Camadas de gelo em volta do ser

Um antigo escrito sobre um dia na vida de uma mulher qualquer.
Homenagem a Doris Lessing, Nobel de Literatura 2007.

Inquieta e quase insone.
Camadas de gelo em volta do ser.
As camadas, desejo encoberto.
Disfarces, máscaras, repetição.
Há um inimigo que ronda.
Volto para o refúgio da irrealidade,
alheamento.


Não me movo.
Camadas de gelo em volta do ser.
Trabalho, compromissos institucionais.
Filhos, família, as múltiplas coisas da casa.
A família, o que projeto para ela:
o que preciso resolver e remediar e curar consolar prover.


Depois vêm as gavetas da casa:
objetos e papéis, fios e pontas de acontecimentos
perdidos no pachorrento e caótico estar das coisas
no arbitrário de seus lugares.

Minguando estou eu,
pequena chama que ainda tremula,
inquieta e quase insone esperando a hora do silêncio na casa.
Ainda assim ligo a tv, fuga na música.
Como no poema que me tocou: ondas que me ocupem, violência, ação
que me comovam.

Mais ao final ainda, estou perdida de mim mesma,
palavras esquecidas.



Comentários

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Ana,como é bonito,como é grande e só e cheio e gente e tanto e só.

A sina de ser mulher,com tudo o que isso nos dá em tempos de hoje,é de uma força tamanha!

E o silêncio,por vezes,me parece tão distante...Que nem eu mesmo sei se o quero.

Me tocaram,querida,suas palavras aqui desenhadas.

Um beijo.

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