Alberto da Cunha Melo


Dois poemas do grande poeta pernambucano, falecido no último dia 13.


Filhos do Norte


Durante toda falsa infância,

caíam dos céus chuvas demais

na terra inteira e, agora, quando

deve chover, não chove mais;


meninos sujos, nessa rua,

brincávamos com a lama crua;


quando anoitecia de vez,

dentro do copo de café

molhávamos o pão francês;


lá fora um deus, por trás de um muro,

devorava nosso futuro.



Odes ao cinza

VI



Amar o cinza, essa indecisa

cor entre o nada e a escuridão,

a tonalidade imprecisa

do vômito, do último não,


é amar a sombra nos retratos

e o vôo das moscas sobre os pratos;


é ter piedade do nada,

do chão, da lágrima suja,

do pardal morto na calçada;


é amar, também, aquele incerto

céu de chuva sobre o deserto.


Traço. Foto de Mário Vítor.

Comentários

Sílvia Câmara disse…
Poeta imenso digno de muitas homenagens, Bê.
Adorei seu pouso lá no Brisa.
Apareça mais vezes.
E quanto à Adélia Prado, adoro-a, também.
Obrigada pela gentileza dos seus comentários. Às vezes, o que não deixa o poeta perder o ânimo são as tais palavras abalizadas.
Um abraço desde a Bahia
Sílvia Câmara disse…
Em tempo: essa linha branca riscando o céu não tem começo nem fim.
Excelente imagem.
Raiça Bomfim disse…
"... é amar, também, aquele incerto
céu de chuva sobre o deserto."

E assim é, também, a vida, afinal...

Poeta que descobri há pouco tempo, através dos "poetas independentes" e a quem, desde a primeiro poema lido, muito admirei.

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