domingo, 28 de setembro de 2008

Blog-episteme (5)


É do estatuto dos blogs o fazer-se/desfazer-se, assim como o é a estética do baú.

Remexer antigos escritos ou registros emergentes, mesmo se efêmeros, esmiuçar sua possível vida, em flashes quase fotográficos.

Também deixar que os textos se mostrem e circulem - aqueles de outros, que gritam em nós até que criemos espaço para eles, e os nossos próprios, quando doem ou apenas brincam.

Já não me preocupo tanto em definir o que é e para que serve um blog. Deixo que esteja, e o que tem maior impacto é a rede que ciranda em torno, movimento livre, fluido, discreto ou cantante. Pessoas que já estão em minha vida, outras que chegam, os "pequenos" (meus queridos jovens e extraordinários poetas) e suas lindas palavras, sinal de esperança tanta. Tudo o que me comove.

Não há lugar nele para arrependimentos, literários ou de outra sorte. Blogs são pós-modernos. São fragmento do cotidiano, rede de ligações e memória. Assim chegam, como canções no rádio, por vezes apenas matando o tempo, por vezes de inesperada beleza. Esta, a efêmera vida dos blogs. Mas, o que seria de nós sem as canções que tocam no rádio?

Deixar, pois, que o blog simplesmente esteja, casulo ou cápsula, bandeira desfraldada, tristeza ou alegria, silêncio ou evocação.



Derivações. Foto de MVítor.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Poema antigo


Às vezes desperto e há um poema antigo. Como este, que retorna, certamente provisório, pelas frestas do todo dia.

Tristeza

é como parar
entre o necessário prosseguir
e a perdida identidade

é como fechar os olhos
e ouvir vozes concretas
de pedra e sangue

é como morrer
a inútil dimensão
que te encarcera

é como chorar invisíveis lágrimas
na crista das definitivas
ondas

é como sentir no rosto salpicos de mar
personalizados
em lágrimas

é como, em silêncio, dormir
e deixar que o poema
se escreva.
Nudez. Foto de MVítor.

domingo, 21 de setembro de 2008

Semillas de imensidad



Los hermanos

Atahualpa Yupanqui

Yo tengo tantos hermanos,

que no los puedo contar,

en el valle, la montaña,

en la pampa y en el mar.


Cada cual con sus trabajos,

con sus sueños cada cual,

con la esperanza delante,

con los recuerdos, detrás.

Yo tengo tantos hermanos,

que no los puedo contar.


Gente de mano caliente

por eso de la amistad,

con un lloro pa’ llorarlo

con un rezo pa’ rezar.


Con un horizonte abierto,

que siempre está más allá,

y esa fuerza pa’ buscarlo

con tesón y voluntad.


Cuando parece más cerca

es cuando se aleja más.

Yo tengo tantos hermanos,

que no los puedo contar.


Y así seguimos andando

curtidos de soledad,

nos perdemos por el mundo,

nos volvemos a encontrar.


Y así nos reconocemos

por el lejano mirar,

por las coplas que mordemos,

semillas de inmensidad.


Y así seguimos andando

curtidos de soledad,

y en nosotros nuestros muertos

pa’ que nadie quede atrás.


Yo tengo tantos hermanos,

que no los puedo contar,

y una hermana muy hermosa

que se llama libertad.


Ver interpretação pelo grupo Raices de America em:
Caminhos (Valparaíso, Chile). Foto de MVítor.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Obrigada, Claudio, por tanto



Carta a Claudio Perani, que não se queria póstuma

de Ruben Siqueira
(Agente da CPT Bahia/Sergipe há 27 anos, atualmente atuando no Projeto Articulação Popular na Bacia do São Francisco - CPT/CPP)

Querido Cláudio,

Quando chegou a notícia de sua grave doença, acompanhada de poucas esperanças de cura, pensei em escrever para você, para dizer de sua importância para nós da pastoral e dos movimentos populares, da CPT (Comissão Pastoral da Terra), e para mim, pessoalmente. Ainda comentei com os colegas o desejo de contrariar o velho costume de homenagens tardias, post-mortem... Dei-me conta, porém, de que uma carta desta soaria como um precoce adeus, indevido a um doente. Fiquei nos votos de saúde e paz, nas preces e na esperança que não morre...
Mais cedo do que esperávamos o câncer o levou. Melhor assim, você já tinha mesmo cumprido, exemplarmente, a Missão, não merecia maiores sofrimentos ao partir para o Infinito. Cumpro agora o desejo/dever de lhe dizer o que queria. Aí, "lavado no sangue do Cordeiro, passada a grande tribulação" (Apocalipse 7,14), você saberá. E saberemos nós, aqui, corações ardendo, no caminho iluminado pelo vivo testemunho (martirýa) que você nos deixou, ensinou (e aprendeu) conosco.

Quando em 1981 cheguei à Bahia da Diocese de Juazeiro, das grilagens de terra, da barragem de Sobradinho e dos primeiros projetos de irrigação, do bispo-profeta Dom José Rodrigues e da CPT atuante, soube de você, de seu enfrentamento à Ditadura e ao "carlismo" na Bahia, da coragem em dar guarida a perseguidos pelo regime (muitos hoje em altos poderes do Estado e da República). Aprendi a buscar nos "seus" Cadernos do CEAS (Centro de Estudos e Ação Social, dos jesuítas em Salvador) luz e força naqueles tempos bicudos e cheios de esperança, como você nos fez enxergar. Não haviam sobrevivido outras publicações nesta linha. Sem os Cadernos, estaríamos provavelmente, ainda mais perdidos... Semente bem plantada, árvore bem cuidada, 41 anos depois os Cadernos continuam... Logo soube que, pelo CEAS, você havia procurado o bispo anterior, antes do início das obras da barragem, para alertar sobre o que sucederia com 72 mil pessoas atingidas, 2/3 camponeses ribeirinhos e catingueiros desprotegidos, e oferecer assessoria à diocese no que você via como desafio pastoral. Em vão.

Contamos por várias vezes com sua assessoria direta, na diocese e na CPT Bahia/Sergipe, e aí fomos mais iluminados pelo brilho sutil de sua inteligência, a agudeza de sua sensibilidade, a fidelidade do seu compromisso evangélico com os mais pobres, a força - tanto maior quanto mais simples - de suas idéias pastorais e valores de evangélica libertação. Acho que foi você quem me convenceu de que nosso papel se limitava (e se engrandecia) no simples serviço ao protagonismo dos pobres na luta pela libertação, que não seria se não fosse assim, por eles, com a força de Deus - a Causa do Reino, nossa Causa. Esta sua marca perdura até hoje na CPT Bahia, tantos anos e tantos agentes depois. (...)

Numa ocasião, nosso entusiasmo pelas oposições sindicais, pela construção da CUT e do PT, teve que se deparar com o realismo de sua tranqüila ponderação sobre os limites intrínsecos e históricos destes instrumentos de ação. Não foi uma "ducha fria" - você não era disso -, mas um alerta que calou fundo. Premonitório? Nada disso, só sabedoria mesmo! É que para você o critério da fé e da ação - unidade indissolúvel - sempre foi o pobre, preferido de Iahweh e de Jesus, e seu projeto histórico e escatológico. O seu não era um Deus etéreo, mas uma realidade bem concreta, vivido numa relação experiencial de serviço, cotidiana, contextualizada. Pura fé. Por isso, talvez você estivesse achando mal colocado, revisionista e muito afeito ao espírito (ou falta de) do tempo atual, o debate recente sobre qual a centralidade da Teologia da Libertação, se no pobre ou no Cristo?

Numa carta de Manaus 18.04.1996, sobre as crises da CPT, você me dizia: "(...) fundamental o protagonismo dos lavradores. É claro, a palavra serviço não deve ser abusada. No fundo trata-se de uma questão de poder: dos lavradores ou nosso. A tentação do poder nosso é sempre muito grande e pode encontrar mil justificativas, entre outras o pedido dos próprios lavradores. Renunciando ao próprio poder, entramos numa situação de aparente insegurança e indefinição. É aqui que deveria entrar a visão de fé ou a espiritualidade".

Em comentário a um texto que, em abril de 1997, lhe mandei, de reflexão da CPT Nacional sobre "relações com o Estado", você, veemente, questionou uma citação de Habermas sobre o "nenhum potencial de ruptura" das "subclasses", que seria a "população excedente" resultante da globalização dos mercados financeiros e da própria produção: "Como os excluídos não têm nenhum potencial de ruptura? Só sua existência é uma preocupação grande para o modelo neoliberal. Veja a violência, a política de fertilidade, as migrações...".

Sobre as tais "relações com o Estado", você dizia: "Como é possível, na atual distribuição de forças, o Estado representante dos interesses do capital, pensar em ‘parceria cidadã’, onde cada um ganhe como igual?" A pergunta, atualíssima, azeda o gosto destas vultuosas relações, que estão a praticamente paralisar movimentos sociais...

Um artiguinho daqueles seus, despretensiosos e fundamentais, nos Cadernos do CEAS - "Sobre as eficácias" (n.150, 1994) - ensinava que à eficácia política e à eficácia econômica, justas e necessárias, se sobrepõe para nós, a "eficácia da presença" gratuita no meio dos pobres e aberta aos seus sinais. Até hoje usamos o texto nos encontros de formação de agentes da CPT e como referência nos cursos com lideranças de movimentos sociais, por vezes ferrenha e estruturalisticamente marxistas-leninistas. Sua reflexão é uma primorosa e potente atualização metodológica, social e política do episódio de Pedro e João diante do paralítico esmoler "carregado" diariamente à porta do templo: "ouro e prata eu não tenho, mas o que eu tenho te dou: levanta e anda" (Atos dos Apóstolos 3,6).

Ouvi você dizer que gostava do carnaval, que chegava a ir "atrás do trio elétrico"... E lamentar que fossem poucos dias (em Salvador dura quase uma semana), "pois se fossem mais, o povo faria aí a revolução!". Só um olhar tão perspicaz e atento veria tão profundamente...

Na verdade, Claudio, acho que você via com o coração o que sua inteligência disciplinada pelo estudo lhe descobria. Quer dizer, via com amor, porque, sobretudo, amava, ao povo que o Evangelho lhe mostrou sofrido, às margens de estradas e caminhos, como os trabalhadores, posseiros e burareiros (pequenos produtores) do cacau, onde por quase 20 anos, duas vezes por mês, ia nos fins de semana, apenas ser/fazer "presença eficaz". Foi você de quem ouvi por primeiro que o Evangelho da CPT era o do Bom Samaritano, o que deu apoio incondicional ao pobre assaltado à beira da estrada de Jerusalém a Jericó, ignorado por sacerdotes e levitas... (Lucas 10, 25-37).

Vindo de lá da região do cacau, uma vez, em assembléia da CPT Bahia/Sergipe, nos inquiriu: "vocês só têm olhos para os trabalhadores clássicos, não vêem os desempregados, os biscateiros, os que vivem de bico, porque não há outra alternativa, de terra ou trabalho? É o que mais se vê hoje, nas beiras das estradas". E aquilo muito nos incomodou... Pouco depois, iria influenciar decisivamente a opção da CPT de Juazeiro de priorizar o trabalho com os assalariados da irrigação, que resultou na criação do SINTAGRO, primeiro sindicato regional (intermunicipal) de assalariados rurais, "das empresas agrícolas, agropecuárias e agroindustriais". Foi o CEAS quem fez a pesquisa que levantou os dados fundamentais para iniciar o trabalho.

A criação da CPT deve muito a você, sobretudo o caráter "pastoral popular" da comissão que nascia e seria apoiada pela CNBB. O CEAS, com você e o Padre Manuel Andrès, teve papel decisivo não só nas andanças e contatos país afora, que resultaram na articulação de agentes que deu na CPT. No Encontro de Goiânia, entre 19 e 21 de junho de 1975, que originou a CPT, talvez tenham sido as falas e os embates que você mais alguns companheiros travaram nos corredores - mais do que as escutas de arapongas do SNI e o sumiço de papéis -, os responsáveis pela definição da CPT como "pastoral de serviço", "do conflito" e "nas fronteiras". Não fosse você, em lúcida e oportuna parceria com outros companheiros - expressão de uma ampla e múltipla e mapeada experiência vivida na base -, a nascente "Comissão de Terras" não seria "pastoral", mas uma mera "comissão de notáveis" que interporia, em gabinetes de generais, o prestígio e o peso da Igreja Católica, em favor dos desvalidos da terra avidamente cobiçada pelo capital avançando por sobre índios, posseiros e peões da Amazônia e do Brasil.

Essa história ouvi de você naquele memorável quase um dia inteiro, em Porto Velho - RO, onde você estava em compromisso como superior dos jesuítas na Amazônia. Ainda hoje me cobram (agora ainda mais) por não ter gravado aquela conversa sobre as origens da CPT... Sabe que, no fundo, não me arrependo, não cabia ali um gravador intruso, você não acha? Era amizade e gratuidade demais para ter preocupação com registro e posteridade... Além das informações preciosas, ficou a memória afetiva e o querer seguir sendo discípulo seu, mesmo sabendo que essa coisa de "mestre" lhe incomodaria... Porque, no fundo, você "só" quis mesmo ser - e foi completamente - Companheiro da Caminhada, Companheiro de Jesus.

Adital - Notícias da América Latina e Caribe, 01/09/08.
Acessada em 10/09/08, no endereço http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=34767