sexta-feira, 9 de maio de 2008

Um poema [essencial] de Carlos Machado



Dores e Moendas


Minas dói.
Pernambuco mói.
A Bahia rói
o osso amargo de sua alegria.

Minas dói
a dor nas veias do ouro
tortura de ferro e sal
suplício do Aleijadinho
silêncio sussurrado
entre montanhas.

Minas dói
com seus poetas
seus profetas de pedra
e horizontes ríspidos.

Pernambuco mói.
Remói a cana-cainana
serpente verde
caldo grosso
que retarda o passo do tempo.
E ao rés-do-chão
bangüê bagaceira.

Pernambuco mói
maracatus
míticas Holandas
palmas de Palmares
lama do mangue.

A Bahia rói
um gosto de sombra e desencontro
pelourinho n'alma
e tanta luz e tanto alvoroço.
Mas quando os tambores
se calam
e todos os dentes se quebram
no osso
oco da alegria
- Bahia, cadê Bahia?

Resta a mesma
dor de Minas
o mesmo caldo avesso
de Pernambuco.

Atabaques, calai!
Minas dói Pernambuco dói Bahia dói
cada qual em seu recôncavo
cada qual
em sua
única
íntima
e indevassável disciplina.

Em: Pássaro de Vidro. São Paulo: Editora Hedra, 2006.

Contraluz. Foto de M. Vítor.

3 comentários:

Maria Muadiê disse...

muito bonito.

conceição pazzola disse...

Beleza de escolha.
Adorei o seu blog.

Conceição

Raiça Bomfim disse...

Que bom é reencontrar os dois juntos: a ti e a Carlos. Saudades de suas palavras, saudades das dele.

Abraço forte e doce,

Rai.