sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Viagens (1)



ROMA

O mês é setembro.
La morte i la fanciulla,
Il Cameristi Toscani.
O Castel Sant'Angelo, desde sempre e para sempre.
O vulto da noite.
Águas.
As inacreditáveis cores de Roma ao entardecer,
aquarela infinitamente projetada em tempo e espaço.
Sou todas essas cifras musicais.
Sou todos esses momentos, e as cores todas.
Estou impregnada de eterno.

FIRENZE

Até a chuva é bela em Florença,
onde nenhum detalhe é sem valor.
Os pingos escorrem inteiros sobre as pedras escuras.
"Belissimo!"
Perco-me nessa imagem única,
gratuita e efêmera, que a cidade nesse momento oferece
só para mim.

RIO DE JANEIRO
No Brasil, a primeira visão é de um nunca visto
Rio de Janeiro.
As luzes da cidade adormecida,
tanta paz.

A estrela d'alva e duas cores únicas desenhando
sozinhas
o esplendor do sol nascente.




Roma fonte. Foto de MVìtor.


quinta-feira, 30 de outubro de 2008

"Bem dentro do coração guardado"



Sou apenas alguém do interior, em contato com coisas simples e essenciais, capaz de comover-se por inteiro com cantorias, com a poesia absoluta de uma canção sobre “o ermo da solidão das estradas”.

E fiel à obsessão pela poesia, no mais universal. Esta canção de Elomar faz parte do que está "bem dentro do coração guardado".


Violeiro



Elomar



Vou cantá no canto de primero


as coisa lá da minha mudernage


qui mi fizero errante e violêro


Eu falo sério e num é vadiage



E pra você qui agora está mi ovino


Juro inté pelo Santo Minino


Vige Maria qui ôve o queu digo


Si for mintira mi manda um castigo



Apois pro cantadô e violero


Só há treis coisa nesse mundo vão


Amô, furria, viola, nunca dinhêro


Viola, furria, amo, dinhêro não



Cantadô di trovas e martelo


De gabinete, lijêra e moirão


Ai cantadô já curri o mundo intero


Já inté cantei nas portas de um castelo


Dum rei qui se chamava de João


Pode acriditá meus companhero


Dispois de tê cantado o dia intero


O rei me disse fique, eu disse não



Se eu tivé de vivê obrigado


um dia iantes dêsse dia eu morro


Deus feiz os homi e os bicho tudo fôrro


já vem iscrito no livro sagrado


qui a vida nessa terra é uma passage


Cada um leva um fardo pesado


é um insinamento qui desde a mudernage


eu trago bem dentro do coração guardado



Tive muita dô de num tê nada


pensano qui êsse mundo é tudo tê


mais só dispois de pená pela istrada


beleza na pobreza é qui vim vê


vim vê na procissão o Louvado-seja


E o malassombro das casa abandonada


côro de cego na porta das igreja


E o êrmo da solidão das istrada



Pispiano tudo do cumêço


eu vô mostrá como faiz um pachola


qui inforca o pescoço da viola


E revira toda moda pelo avêsso


e sem arrepará si é noite ou dia


vai longe cantá o bem da furria


sem um tostão na cuia o cantadô


canta inté morrê o bem do amor.



Ver por Xangai em

http://br.youtube.com/watch?v=KtHZVb3qMzI&feature=related

Pássaro. Foto de MVítor.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Um poema de Cecília Meirelles



Epigrama no. 2

Cecília Meirelles

És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir, e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.

Felicidade, és coisa estranha e dolorosa.
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo, despovoado e profundo, persiste.

Foto de MVítor.








segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Um livro

Cor do texto


"O que conta é ser natural, escrever o mais perto possível da respiração".

De J.M.G. Le Clézio, ganhador do Nobel de Literatura 2008, para quem literatura é encantamento.

Seu livro Peixe Dourado é mesmo um encanto.

domingo, 19 de outubro de 2008

Notas perdidas em um canto, sem data ou lugar



[Do self dialógico]


Coisas vistas de relance, contos mínimos que gostariam de ser escritos.

Eu poderia ser essa página em branco querendo ser escrita, se tivesse um livro de cabeceira. Se tivesse um tempo de cabeceira, essa coisa entre parênteses que ajuda a não dormir para sempre.
Mas é um só o tempo, e não me pertence. Não pertence a ninguém. E queremos, cegos e surdos, dominar o tempo. Queremos.

Esse conto que se quer escrito é fragmentos. Coisas ditas, e seus silêncios. Cantos de coisas, prefiro, pedaços de olho, mão, voz. Frases reunidas absolutamente ao acaso, aquilo que às vezes se escuta, dialogia possível.

As coisas que escuto quando estou presente.
Não sei ao certo quando estou. É tudo incerto.

Palavras no canto lucilam. Vagalumes. Vagam. Luminam.

Estou nostálgica. Estou como uma superfície não refratária. Se existe isso? Sei lá eu. Raios de energia chegam e estou intacta. Nada devolvo, não quero. Essas palavras mesmas, não quero.
A superfície não refratária, imune à ação dos raios, é lisa como vidro, espelho externo que não sou eu.

Tudo nela desliza.


O outro. Foto de MVítor.

domingo, 12 de outubro de 2008

"E se eu fosse ficar só pensando na dor?" História de uma geladeira.





As coisas hoje estão muito difíceis. A senhora já viu o preço da carne? Aumentou de novo.

E as alternativas à carne? Já comeram soja? E frutas, verduras? Sai muito mais barato.

Gente que trabalha como nós precisa de carne. Já pensou, sair de manhãzinha, trabalhar o dia inteiro, sem comer nem uma merenda? Chegar pra almoçar já de noite depois de entregar os sequilhos e comer uma salada de frutas? Não sustenta não. Antes a gente até ajeitava uma merenda aqui na Cooperativa, agora não dá mais. Soja não tem gosto de nada, a pessoa não sente que tá comendo. O negócio não está fácil. Estou atrás de dia pra dar fora, porque aqui na cooperativa não está dando como antes. Antes tinha muitas mulheres trabalhando, e a gente trabalhava o dia inteiro, todos os dias. Agora tem menos mulheres e a gente só pode trabalhar 2 dias. Não era, Ninha? Ninha tá aí de prova. A coisa tá difícil demais.

Agora, eu vou dizer à senhora: trabalhar um dia, fazendo de um tudo, pra ganhar menos de um salário eu não vou. O que é 300 reais hoje? Lá em casa, só de pão, é cinco de manhã, cinco de tarde. Eu estou atrás de uma roupa pra lavar, pra passar. Saiu a tabela agora. Mas por esse dinheiro não vou. Só o transporte... Agora vou lhe ser franca. Por 35 reais eu vou. Nem toda branca entende a situação da gente. Tem umas brancas aí... Agora tem umas patroa boa. Eu trabalhei com uma no Caminho das Árvores, que criatura boa. Eu não esqueço daquele tempo.


Foi assim: primeiro eu dava três dias a ela, ia lá, lavava uma roupa, passava uma roupa. Depois ela chegou e disse: "Nalva, venha todos os dias. Você fica aí, cuida da roupa, e faz o que for preciso, ajuda em outras coisas também". Ela tinha cozinheira e arrumadeira. Aí fui ficando, fiquei uns dois anos. Ela era boa. Uma vez me deu um bujão de gás. Eu pedi pra ela comprar pra mim, depois eu pagava, porque o meu o marido vendeu. Quando dá pra beber vende tudo que tem em casa. Fica quinze dias, três semanas na cachaça. Ninha tá aí de prova. Nesse tempo fiquei um tempão cozinhando de fogareiro, na boca do fogo, sem bujão. Quando falei com ela, ela na mesma hora ligou pro marido em Camaçari, que ele trabalha lá numa firma, e ele mandou trazer o bujão. Aí ela disse: "pronto, taí seu bujão, é seu. É só mandar os meninos buscarem". E não me cobrou nada.


Só saí de lá quando esse menino meu menor nasceu, e aí não pude mais ir. Mas não esqueço daquele tempo. Ela me deu uma geladeira, a senhora precisava ver. Não foi, Ninha? Uma daquelas Frigidaire, grande, com duas portas, seminova. Boa, boa, a geladeira. Mas o marido implicou com a geladeira, porque fui eu que ganhei. Dizia que ela não prestava. Implicando com coisa usada, não sabe? Batia a porta com força, chutava, só pra quebrar e dizer que a geladeira já era quebrada.

Foi assim: cheguei na casa dessa mulher, ela disse "Nalva, vou lhe dar essa geladeira. Roberta - que era a menina dela - disse que essa geladeira é sua". Eu fiquei assim sem acreditar. Pensei que era outra geladeira que tinha lá, estragada assim nos pés. Não acreditava que era aquela seminova. E também tinha as outras que trabalhavam lá há mais tempo. Se bem que era mais nova a cozinheira, moça nova, só tinha dois, três filhos. Ela mandou botar a geladeira no carro e o carro foi levar lá em casa.

Aí era aquele inferno com o marido. Os meninos ficavam agoniados, diziam: "Mãínha, Paínho vai acabar com essa geladeira". E eu só vendo aquilo, chutando, batendo a porta, jogando coisa, até pau, na geladeira. E aquilo me cortava o coração. Até que um dia resolvi, peguei e vendi aquela geladeira, tão boa, por 150 contos. E nunca mais comprei outra, tô sem geladeira até hoje. E vou ficar assim. Mas eu não esqueço daquele tempo. Quando era dia de sexta feira, eu recebia o meu dinheirinho - me lembro como se fosse hoje! - passava na Cesta do Povo, trazia aquele monte de coisas pra casa. Chegava em casa, tinha de tudo.

É a cachaça. Ele quando não bebe é outra pessoa, mas, quando tira pra beber, três semanas, quinze dias, sai de baixo! Não vê nada, não respeita nada. Eu já passei coisa... Tudo é a cachaça. Quando ele não bebe ele é bom. E quando os meninos eram pequenos, eu saía pra trabalhar, os meninos às vezes iam pra escola com fome, sem coragem de entrar em casa pra almoçar, porque quem passasse na frente dele ele batia. Era filho, qualquer um.

E ele batia na senhora?

Ora, não! Eu já passei cada uma. Ninha sabe. Não é, Ninha? E a vergonha que a gente passa, minha filha? E aquela coisa, pros vizinhos não saber? Hoje ele não me bate mais, tem medo dos filhos já homens. Os filhos não iam deixar mais. Meus filhos são muito bons pra mim. Mas até os parentes dele me diziam pra largar ele, me separar. Agora eles dizem que não, se eu não me separei até hoje, tenho que levar até o fim. E eu não acho certo separar, penso muito também nos filhos, não sabe? E também ele tá lá doente. Ele foi mordido de barbeiro, e o irmão dele já morreu disso. Lá no interior deles, na roça, tem muito isso.

Mas eu não vou ficar indo pro hospital como a mulher do irmão dele fez. É com esse homem que eu vivo, é com ele que divido a minha cama até hoje, mas não tenho mais nada com ele. Porque, na hora, eu me lembro de tudo de ruim que ele fez comigo. Eu não esqueço o que ele me fez de bom, mas o que ele me fez de ruim eu não esqueço nada. Também, quando ele tiver que ir pro hospital, eu vou lá ver ele, mas não vou ficar direto como a mulher do irmão dele.


Mas, e quem disse que ele quer ir ao médico? Eu vivo dizendo a ele, mas ele não quer ir de jeito nenhum. Fica lá o dia inteiro deitado com aquele corpão. Não faz nada, só se queixando de dor na coluna, diz que é doente. Mas doente todo mundo é, eu sou, vocês são. Quem é que tem saúde hoje em dia? Mas a gente não pode pensar muito na doença, tem que ir distraindo dela. Eu mesma acordo com as juntas doendo, mas vou indo, vou esquentando o sangue, aquilo vai indo, vai indo, e passa. E se eu fosse ficar só pensando na dor?


domingo, 5 de outubro de 2008

Mimeógrafos, máquinas de costura e eleições





Guardo do meu livro muitas alegrias e uma dor.


A má qualidade de sua impressão dói a cada vez que olho para ele, assim tão artesanal, lembrando aqueles antigos boletins de quando éramos militantes, "rodados" no mimeógrafo a álcool, ou a óleo - datilografados no já mais sofisticado stencil - e eu sempre, de algum modo, ligada à imprensa.


E era para ser lindamente editado, aliando as ilustrações de Alvinho aos tantos modernos recursos gráficos disponíveis. Era para ser lindo, pois foi feito com o dinheiro que Ia deixou para mim quando morreu aos 96 anos, sua poupança de tantos anos costurando ao ritmo de sua máquina Singer, manual, que era a própria música de sua vida.


No entanto, aqui está ele, seguindo seu caminho de livro, entre trocas e silêncios, gerando impressões tantas, repercutindo as impressões da minha própria vida, de meu próprio sentir diante do mundo, estas impressões que em mim estão gravadas tão fundo.


Mimeógrafos e máquinas de costura estão de fato muito próximos do que se tece nesse livro. Posso sentir em suas páginas o cheiro do álcool e do óleo, posso sentir vibrando em mim sua cadência e sua canção, entremeadas por tantas outras canções, antigas canções folclóricas que Ia cantava ao trabalhar, e que nunca esqueci, canções outras, revolucionárias, que viraram hinos para minha geração. Todas, canções de sonho.


Fui tomada por outros ritmos, e não é por outra razão que perdi o passo preciso de acompanhar a impressão do livro, ocupada tanto, perdi o passo e o prazo no afã de cumprir uma agenda que, de fato, pouco importa.


Este é um registro em um domingo de eleições no Brasil, ativando sonhos, perguntando aos amigos em que espelho tantos destes sonhos se perderam, quantos outros viraram realidade, às vezes inesperadamente. Pois são benditos sempre os que têm fome e sede de justiça.