domingo, 12 de outubro de 2008

"E se eu fosse ficar só pensando na dor?" História de uma geladeira.





As coisas hoje estão muito difíceis. A senhora já viu o preço da carne? Aumentou de novo.

E as alternativas à carne? Já comeram soja? E frutas, verduras? Sai muito mais barato.

Gente que trabalha como nós precisa de carne. Já pensou, sair de manhãzinha, trabalhar o dia inteiro, sem comer nem uma merenda? Chegar pra almoçar já de noite depois de entregar os sequilhos e comer uma salada de frutas? Não sustenta não. Antes a gente até ajeitava uma merenda aqui na Cooperativa, agora não dá mais. Soja não tem gosto de nada, a pessoa não sente que tá comendo. O negócio não está fácil. Estou atrás de dia pra dar fora, porque aqui na cooperativa não está dando como antes. Antes tinha muitas mulheres trabalhando, e a gente trabalhava o dia inteiro, todos os dias. Agora tem menos mulheres e a gente só pode trabalhar 2 dias. Não era, Ninha? Ninha tá aí de prova. A coisa tá difícil demais.

Agora, eu vou dizer à senhora: trabalhar um dia, fazendo de um tudo, pra ganhar menos de um salário eu não vou. O que é 300 reais hoje? Lá em casa, só de pão, é cinco de manhã, cinco de tarde. Eu estou atrás de uma roupa pra lavar, pra passar. Saiu a tabela agora. Mas por esse dinheiro não vou. Só o transporte... Agora vou lhe ser franca. Por 35 reais eu vou. Nem toda branca entende a situação da gente. Tem umas brancas aí... Agora tem umas patroa boa. Eu trabalhei com uma no Caminho das Árvores, que criatura boa. Eu não esqueço daquele tempo.


Foi assim: primeiro eu dava três dias a ela, ia lá, lavava uma roupa, passava uma roupa. Depois ela chegou e disse: "Nalva, venha todos os dias. Você fica aí, cuida da roupa, e faz o que for preciso, ajuda em outras coisas também". Ela tinha cozinheira e arrumadeira. Aí fui ficando, fiquei uns dois anos. Ela era boa. Uma vez me deu um bujão de gás. Eu pedi pra ela comprar pra mim, depois eu pagava, porque o meu o marido vendeu. Quando dá pra beber vende tudo que tem em casa. Fica quinze dias, três semanas na cachaça. Ninha tá aí de prova. Nesse tempo fiquei um tempão cozinhando de fogareiro, na boca do fogo, sem bujão. Quando falei com ela, ela na mesma hora ligou pro marido em Camaçari, que ele trabalha lá numa firma, e ele mandou trazer o bujão. Aí ela disse: "pronto, taí seu bujão, é seu. É só mandar os meninos buscarem". E não me cobrou nada.


Só saí de lá quando esse menino meu menor nasceu, e aí não pude mais ir. Mas não esqueço daquele tempo. Ela me deu uma geladeira, a senhora precisava ver. Não foi, Ninha? Uma daquelas Frigidaire, grande, com duas portas, seminova. Boa, boa, a geladeira. Mas o marido implicou com a geladeira, porque fui eu que ganhei. Dizia que ela não prestava. Implicando com coisa usada, não sabe? Batia a porta com força, chutava, só pra quebrar e dizer que a geladeira já era quebrada.

Foi assim: cheguei na casa dessa mulher, ela disse "Nalva, vou lhe dar essa geladeira. Roberta - que era a menina dela - disse que essa geladeira é sua". Eu fiquei assim sem acreditar. Pensei que era outra geladeira que tinha lá, estragada assim nos pés. Não acreditava que era aquela seminova. E também tinha as outras que trabalhavam lá há mais tempo. Se bem que era mais nova a cozinheira, moça nova, só tinha dois, três filhos. Ela mandou botar a geladeira no carro e o carro foi levar lá em casa.

Aí era aquele inferno com o marido. Os meninos ficavam agoniados, diziam: "Mãínha, Paínho vai acabar com essa geladeira". E eu só vendo aquilo, chutando, batendo a porta, jogando coisa, até pau, na geladeira. E aquilo me cortava o coração. Até que um dia resolvi, peguei e vendi aquela geladeira, tão boa, por 150 contos. E nunca mais comprei outra, tô sem geladeira até hoje. E vou ficar assim. Mas eu não esqueço daquele tempo. Quando era dia de sexta feira, eu recebia o meu dinheirinho - me lembro como se fosse hoje! - passava na Cesta do Povo, trazia aquele monte de coisas pra casa. Chegava em casa, tinha de tudo.

É a cachaça. Ele quando não bebe é outra pessoa, mas, quando tira pra beber, três semanas, quinze dias, sai de baixo! Não vê nada, não respeita nada. Eu já passei coisa... Tudo é a cachaça. Quando ele não bebe ele é bom. E quando os meninos eram pequenos, eu saía pra trabalhar, os meninos às vezes iam pra escola com fome, sem coragem de entrar em casa pra almoçar, porque quem passasse na frente dele ele batia. Era filho, qualquer um.

E ele batia na senhora?

Ora, não! Eu já passei cada uma. Ninha sabe. Não é, Ninha? E a vergonha que a gente passa, minha filha? E aquela coisa, pros vizinhos não saber? Hoje ele não me bate mais, tem medo dos filhos já homens. Os filhos não iam deixar mais. Meus filhos são muito bons pra mim. Mas até os parentes dele me diziam pra largar ele, me separar. Agora eles dizem que não, se eu não me separei até hoje, tenho que levar até o fim. E eu não acho certo separar, penso muito também nos filhos, não sabe? E também ele tá lá doente. Ele foi mordido de barbeiro, e o irmão dele já morreu disso. Lá no interior deles, na roça, tem muito isso.

Mas eu não vou ficar indo pro hospital como a mulher do irmão dele fez. É com esse homem que eu vivo, é com ele que divido a minha cama até hoje, mas não tenho mais nada com ele. Porque, na hora, eu me lembro de tudo de ruim que ele fez comigo. Eu não esqueço o que ele me fez de bom, mas o que ele me fez de ruim eu não esqueço nada. Também, quando ele tiver que ir pro hospital, eu vou lá ver ele, mas não vou ficar direto como a mulher do irmão dele.


Mas, e quem disse que ele quer ir ao médico? Eu vivo dizendo a ele, mas ele não quer ir de jeito nenhum. Fica lá o dia inteiro deitado com aquele corpão. Não faz nada, só se queixando de dor na coluna, diz que é doente. Mas doente todo mundo é, eu sou, vocês são. Quem é que tem saúde hoje em dia? Mas a gente não pode pensar muito na doença, tem que ir distraindo dela. Eu mesma acordo com as juntas doendo, mas vou indo, vou esquentando o sangue, aquilo vai indo, vai indo, e passa. E se eu fosse ficar só pensando na dor?


4 comentários:

Cosmunicando disse...

que texto, Ana... fiquei aqui sem palavras.

Mariana disse...

... que coisa.

esse texto me tirou do lugar...

Casulo Temporário disse...

também a mim esse texto abala.
É a fala praticamente literal de uma senhora que entrevistei há alguns anos atrás.
Por vezes a força dessas palavras retorna, fica em minha cabeça. É tão forte, e ao mesmo tempo tão belo, o modo como se fala no Brasil, não é?
Fico ouvindo, sempre.
beijos pra vocês.

Pavitra disse...


oi, Ana!

li o texto, que tbm me abalou, e mais pelo fato de vc ter se referido à entrevista...

"E se eu fosse ficar só pensando na dor?"

esse final arrepia!