Ofício




Escrever, registrar a própria experiência,
como se fosse uma carícia,
um traço na areia,
uma partilha.

Nem expurgo de culpas, nem justificação,
nem pesquisa.

Mas sina que se cumpre, ofício que se exerce, no depurar das horas.
Ofício de ser fiel a si mesmo, como ética e sentido do viver.

E esse “a si mesmo” na estrutura mais íntima, onde se encontra Deus,
onde ressoam os anseios do próprio coração.
No âmago, há microfones cósmicos secretos,
caixas de ressonância,
via de transmissão de Seu desígnio para nós.


Leveza. Foto de Mário Vítor.

Comentários

Raiça Bomfim disse…
Vira e mexe, venho aqui pensando em deixar algo, mas acabo por aconchegar-me na maciez de seus poemas e esqueço das palavras. Seus escritos dispensam comentários no mais sutil dos sentidos.

E as fotos de seu filho estão belíssimas!

P.S.: a reforma tá que se estica e demora de acabar (como toda reforma, aliás) e o café regurgita no chaleira ansiando por encontros. Que o tempo (e os tijolos) nos sejam gentis.

Beijoca.
Sílvia Câmara disse…
Descobri teu blog pela via da Raiça e nesse caminhar lembrou-me que também tenho um " Ofício", transcrevo-o abaixo. Dou-te os parabéns pelo blog. Com tua permissão, voltarei outras vezes.

"Bom mesmo seria se houvesse.
Uma fala que rasgasse o tempo,
quebrasse os medos,
atravessasse o dia como quem
percorre um jardim
e despertasse borboletas.

Assim uma palavra.
Dita sem pensar,
Um devaneio gêmeo,
Fazendo festa na praça.
Em terra reconhecida de infância.
Entre paredes e árvores suas.
Uma memória e uma fantasia.

E gera.

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