terça-feira, 30 de outubro de 2007

Já eu, não gosto dos modernos e seus segundos cadernos...





...mas gosto desta canção:


Senhas


Adriana Calcanhoto





Eu não gosto do bom gosto

Eu não gosto de bom senso

Eu não gosto de bons modos

Não gosto


Eu aguento até rigores

Eu não tenho pena dos traídos

Eu hospedo infratores e banidos

Eu respeito conveniências

Eu não ligo pra conchavos

Eu suporto aparências

Eu não gosto de maus tratos



Mas o que eu não gosto é do bom gosto

Eu não gosto de bom senso

Eu não gosto de bons modos

Não gosto


Eu aguento até os modernos

E seus segundos cadernos

Eu aguento até os caretas

E suas verdades perfeitas


O que eu não gosto é do bom gosto

Eu não gosto de bom senso

Eu não gosto de bons modos

Não gosto


Eu aguento até os estetas

Eu não julgo competência

Eu não ligo pra etiqueta

Eu aplaudo rebeldias

Eu respeito tiranias

E compreendo piedades

Eu não condeno mentiras

Eu não condeno vaidades


O que eu não gosto é do bom gosto

Eu não gosto do bom senso

Não, não gosto de bons modos

Não gosto



Eu gosto dos que têm fome

Dos que morrem de vontade

Dos que secam de desejo

Dos que ardem...




Geometric beauty. Detalhe do gradil da Igreja do Rosário dos Pretos, Pelourinho, Salvador, Bahia. Foto de M.Vítor.

A festa da padroeira (após um congresso de Psicologia)


Para Miguel, Marina e seus alunos,
para Elaine, Sara, Luiz e Dinho,
pela festa do encontro.

Estas são imagens que ficam para sempre.

Da Igreja da Penha, em Itapagipe, muito pequena ainda, lembro apenas de uma profusão de velas postas pelos devotos numa bandeja redonda aos pés da Virgem - o que, para o meu irmão Eugênio, que tinha então 2 ou 3 anos de idade, era um indício seguro de que alguém fazia aniversário.

No Crato, a imagem de Nossa Senhora da Penha, padroeira da cidade, trazia ao colo o Menino Jesus e pisava sobre répteis, a força do gesto contrastando com a ternura, paz e profunda compaixão que seu rosto transmitia. Dessa imagem lembro, com detalhes. Do altar, ela assistia à multidão que vinha rezar na praça, consolando os aflitos, trazendo esperança....

Nós nos misturávamos a essa multidão, mesmo se estávamos vivendo um outro lado da festa: carrosséis, roupas novas, paqueras. Mas os que sofriam vinham rezar, e não posso esquecer aqueles rostos expectantes, que traziam, como se talhadas em pedra, as marcas do difícil cotidiano que define o modo de vida dos esquecidos, dos que tanto esperam em vão. Ali se formava para mim esse nexo: de um lado, o sofrimento e abandono do nordestino, do outro, a compaixão da Mãe de Deus.

A Festa da Padroeira, no mês de agosto, tendo o seu grande final em 1o de setembro, era um grande acontecimento: mais remotamente, quando eu era bem criança ainda, lembro das pregações de frei Damião, que sentia medo dos fogos de artifício e reclamava a todo momento dos "fogueteiros". Se não lembro - e certamente não compreendia - as outras coisas que ele dizia, guardei porém a expressão terrível de seu rosto e sobretudo o olhar fascinado e febril das pessoas na praça. Quando terminava, eu sempre ficava com medo do fim do mundo, que ia acontecer ali mesmo, no Crato, e a qualquer momento. Mas havia os vivas a Nossa Senhora da Penha, e hoje compreendo que de sua imagem vinham as idéias de mediação, de aliança entre Deus e os homens, Mãe compassiva que compreende e aceita os tortuosos e humanos canais através dos quais escutamos a Palavra de Deus.

E havia as procissões.

Ah, as procissões e suas insondáveis trilhas na memória. Aquele caminhar uníssono da multidão "se arrastando que nem cobra pelo chão" e de alguma forma elevando-se para o céu, livre de sistemas de sons e de apoios eletrônicos. Era um céu poderoso, definidor de destinos, re-ligando todos nós a um sobrenatural cheio de símbolos ao mesmo tempo fortes, seguros, apavorantes, mágicos. Havia o Deus Pai, fé, racionalidade e sentido da vida, que meus pais traziam. Eram outros porém os Seus sinais, trazidos pela Festa da Padroeira, dispersos naquele mundo mágico, supersticioso, festivo, sombrio e berrantemente colorido dos santos, promessas, esperança e medo.

A emoção das procissões era única, "re-ligante", transcendental e telúrica. A Senhora da Penha vinha em seu andor, tão bonito na ingenuidade do ornamento de cetim e flores, solenemente carregado por homens vestindo opa - que era uma espécie de capa, preta e vermelha. O sagrado tornava-se parte integrante da vida, e a vida estava ali presente de todos os modos. Os hinos, os benditos, os agudos desafinados elevavam-se aos céus, seguramente ouvidos por Deus. As vozes estridentes, um cantar do qual vinham desarmonia e beleza, silenciando as conversas e instalando um sentimento fundo, meio bárbaro, de reconhecimento do sobrenatural, da desestabilidade, da miséria e da glória nossas, que súbito se faziam as mesmas para todos, naquele mundo de tantas desigualdades.

Ainda hoje os cânticos religiosos, no côncavo das igrejas, me tocam um pouco dessa forma.

Ainda hoje sinto as palavras de Luiz Gonzaga no "Baião da Penha":


"Nossa Senhora da Penha
Minha voz talvez não tenha
O poder de te exaltar
Mas dê bênção, padroeira,
Pra sua gente brasileira
Que quer paz pra trabalhar".


Fragmento de um texto lido na ALAMS, 1999.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Não é verdade que Caetano não mora mais aqui


Para meu irmão Beto (que é mais do que um),
com amor.
Peter Gast


Caetano Veloso




Sou um homem comum

qualquer um

enganando entre a dor e o prazer

Hei de viver e morrer

como um homem comum

mas o meu coração de poeta

projeta-me em tal solidão

que às vezes assisto

a guerras e festas imensas

sei voar e tenho as fibras tensas

e sou um



Ninguém é comum

e eu sou ninguém

No meio de tanta gente

de repente vem

mesmo eu no meu automóvel

no trânsito vem

o profundo silêncio

da música límpida de Peter Gast

Escuto a música silenciosa de Peter Gast



Peter Gast

o hóspede do profeta sem morada

o menino bonito Peter Gast

Rosa do crepúsculo de Veneza

mesmo aqui no samba-canção

do meu rock'n'roll

Escuto a música silenciosa de Peter Gast

Sou um homem comum




Beto. Foto de Mário Vítor.


quinta-feira, 18 de outubro de 2007

"Dorian Gray"

O telescópio Hubble, da Nasa, encontrou uma galáxia digna do 'Retrato de Dorian Gray', do escritor Oscar Wilde. O protagonista do livro permanece jovem com o passar dos anos, enquanto um quadro com sua imagem envelhece misteriosamente. Assim como a pintura, a galáxia I Zwicky 18 parece mais velha quanto mais os astrônomos a estudam (UOL, 17/10/07).



Enquanto isso, no vasto mundo,
Periga de aumentar o preço do pão
e a fome.
Periga de um peixinho ter insônia devido a uma mutação genética e ao desequilíbrio ecológico.
Periga da barbárie entrar em todas as casas,
de nos perdermos sem fotografia, sinal ou identidade,
cumprindo os atos burocráticos mas não
os necessários,
enredados nos anéis de Saturno do esquecimento,
como se fosse
vida.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Alberto da Cunha Melo


Dois poemas do grande poeta pernambucano, falecido no último dia 13.


Filhos do Norte


Durante toda falsa infância,

caíam dos céus chuvas demais

na terra inteira e, agora, quando

deve chover, não chove mais;


meninos sujos, nessa rua,

brincávamos com a lama crua;


quando anoitecia de vez,

dentro do copo de café

molhávamos o pão francês;


lá fora um deus, por trás de um muro,

devorava nosso futuro.



Odes ao cinza

VI



Amar o cinza, essa indecisa

cor entre o nada e a escuridão,

a tonalidade imprecisa

do vômito, do último não,


é amar a sombra nos retratos

e o vôo das moscas sobre os pratos;


é ter piedade do nada,

do chão, da lágrima suja,

do pardal morto na calçada;


é amar, também, aquele incerto

céu de chuva sobre o deserto.


Traço. Foto de Mário Vítor.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Camadas de gelo em volta do ser

Um antigo escrito sobre um dia na vida de uma mulher qualquer.
Homenagem a Doris Lessing, Nobel de Literatura 2007.

Inquieta e quase insone.
Camadas de gelo em volta do ser.
As camadas, desejo encoberto.
Disfarces, máscaras, repetição.
Há um inimigo que ronda.
Volto para o refúgio da irrealidade,
alheamento.


Não me movo.
Camadas de gelo em volta do ser.
Trabalho, compromissos institucionais.
Filhos, família, as múltiplas coisas da casa.
A família, o que projeto para ela:
o que preciso resolver e remediar e curar consolar prover.


Depois vêm as gavetas da casa:
objetos e papéis, fios e pontas de acontecimentos
perdidos no pachorrento e caótico estar das coisas
no arbitrário de seus lugares.

Minguando estou eu,
pequena chama que ainda tremula,
inquieta e quase insone esperando a hora do silêncio na casa.
Ainda assim ligo a tv, fuga na música.
Como no poema que me tocou: ondas que me ocupem, violência, ação
que me comovam.

Mais ao final ainda, estou perdida de mim mesma,
palavras esquecidas.



Ofício




Escrever, registrar a própria experiência,
como se fosse uma carícia,
um traço na areia,
uma partilha.

Nem expurgo de culpas, nem justificação,
nem pesquisa.

Mas sina que se cumpre, ofício que se exerce, no depurar das horas.
Ofício de ser fiel a si mesmo, como ética e sentido do viver.

E esse “a si mesmo” na estrutura mais íntima, onde se encontra Deus,
onde ressoam os anseios do próprio coração.
No âmago, há microfones cósmicos secretos,
caixas de ressonância,
via de transmissão de Seu desígnio para nós.


Leveza. Foto de Mário Vítor.

domingo, 7 de outubro de 2007

A poética da Esperança


"Mas a Esperança, disse Deus
Isso sim me admira,
admira até a Mim mesmo.

Que estes pobres filhos vejam como hoje caminham
as coisas, e creiam que amanhã tudo irá melhor,
isto sim que é assombroso e é, com muito,
a maior maravilha de nossa graça.

E eu mesmo me assombro com isso.

Que será necessário que seja minha graça
e qual a força dessa minha graça
para que esta jovenzinha Esperança,
vacilante ante o sopro do pecado,
trêmula ante os ventos,
agonizante ante o menor sopro,
siga estando viva,
impossível de apagar?

Esta pequena Esperança que parece coisa de nada,
esta jovenzinha Esperança.
Imortal.

Pelo caminho escarpado, arenoso e estreito,
arrastada e braços dados
com suas duas irmãs maiores,
segue a jovenzinha Esperança
como uma criança sem forças para caminhar.

Mas na realidade é ela
quem faz andar às outras duas,
e que as arrasta
e que faz andar o mundo inteiro.

Pois a Fé vê apenas aquilo que é
e ela, ela vê aquilo que será.
A Esperança vê o que ainda não é mas será
no futuro do tempo e da eternidade".


Charles Péguy. Le Porche du Mystère de la Deuxième Vertu.
Tradução disponível no site http://www.permanencia.org.br/, acessado em 07/10/07. Originais em Péguy, C. Oeuvres Poétiques Complètes. Éditions Gallimard, 1970.



Fé. Foto de Mário Vítor.