Um sonho, ou um poema, ou um sonho, ou um poema...


Atrás de seus olhos
minha mãe guarda
os meus cabelos cortados.

Eu estava morta
ou de há muito partida.

Atrás de seus olhos
as coisas estão muito bem postas:
gavetas, papel de seda,
laços de fita.

Eu olhava por seus olhos e via
assim translúcidos,
os ossos de sua face,
móveis, diáfanos,
dissolvendo-se em névoa.

E lá estavam, estendidos sobre panos dobrados,
meus longos cabelos de criança
cortados para que eu não ficasse raquítica
e porque não cuidava bem deles:
não queria lavar,
não prendia que prestasse,
não queria desembaraçar.
A não ser que ela o fizesse,
dia de sábado, usando óleo “Suave”,
para não doer.

Doce ilusão. Foto de Mário Vítor.




Comentários

Raiça Bomfim disse…
Atrás dos olhos, onde repousam, os sonhos, os veros, os laços, o que escapa ao tempo... Lindo.

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