uma pessoa, sem causar vergonha; não sendo criança, porém. Criança passava furtivamente, na ponta dos pés, aprendendo a construir espaços secretos de solidão. E a vida era a feira e a estrada. E as salas das casas dos moradores (os que donos não eram), aquele chão de tijolo, o banco de madeira, tão nu e tão aconchego. Era bom andar na estrada nas horas quentes da tarde, quando os adultos dormiam, e buscar aquela outra sombra. E até hoje, para mim, a verdade é uma cidade do interior.
Chão de Feira. Foto de Mário Vítor.

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