domingo, 27 de abril de 2008

Dois poemas do novo livro de Francisco Carvalho

Na emoção de ler o novo livro do grande poeta, trago dois poemas seus, sempre fortes, incisivos.
Que me transpassam neste domingo.



O QUE NÃO SE PODE MEDIR


Quem pode medir o tempo

se de ausência o tempo é feito?

se evapora em nossas mãos

como um rio no seu leito?



Quem pode medir o tempo

do que se perde ou se ganha

quando ela solta os cabelos

rumo ao veio em que se banha?



Se o tempo é caule de espuma,

rajada que apaga a chama?

Se o tempo dispersa os mortos

numa nau de porcelana?



Quem pode medir o tempo

como se mede uma ceifa?

ritmos do pulso da amada

quando se despe ou se deita?



Quem pode deter as horas

esse rebanho de ovelhas

que pastam nossas volúpias

entre os seios das tigelas?



Quem pode deter o tempo,

as patas desse cavalo

que à noite nos presenteia

seus galopes de centauro?



Quem pode medir o tempo

da mentira e do cinismo?

o corvo ao lado da cova

de sete palmos de abismo?





PALAVRAS AO ABISMO


Com que palavras, Mãe,

poderei falar de tua ausência?

de tua pobreza indomável?

de tuas esperanças no imponderável?

das contas desbotadas do teu velho rosário?



Ou da falta que nos fizeste?

das rosas que murcharam nos teus jarros?

dos pássaros que se calaram nos beirais?

do vento que derrrubou as vigas de nossa casa?

onde sonhavas com nosso pai, quando

regressava de suas plantações de relâmpagos?



Perguntavas pela chuva e pelo vento,

pelos estios, pelo milho que desmoronava

na ausência do inverno. Pelas ovelhas

magras, pelas vacas tristes, pelos

bezerros famintos, as crias desmamadas

e os rios que agonizavam nas almofadas de areia.


Francisco Carvalho: Mortos não jogam xadrez. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2008.