Mimeógrafos, máquinas de costura e eleições





Guardo do meu livro muitas alegrias e uma dor.


A má qualidade de sua impressão dói a cada vez que olho para ele, assim tão artesanal, lembrando aqueles antigos boletins de quando éramos militantes, "rodados" no mimeógrafo a álcool, ou a óleo - datilografados no já mais sofisticado stencil - e eu sempre, de algum modo, ligada à imprensa.


E era para ser lindamente editado, aliando as ilustrações de Alvinho aos tantos modernos recursos gráficos disponíveis. Era para ser lindo, pois foi feito com o dinheiro que Ia deixou para mim quando morreu aos 96 anos, sua poupança de tantos anos costurando ao ritmo de sua máquina Singer, manual, que era a própria música de sua vida.


No entanto, aqui está ele, seguindo seu caminho de livro, entre trocas e silêncios, gerando impressões tantas, repercutindo as impressões da minha própria vida, de meu próprio sentir diante do mundo, estas impressões que em mim estão gravadas tão fundo.


Mimeógrafos e máquinas de costura estão de fato muito próximos do que se tece nesse livro. Posso sentir em suas páginas o cheiro do álcool e do óleo, posso sentir vibrando em mim sua cadência e sua canção, entremeadas por tantas outras canções, antigas canções folclóricas que Ia cantava ao trabalhar, e que nunca esqueci, canções outras, revolucionárias, que viraram hinos para minha geração. Todas, canções de sonho.


Fui tomada por outros ritmos, e não é por outra razão que perdi o passo preciso de acompanhar a impressão do livro, ocupada tanto, perdi o passo e o prazo no afã de cumprir uma agenda que, de fato, pouco importa.


Este é um registro em um domingo de eleições no Brasil, ativando sonhos, perguntando aos amigos em que espelho tantos destes sonhos se perderam, quantos outros viraram realidade, às vezes inesperadamente. Pois são benditos sempre os que têm fome e sede de justiça.

Comentários

Luiz Fernando disse…
Linda transcrição, Ana, deste dia de domingo meio morto, meio vivo, cheio de impressões.

No início, quando comecei a estudar, no jardim, as apostilas eram de mimeogrado. Depois veio a impressora e a xerox.

Hoje acho q as crianças aprendem tudo no computador. Conheci uma criança que só brinca na frente do pc, jogo da memória, quebra-cabeça, tudo na tela virtual do pc.

Um dia minha avó fez um periquito pra mim, de papel branco. Ele enrolou no fio de eletricidade, mas antes voou um pouco.
Mariana disse…
Ana, não sabe a alegria que me proporcionou.

fico felicíssima que tenha gostado.

já enviei meu e-mail ao Carlos Machado.

Isso veio como um presente pra mim. Muito obrigada.

abraço.

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