domingo, 30 de setembro de 2007

Quando a foto puxa o poema do velho arquivo



Brincadeira



O muro mágico da brincadeira.
Tempo em suspenso, vozes e movimento como heras enramando-se no vácuo.
O brincar estende cortinas mágicas e envolve tudo, até o olhar austero, imediato e alheio.
Subo nesse palco e, surpassando distâncias, posso ainda conceber a intensidade, o momento presente pleno, a vida.
Gritos, luta, emoções extremas, vividas sem transição, tudo se realizando ali.
O escuro.
O espaço.
A terra, poeira ou água.
A terra molhada de chuva.
Narizes escorrendo.
Pó, lanhuras que nem doem, que se esquecem de doer, pés descalços, pele rajada, joelhos sempre arranhados. Cor de criança.
Rolar na terra,
terra que invade nariz, boca, olhos, garganta, alma,
o gosto de ser do mesmo corpo da terra,
sangue e veias, por essas vias irmanados.
Correr, lutar, coração saindo pela boca,
sempre disparado.
Irmãos e primos, um só organismo, bicho enorme de mil cabeças, braços e pernas,
movimentando-se sozinho e junto.
O mesmo coração de menino ou de menina,
o mesmo desespero de chegar.
O exercício lúdico dessa aflição de busca,
eterna companheira.
E o fim, a meta? Essa é a questão jamais colocada, pois brincadeira é coisa que não tem fim, nem precisa ter, ela é em si mesma, repetindo-se todo o tempo, terminando e começando sempre, fazendo funcionar o organismo.
Brincadeira é permanência em si mesma, desde que faça disparar o coração.
Desde que reúna vozes e ímpeto, vultos em labirintos de claros-e-escuros,
uma eventual fogueira,
vagalumes,
besouros e sapos,
estrelas cintilantes,
dor e machucados,
euforia e pranto,
destemor e medo pânico,
a vida em desabalada carreira.
Frêmito, ânsia.
Alegria, sofreguidão.
Infância.


Pipa. Foto de Mário Vítor.



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