sábado, 29 de março de 2008

Passagem



Os dias escorrem entre meus dedos,
mas resisto.
Todos os membros fincados
em chão de giz
ou nuvem.

Minha realidade, sim.
E é vibrante,
viva.

Meu Deus.

Tanto a percorrer.
Invento as trilhas e me ergo,
escalo as paredes de cada dia.

Moro na poesia,
sem escolha.

Foto de Mário Vítor.








quinta-feira, 27 de março de 2008

Sentimento de Minas (2)





Estar nas Minas Gerais de João Guimarães Rosa é descortinar “... o irremediável extenso da vida”. É “...sentir no nada”, compreender que o outro "é minha neblina".


Ah, mas falo falso. O senhor sente? Desmente? Eu desminto. Contar é muito, muito dificultoso. Não pelos anos que se já passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas – de fazer balancê, de se remexerem nos lugares. O que eu falei foi exato? Foi. Mas teria sido? Agora, acho que não. São tantas horas de pessoas, tantas coisas em tantos tempos. Tudo miúdo recruzado. Se eu fosse filho de mais ação e menos idéias, isso sim, tinha escapulido...” (Grande Sertão: Veredas).


Primeira vez que li Grande Sertão, já adulta e mãe de filhos, encontrei o meu avô.

Vovô Jorge, cuja morte me trouxe a necessidade do poema. Vovô e seus casos contados da janela onde, prisioneiro de suas bengalas, via o mundo. O mundo dos almanaques, janelas abertas para o colorido curioso da vida, lugares apenas imaginados. E as notícias do Crato, entregues a domicílio por Pedro Maia, em hora mais certa do que a dos jornais diários (que lá não existiam naquele tempo).

Sertões afora, e a parecença das coisas, no mais chão.

São as entranhas do Brasil, traduzidas em palavras pela genialidade do escritor. Tornadas sentimento universal do humano.
É por dentro que viajamos, sempre.
Pelas entranhas.


Pássaro. Foto de Mário Vítor.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Sentimento de Minas




São Francisco de Assis


Carlos Drummond de Andrade


Senhor, não mereço isto.

Não creio em vós para vos amar.

Trouxestes-me a São Francisco

e me fazeis vosso escravo.


Não entrarei, Senhor, no templo,

seu frontispício me basta.

Vossas flores e querubins

são matéria de muito amar.


Dai-me, Senhor, a só beleza

destes ornatos. E não a alma.

Pressente-se a dor de homem,

paralela às das cinco chagas.


Mas entro e, Senhor, me perco

na rósea nave triunfal.

Por que tanto baixar o céu?

Por que esta nova cilada?


Senhor, os púlpitos mudos

entretanto me sorriem.

Mais que vossa igreja, esta

sabe a voz de me embalar.


Perdão, Senhor, por não amar-vos.

Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto, MG, tida por alguns como a obra-prima de Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.

terça-feira, 25 de março de 2008

Ana e Virgílio...



...vistos por Davi Sales*, através dos olhos de Liana.
* Quadbank.com

quarta-feira, 19 de março de 2008

Ao meu amor, em nossos 30 anos de casados




Pelo tanto que é belo,
e resiste
e frutifica
e recomeça.





Verdade



Descobri que te amo demais
Descobri em você minha paz
Verdade!


Pra ganhar seu amor fiz mandinga
Fui a ginga de um bom capoeira
Dei rasteira na sua emoção
Com o seu coração fiz zoeira
Fui à beira de um rio e voltei
Uma ceia com pão, vinho e flor
Uma luz para guiar sua estrada
A entrega perfeita do amor
Verdade!


Descobri que te amo demais
Descobri em você minha paz
Descobri sem querer a vida
Verdade


Como negar essa linda emoção?
Que tanto bem fez pro meu coração?
Pra minha paixão adormecida?
Teu amor meu amor incendeia
Nossa cama parece uma teia
Teu olhar uma luz que clareia
Meu caminho tal qual lua cheia
Eu nem posso pensar te perder
Ai de mim esse amor terminar
Sem você minha felicidade
Morreria de tanto penar
Verdade!


(de Zeca Pagodinho, interpretação pelo compositor, com Caetano, Daniela e Gil, disponível no LimeWire)

Foto de MVítor.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Espera


Há silêncio no Casulo e muita vida por fora.
Porque há o tempo de viver, e o tempo de inventar palavras.
São nuances.

Nuances. Foto de MVítor.