Sentimento de Minas (2)





Estar nas Minas Gerais de João Guimarães Rosa é descortinar “... o irremediável extenso da vida”. É “...sentir no nada”, compreender que o outro "é minha neblina".


Ah, mas falo falso. O senhor sente? Desmente? Eu desminto. Contar é muito, muito dificultoso. Não pelos anos que se já passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas – de fazer balancê, de se remexerem nos lugares. O que eu falei foi exato? Foi. Mas teria sido? Agora, acho que não. São tantas horas de pessoas, tantas coisas em tantos tempos. Tudo miúdo recruzado. Se eu fosse filho de mais ação e menos idéias, isso sim, tinha escapulido...” (Grande Sertão: Veredas).


Primeira vez que li Grande Sertão, já adulta e mãe de filhos, encontrei o meu avô.

Vovô Jorge, cuja morte me trouxe a necessidade do poema. Vovô e seus casos contados da janela onde, prisioneiro de suas bengalas, via o mundo. O mundo dos almanaques, janelas abertas para o colorido curioso da vida, lugares apenas imaginados. E as notícias do Crato, entregues a domicílio por Pedro Maia, em hora mais certa do que a dos jornais diários (que lá não existiam naquele tempo).

Sertões afora, e a parecença das coisas, no mais chão.

São as entranhas do Brasil, traduzidas em palavras pela genialidade do escritor. Tornadas sentimento universal do humano.
É por dentro que viajamos, sempre.
Pelas entranhas.


Pássaro. Foto de Mário Vítor.

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