domingo, 30 de novembro de 2008

Prece


Para Silvana e Sérgio.


Um domingo de nuvens, paz e silêncio.
O dom e a dor da vida têm igual força,
e assim tudo aquilo que começa e finda,
entre cegueira e luz,
esplendor e miséria.


A palavra não dita, o gesto recolhido, a dor destes tantos mortos
me ferem a alma como se fossem o mesmo
punhal.


Essa ferida, meu Deus,
eu sei,
é para que eu me dê conta
e me reconheça criatura.
Esta é a minha prece:
faz-me compreender que nesta vida sou eu
quem passa necessidade
de Tua
misericórdia.


Oratório. Foto de MVítor.

sábado, 29 de novembro de 2008

Um poema de Pablo Neruda



La Poesía



Y fue a esa edad ... Llegó la poesía
a buscarme. No sé, no sé de dónde
salió, de invierno o río.
No sé cómo ni cuándo,
no, no eran voces, no eran
palabras, ni silencio,
pero desde una calle me llamaba,
desde las ramas de la noche,
de pronto entre los otros,
entre fuegos violentos
o regresando solo,
allí estaba sin rostro
y me tocaba.
Yo no sabía qué decir, mi boca
no sabía
nombrar,
mis ojos eran ciegos,
y algo golpeaba en mi alma,
fiebre o alas perdidas,
y me fui haciendo solo,
descifrando
aquella quemadura,
y escribí la primera línea vaga,
vaga, sin cuerpo, pura
tontería,
pura sabiduría
del que no sabe nada
y vi de pronto
el cielo
desgranado
y abierto,
planetas,
plantaciones palpitantes,
la sombra perforada,
acribillada
por flechas, fuego y flores,
la noche arrolladora, el universo.
Y yo, mínimo ser,
ebrio del gran vacío
constelado,
a semejanza, a imagen
del misterio,
me sentí parte pura
del abismo,
rodé con las estrellas,
mi corazón se desató en el viento.
Em: Memorial de Isla Negra.
Foto: Poeira Cósmica. (UOL)

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

O que é que os blogs têm?

Gosto do que diz Saramago sobre os blogs:



A página infinita da Internet

Novembro 25, 2008

José Saramago

Acabamos de sair da conferência de imprensa de São Paulo, a colectiva, como dizem aqui.Surpreende-me que vários jornalistas me tenham perguntado pela minha condição de blogueiro quando tínhamos atrás o anúncio de uma exposição estupenda, a que é organizada pela Fundação César Manrique no Instituto Tomie Ohtake, com os máximos representantes e patrocinadores, e com a apresentação de um novo livro à vista. Mas a muitos jornalistas interessava-lhes a minha decisão de escrever na “página infinita da Internet”. Será que, aqui, melhor dito, nos assemelhamos todos? É isto o mais parecido com o poder dos cidadãos? Somos mais companheiros quando escrevemos na Internet? Não tenho respostas, apenas constato as perguntas. E gosto de estar escrevendo aqui agora. Não sei se é mais democrático, sei que me sinto igual ao jovem de cabelo alvoroçado e óculos de aro, que com os seus vinte e poucos anos, me questionava. Seguramente para um blog.

Publicado em O Caderno de Saramago
http://caderno.josesaramago.org/page/2/

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Ficção




Compressão sobre a alma.
Tenho pressa, ânsia pelo que me escapa.
Tudo como que se me esvai,
e nem a palavra, o gesto, o silêncio
podem estancar.

Hemorragia em que perco de mim substância,
plasma, alma, coração.
O tudo que em mim é coincidente com esse substrato.
Fugidio, frágil.
Untouchable.
Denso como brumas e certezas do ser.
Espasmos que me atravessam brônquios e útero até que me quedo desarmada.
Tudo são imagens, cenas, memórias.

Espasmos na alma.
Conexões.
Refúgios clandestinos, no tempo e no espaço.
Corro para ficar só, triste,
triste que nem uma coisa,
que nem um bicho.

Ferido.

Incomunicável.



Publicado em A impossível transcrição (De tudo fica a poesia).
Mandala. Foto de MVítor.


sábado, 22 de novembro de 2008

Sonho




Atrás de seus olhos
minha mãe guarda
os meus cabelos cortados.

Eu estava morta
ou de há muito partida.

Atrás de seus olhos
as coisas estão muito bem postas:
gavetas, papel de seda,
laços de fita.

Eu olhava por seus olhos e via
assim translúcidos,
os ossos de sua face,
móveis, diáfanos,
dissolvendo-se em névoa.


E lá estavam, estendidos sobre panos dobrados,
meus longos cabelos de criança
(que meu pai amava)
cortados para que eu não ficasse raquítica
e porque não cuidava bem deles:
não queria lavar,
não prendia que prestasse,
não queria desembaraçar.

(A não ser que ela o fizesse,
dia de sábado, usando óleo “Suave”,
para não doer.)


Publicado em A Impossível Transcrição (de tudo fica a poesia).
Nuances. Foto de MVítor.


sábado, 15 de novembro de 2008

Ubajara, Ceará, maio, 2000.




A série "Viagens" termina com este post, reminiscências de viajar quando criança, junto com meus irmãos. Como depois, em outras circunstâncias, por locais mais ou menos distantes, viajar era subtrair-se ao cotidiano e olhar o mundo com olhos de encantamento. Pois: foi ali que aprendi a viajar.

Crônica de uma festa de casamento

Voltando do Ceará, precisaria de pelo um dia inteiro só para me acalmar. Não o tendo, escrevo no avião, urgentemente, aflita para dar vazão a tantas palavras.

Tudo me deixa à flor da pele, este ser de uma tribo, esta herança índia pela qual sou parte dessas serras, desse recorte verde, lá do interior do mato, e me sinto tão integrada à chuva, à neblina, aos raios e relâmpagos, eu que sou tão alérgica. Este encontrar-me remetida a estar comigo vem de um modo tão veloz, vai tão longe e tão intenso que não consigo conter. Não penso: fico sabendo disso pelo olho, pelo olfato, pela pele, pelo estômago, e ainda pelas cores, dentro e fora, luz e sombra das casas à beira da estrada.

O senso térmico me remete ao denso que era crescer no interior, aprender a viver aqui, em tribo, essa colagem tão forte do tribal em nós, da qual é impossível falar, da qual calar é perder sentido.

Enquanto me preparava tão mecanicamente para a viagem, em Salvador, vinham com freqüência, sem qualquer antecipação, lembranças de Emanuel quando pequeno. É o meu irmão menor, tão doce e gentil, e que foi cedo para tão longe também, e de quem agora sei que me senti um pouco mãe -cuidei dele com tanto gosto, embora minha mãe não me deixe esquecer de quando ele caiu da janela por minha culpa. Fiz suas primeiras fotos, brinquei, conversei, e também fazia medo a ele - das bactérias e de outros perigos do mundo, o que era, sem dúvida, uma estranha forma de cuidar. Ele foi para longe, de volta à tribo, mas lá só se vê o quanto é um de nós, repetindo o pai até no modo como calça os sapatos.

*

Não sei se pelo cansaço, mas estou à flor da pele.

São as casas à beira da estrada, e eu diante delas sem precisar ser forte - somente desarmada -, com vontade de chorar por tudo.

São as casas à beira da estrada, e seu cheiro que é real de tanto que a visão das casas entra em mim tocando o que está lá dentro impregnado.

É o cheiro da cozinha da casa de minha avó Sinhá, indescritível, mas impossível de desconhecer. Um cheiro feito de silêncio, de gestos suaves, de passos suaves pela cozinha em direção à sala onde eu lia, na cadeira de balanço. Ou onde talvez me escondesse atrás do livro sem saber o que fazer com o sentimento tão intenso e desconhecido da vida contida em apenas estar ali, amando o silêncio, sons e o cheiro da cozinha. O cheiro que vinha do fogão a lenha - torresmo, um vago chá de eucalipto ou sabugueiro, feijão de corda novinho cozinhando em panela de barro, a figueira no quintal, o fumo de rolo que vovó mascava escondido, podendo ser frágil, a gente podendo ver e saber disso.

Esse olhar de avó que é lembrança tão doce, e eu queria saber chorar de saudade. A janela que se abre é de um mundo adulto no qual não éramos jamais intrusos, mas netos - e ela dizia que “não tinha nenhum neto feio”, e secretamente talvez me preferisse, recusando responder, mas sorrindo à pergunta "de qual neto gosta mais”?

Esse lugar e tempo amo, a paz daquela esquina e o café feito bem fraquinho e com bastante açúcar para que a gente pudesse tomar, e o bom não era nem o café, mas poder estar sentados em volta da mesa, escolhendo qualquer cadeira, escolhendo copo e colher ("de ouro" o alumínio amarelo, melhor ouro não havia). E conversar, e bastar pedir algo e ser sempre acolhido de alguma forma, naquela casa de poucos e sempre os mesmos objetos, que do mesmo modo estão ainda arrumados, em alguns armários e na memória.

Bolinhas de homeopatia, guardadas no armário de copos, que podia ser aberto sem medo, porque o andar discreto era de ser suave e delicado, não suspeitoso ou vigilante. E mesmo vovô, que quebrava o silêncio quando vinha toc toc com suas muletas, se era bravo (contam que no dia seguinte ao casamento ele vendeu o violão de vovó, que tocava e cantava lindamente), jamais o era conosco, podia se divertir infinitamente nos contando "causos" de almanaque ou nos deixando ficar perto da janela escutando com ele as notícias da cidade que seu amigo Pedro Maia trazia.

E as palavras se distraem e migram na frase, invertidas na lembrança que teimosa vem pela pele, pelos cheiros.

*

O frio da serra, o cheiro dos eucaliptos, os tão variados cantos dos tantos pássaros no Parque Nacional de Ubajara. Estou novamente na infância, cheiros e sons, e viajava por perto do Crato, algum sítio em cima ou ao sopé da Chapada do Araripe, e era frio, e as crianças vinham meio enrodilhadas umas nas outras em cima da caminhonete do tio, em cima de uma lona, e o carro cheirando a ração de gado ou a algo que não sei o que era, mas que era tão bom.
Nós, irmãos, juntos porque era frio, e Beto, meu irmão tão querido, que inventava estórias e descobria coisas para cantar falando da noite estrelada do Brasil (ele adorava, e eu também, uma que começava dizendo “quisera eu ser um grande poeta/pra te escrever um poema bonito”). E era 'uma viagem' deitar no desconforto e no frio e olhar as estrelas, chegaríamos ao sétimo céu se este houvesse. E não sei se vi jamais algo tão belo quanto aquele céu estrelado sob o qual flutuávamos no alto da serra, tão perto de nós, tão claro, tão perto das estrelas e de seus nomes, que meu pai nos contava nas noites suaves sem luz elétrica. Muitas lembranças de Beto são iguais às minhas, em cheiro, cor, gênero, número e grau.

Em meio a muitas outras felicidades, sem dúvida, são tantas boas lembranças, e eu não queria ter tido uma infância diferente - temos essa felicidade de irmãos que é a de poder chorar pelas mesmas coisas, como diz meu irmão Luís Sávio.
Fotos de MVítor.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Itacimirim, Bahia, janeiro, 2000




A meus irmãos, com amor.

Descanso no silêncio de Itacimirim e o dia é manso.

Só me quero mar e verde e bichos e rios. Rios da infância que não são chamados e insistem em chegar, sensação de repouso e aderência ao real, a terra molhada e o cheiro de profundidade como extensão dos nossos corpos de criança, que, no entanto, dela eram feitos (“De que são feitos os meninos, de que são feitas as meninas”? perguntava). O barro e a terra onde nos plantamos até hoje.

Itacimirim é conchas do mar, que aparecem a essa época do ano. Ainda aparecem, mesmo quebradas e tímidas. As caravelas e sua transparência, seu violeta infinito. Os bichinhos que emergem da na grama, besouros multicores, lagartos e até um siri que veio do mar até em casa, migrante sem norte, atordoado. O mar que um dia vai inundar nossa casa... Os gatinhos que vêm à noite brincar na grama, ariscos mas sempre vindo quando eu chamo (também porque estou aberta, relaxada, nenhuma dor de cabeça, nenhum cansaço ou irritação ou pressa ou agonia ou compromissos de não ser, e assim me reconhece o que é bicho).

Os pássaros, todos reconhecidos por meu pai, e amo perguntar-lhe e nunca saber dos nomes para poder perguntar de novo e ouvi-lo em seu saber mais genuíno de menino passarinho. São muitas espécies que vivem aqui, e cantos vários, e nomes belos (casaca de couro, viana, graúna, sabiás, ferreiro...). Ouvir o mar e os pássaros, privilégio e necessidade vital. Agora o silêncio é absoluto, todos dormem nessa hora quente da tarde. Escuto o silêncio, e há pássaros ao longe, e são diversos, e são de versos, palavra nenhuma poderia preencher esse momento. Esse lugar está sempre aqui e nunca o tenho como agora... O silêncio, o pai e a mãe, o meu amor só para mim. Mas as crianças, quando vêm, são parte da grama e do mar, se não fossem as preocupações do cotidiano que vêm junto via os adultos.

E os irmãos, não sou sem eles. Como no livro de Marguerite Duras, o tudo que Luís evocava ao me dar de presente. E eu que não registrei, ou mal registrei, ocupada, e nunca o fiz sabedor do que significou para mim. Mas ele sabe, contudo, porque o nosso tecido de ser irmãos é precioso. Falta o fazer saber sem o qual somos silenciosos e nos colocamos cortinas e banalidades; ele sabe que ser irmãos é poder chorar pelas mesmas coisas.

Vislumbro nossa infância de nove irmãos, de ser criança muito, e os pais tão jovens como há muito fui. Minha mãe conta que até Luís nascer todos dormíamos no seu quarto; ela nunca abriu mão de cuidar de nós à noite. Eram três, quatro berços. Viro ternura e quase choro ao ver - na lembrança ainda, uma lembrança dentro de um corredor no qual minha mãe toma minha mão e seguimos - os berços, o cestinho enfeitado e mantido tão limpo com as coisas do nenê. A caixa plástica para mamadeiras e demais utensílios, protegida em um cantinho especial da cozinha. Os objetos suaves na penumbra do quarto e o cheirinho de bebê, tão naturalmente gerado naquele tempo, misto de leite e lavanda Johnson e talco e hipoglós e fraldas de pano sujas.

Minha mãe me conta desses arranjos para demonstrar o quanto ela me queria. Desde que chegaram de Ubajara, e acho que é a primeira vez que realmente vivem, mesmo que por cinco dias, em casa de um filho na chegada de um neto – eles falaram repetidamente sobre o quarto de sua netinha caçula: muito rosa e enfeites e rendados, um exagero que eles estranham. Fico enternecida ao vê-los, esses avós convivendo com práticas de criação tão distantes da sua experiência de pais, e obtendo um equilíbrio entre estranheza, descoberta e aceitação que só se explica pelo amor.

Imagino os dois com três filhos de até quatro anos de idade, e mais um por chegar. E o que minha mãe conta, de querer estar perto às noites para estender a mão sobre a gente ao primeiro chorinho ou sinal de inquietação, e acalentar baixinho, um cicio, de modo que a gente nem chegava a chorar, voltava para o sono.

Não lembro, esse tempo é só imaginação. Mas me parece que vejo nitidamente como era, e sei em algum lugar que éramos crianças tranqüilas, e que chorávamos pouco, e que era um acontecimento se algum chorasse muito à noite. Não me vejo quando eu era o meu ser original... no tempo que não lembro, ainda intacta.

Sou oceano nas extremidades e sou terra. A infância é mar e terra, e aquele poço profundo no Caboclo – trilha estreita, árvores mirradas mas envolventes, a nos emprestar galhos dos quais pulávamos na água, trampolim de delícias e completude.

Estou à toa e as lembranças também. As conversas fluem, as lembranças vêm, gratuitas, livres, sem nenhuma exigência de nexo.

Há um novo milênio e quero verdades. Verdadeiramente viver. Sentir e significar cada momento e cada tarefa.

Fotos: MVítor.


quinta-feira, 13 de novembro de 2008

A Cidade de São Salvador da Bahia






... que é meu amor eterno, da infância e desde a idade jovem, quando o mundo nasce de novo a cada dia e as pátrias se espraiam.

...para a qual não há palavras suficientes.


A Avenida Contorno e seus meninos de rua. Suas famílias de rua, miseráveis na bela tarde ensolarada, nesse deslumbre da natureza que é o brilho dessas tardes de verão na Bahia, luxúria de sol e mar.

O registro de uma lembrança remota: uma viagem de trem, iniciada em Petrolina. Subúrbios de Salvador, já vislumbrado um pedaço de mar, Aratu. Um encantamento. Eu era menina, retornava a Salvador pela primeira vez, após a nossa mudança para o Crato. No trem, o grande barato era a expectativa do mar, o momento exato em que o víamos pela primeira vez, com o nome de “braço de mar”, que até hoje me causa certo espanto. Era verão, era sol. O verde, o colorido das casas, as promessas de mar: uma duna, a visão da água ao longe. Não sei que lugar era: Paripe? São Cristóvão? Ano: 1962? Teria 7, 8 anos então.

Os olhos buscavam uma paisagem de infância - a minha própria, já incluindo lembrança - e encantamento. Paz, beleza eram os registros. São preenchidos por uma outra paisagem, já me dizendo como são várias as infâncias: bandos de crianças nuas, descalças, olhos grandes, escuros, brilhantes. Barrigas imensas. Uma delas, do mesmo tamanho que eu então, e de chupeta na boca. Lembro do registro múltiplo, díspar: idéias de abandono, liberdade, tristeza, alegria. Vida pulsando loucamente, cores vibrantes. Sensação como que carnaval.

Na feira do Crato, aqueles olhos de criança, nariz escorrendo, chupeta e saliva, espreitando pelos cantos nas barracas na feira, aqueles olhos que falavam mais do que quaisquer regras e histórias de quase aristocracia da família... E o cheiro do fumo de rolo, igual em todo o Nordeste, de fora a fora (e até na Bahia); o mascar e o cuspir no chão, e por trás dos chapéus o olhar sombrio e desdentado dos homens, facão na cintura. E o cantar, a festa, pois quando era alegria era absoluta. E a sala de visitas das casas nossas, arrumadas, o óleo passado nos móveis, a flanela, até brilhar. A sala imóvel, a qualquer hora podia chegar uma pessoa, sem causar vergonha; não sendo criança, porém. Criança passava furtivamente, na ponta dos pés, aprendendo a construir espaços secretos de solidão. A vida, a totalidade plena do viver, estavam na feira e na estrada. E de certa forma, até hoje, para mim, a verdade é uma cidade do interior.

O mar era romance, estava nos livros e na infância na Bahia - algo como se não vida, paisagem pintada no quadro da sala, bonita para viajar nela, para viver nem tanto. Porque vida era uma coisa sóbria, verdadeira, essencial, sem exageros, luxos, extravagâncias. Outra coisa era cinema, algo de se olhar. Mas a Bahia, paisagem tão bela e luxuriante, era também tão forte já, tão vida e tão cinema, dança e movimento para olhos afeitos ao corpo estanque do nordestino: registros desde aquela infância de antes dos cinco anos e novamente meu amor eterno desde a idade jovem, quando o mundo nasce de novo a cada dia e as pátrias se espraiam.

*

Janeiro: O verão veste a cidade de deslumbramento. Perambulo, de encanto em encanto.
Súbito, porém, é setembro. O tempo pára pelo simples incidir do sol sobre as casas do morro que vejo da janela. O sol ilumina cores, portas e janelas. Pequenas ruelas, pequena gente, singelo recorte. O puro brilho do sol fazendo tudo o mais irrelevância.
A primavera caiu sobre a Bahia, enquanto eu me trancava em frente ao computador. A natureza brinca, adolescente. O mar, como um felino. Cores, flores, amores. A natureza é doce.


Praça da Sé

Estreita
a rua
Sinuoso
o tempo

Apelo
silente
Olhar
infantil

E o riso súbito
livre na boca.


Praça Castro Alves


Chove de repente no centro da cidade quebrando a tarde vazia o encontro vazio a moça triste

chove e eu ando pela rua e é escuro

e tenho medo do meu companheiro que passa e é infeliz e torto e sujo que cidade triste meu Deus quando chove

e tenho medo do povo que se acotovela sob as marquises cansado e triste e escuro depois do cansaço de todo o dia antes da noite de todo dia que noite sem dia que tempo escuro e chuvoso

e como meu coração bate de medo por causa do dinheiro que levo na bolsa que tempo escuro e triste

e como de repente há silêncio na rua só chuva sem vozes arengas sem rumores de sol alegria dia claro

e como de repente o olhar é limpo e triste sem a máscara do sol da Bahia

Um mar visita Salvador

O mar de O Piano esteve em Salvador por toda a semana.
Nele confundo coração e alma até ter os olhos liquefeitos.

Sonho formas de inauditas cores.

Bem dentro de mim
o mundo é veludo, formas dançantes, lágrimas azuis e corações de filho.
As palavras migraram para outros fazeres,
imagens silenciosas bailam sem normas.

O avassalador espelho do mar esses dias.



Posse

Dias em que somos acometidos pela cidade.

A cidade é soberana e nós,
seres involuntários na paisagem.

O mar, o sempre
sentimento do que é talássico,
báratro, abismo.
O oceano absoluto a nos envolver,
envoltório simultâneo de ruas acanhadas e eternas.

Dias em que a cidade se sobrepõe muito naturalmente à rotina
e nada somos senão seus viventes.

Dias em que palavras são apenas
a superfície das coisas,
e como tal as dispo
e sigo nua,
desmielinizada.

Os dois últimos poemas foram publicados em Uma Vaga Lembrança do Tempo.
Fotos: MVítor.



quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Minas, 1990






Vindo da Bahia,
súbito, há tempo,
de ler poesia.

No avião, leio Drummond
e viajo, entre nuvens,
com escala em Belo Horizonte.

E Minas emerge das brumas:
como um sonho,
mais que sonho;
mais que nuvens,
memória.

E o entardecer é luz.

Foto: Ouro Preto, 2008.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Brasília, 1989-1991







Entre discussões de doutores e o inatingível céu de Brasília,
busco um lugar para um poema.
Uma leve insinuação poética, talvez, apenas.

Pena.

*

Fico doente, por falta de vida.
Planejo repassar antigos escritos.
Enquanto isso, poemas novos passam por mim.
Instalada nas leituras de Psicologia, lanço sobre eles um olhar melancólico.
Tanta coisa e um só olhar...
Falta-me o ar.

*

Perco-me na difícil geometria de Brasília.

Pesa-me não poder vagar sem rumo pela cidade,
meu corpo habituado a perder-se, sempre seguro no traçado tão vivo da Bahia.
A poesia se afasta de mim e nem mesmo sei se é em definitivo.

*

Noite em Brasília.
Esses ruídos impessoais...
Um choro de criança.
O grito que escuto é pavor ou desvario?
Encontros construídos geometricamente na noite.

*


Noite em Brasília

A silhueta na noite.
Esplanada de mistérios.
Quem somos nós?
Que dizem de nós esses ângulos?
Chuva, infinito, solidão.
Nuvens e rotações, ângulos e viezes,
aéreo delírio.
E esse anjo sem face,
desfigurado barroco
em mesa de hotel.

(Publicado em A impossível transcrição – De tudo fica a poesia).

*

Há um traço comum entre Brasília e Nordeste, linha cruel costurando em um mesmo mapa esse mar de desigualdades. São essas mãos descarnadas, erguidas para o céu, em desespero.
Apenas estendidas, desesperançadas de qualquer resposta.
Apenas um apelo mudo.
Cactos, ingazeiros, árvores mirradas, igualmente despidas pela seca.
Em Brasília, essas mãos descarnadas dão-se ares, deixam-se envolver por uma névoa seca, e nos encantam quando se vestem de bruma ao amanhecer e ao cair da noite; assumem um quê de cosmopolitas.
Mas na mesma manhã em que emudeço, fascinada, contemplando essas mãos nordestinas que clamam aos céus por entre um cinza de Europa, encontro o homem e o menino.
O homem magro, camisa rente ao corpo, olhar sem viço.
O menino, olhar faminto e a cola no saco plástico.
O Brasil e seus retalhos, na mesma tessitura.

*


Partindo, concluí que amo Brasília.
Suas árvores desesperadas,
seus incríveis lugares de silêncio.

Amo Brasília,
cidade em busca,
altar de sacrifício.

A luz intensa, sempre,
e essa inatingível
esperança em concreto.



Fotos: (1) Vítor e Ana Clara no campus da UnB; (2) na Torre, 1989: Virgílio, Ana Clara, minha mãe, Vítor e eu.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Genebra, setembro, 2001 (última semana da Série Viagens)



O ritmo do congresso é um tanto anestesiante.

Na cidade, deambulamos.
Le Jet d’eau, como eu aqui, à mercê de um movimento que é externo. E, no entanto, capaz de refração. Flutuo em seu arco-íris, deleito-me com a forma em constante mutação.

*

Ainda 50 minutos esperando o trem.

Este congresso: o intercultural na política, na filosofia/antropologia, na sociologia, na ética, na literatura. Muitas impressões - o que significa um espaço como esse? Ir-e-vir; reconhecer-se; um modo francophone que me toca. A literatura, mil por um – nem importa que a Leïla Sebbar seja feminista pure dure sei lá mais o que (mais uma moda, mais um desses formatos de que tenho horror, acho ridículos. De um modo um tanto “feminista”, esse excesso de rótulos e ritos me envergonha em outras mulheres).

Tento abstrair os significados mais importantes desse estar intercultural, para além dos jargões, dos “politicamente corretos”, dos jogos do poder. Há uma compreensão que se dá, e apreendo essa coisa na dimensão psicológica, mesmo se a psicologia que se mostra aqui é aborrecida, irrelevante, chata, absolutamente ennuyante. Como se, para se considerar o inter, se empobrecesse o objeto.

Elaine faz projetos, se entusiasma com possíveis trabalhos conjuntos com os colegas do Benin e as duas irmãs argelinas. Muçulmanos, judeus e cristãos pesquisando juntos. Parece estranha essa forma de identificação, mas não posso deixar de pensar que por algum motivo estamos aqui, justo nesse momento. Logo após este 11 de setembro, ainda e sempre a fraternidade entre os homens, e não a guerra.

*

Da fala de Leïla Sebbar, escritora, crescendo entre Argélia e França:

Être dans mon livre: quand je suis dans mon livre je suis ailleurs. ...mais aussi um espace clos. Je suis la fille de mon père.....La fille de ma mère...Et la fille de moi-même, comme le sont toujours les écrivains.
Jet d'eau. Disponível em http://www.geneve-tourisme.ch/

domingo, 9 de novembro de 2008

Assis, junho, 2001



Os ciprestes se vestem de franciscanos
Ou é o contrário?

*

Plantação de girassóis.
Como um exército que se move em uníssono,
brigadas suaves,
aveludadas milícias romanas,
pachorrentamente.

*

Para mim a compulsão de fotografar tudo é substituída pela de escrever.

A Viagem à Itália, de Goethe (presente de meu pai um pouco antes de minha vinda) traz também esse registro. Incrível, isto. Inegavelmente sou presa desse estigma, dessa marca sobre a qual a realidade se instaura, atravessando linhas e rabiscos, via esse filtro, sob pena de esvanecer-se, de restar o nada.

Mas o tipo (apenas o tipo!) de relato que faz Goethe - outros o tempo e as possibilidades, evidentemente - não é, em natureza, diverso daquele que faço: os focos de atenção coincidem. A luz das cidades, sua gente, as obras de arte, o impacto pessoal sempre.

*

Estou no ônibus para Orvietto e Assis.
Que emoção ver os lugares onde viveu Francisco.
A Catedral de Orvietto é belíssima. Ouvir os hinos litúrgicos no interior dessa catedral me encheu de emoção, do sentimento do sagrado em meio ao silêncio que ocupava a imensa nave gótica.
O que impressiona sobre as catedrais não é que tenham substituído a escrita como forma de transmitir a palavra de Deus. Mas o fato de que o fazem com tanta arte e transcendência, transmitindo um sentimento como aquele, do sagrado, da totalidade. Essa reverência.

Estamos na Úmbria, saídos da região do Lazzio. Este é o “coração verde da Itália”, conta-nos a guia. Também é a “Itália mística”, pela quantidade de santos que viveram aqui (Santa Rita de Cássia, São Bento, Santa Clara, São Francisco), e pela paz, tranqüilidade, beleza do lugar; concentra ainda sítios arqueológicos e importante patrimônio artístico.

São lindas de se ver as pequenas e tantas cidades medievais no alto das colinas, sobre a pedra. Mas não queria morar lá...

A palavra UMBRAL poderia ter se originado daqui. Cidades medievais como fortalezas, antigo cinturão protetor de Roma ou mesmo da Etruria. Umbral do jardim do Lácio do qual nos coube essa última flor, inculta e bela, que nos faz como somos.

*
Querida Márcia,

Levo seu presente de aniversário de Assis, nestas duas palavras: “Paz e Bem”. Apenas duas, e são tudo que se pode desejar a alguém.

Penso em como você gostaria de vir aqui – não apenas Londres, mas certamente também a Itália! Não necessariamente como um ritual de cultura e espiritualidade a ser cumprido - embora possa ser uma espécie de peregrinação moderna, como para mim tem sido - mas porque a sua sensibilidade captaria toda essa beleza como poucos.

É tudo tão intenso e significativo que às vezes não consigo dormir à noite, tão avassaladora é aqui a experiência do Belo. É tudo muito visual e muito pertencente à cidade, ao lugar onde vivem as pessoas. Tudo humano, intenso, expressões que não se contêm, exageradas (parece que estando aqui entendemos um pouco Felini); mas sempre belo. Os italianos têm um caso de amor com a eternidade e a perfeição.

Em Assis, esse caso de amor se personifica em Francisco. Estive lá, criando um espaço de peregrinação em meio ao agitado ritmo de um tour de ônibus que em um só dia incluía também Orvietto.

Francisco é uma nudez, um abraço amoroso ao essencial, em contraste com a exuberância de sua cultura (e origem), mas imerso nela no modo intenso e radical (eternidade e perfeição) com que se move e marca sua presença de um modo que nos chega quase violentamente.

Vejo o lugar onde morreu e seu túmulo, mas, sobretudo (impressionantes!), os lugares onde viveu. É lembrando Francisco e coisas essenciais da vida, como a amizade, que desejo a você, por seu aniversário e sempre, Paz e Bem.


*

Certamente há algo em comum entre Assis, na Itália e Juazeiro do Norte, no Ceará.

O mesmo modo de enfileirar os souvenirs nas muitas lojinhas que vivem disso.

O mesmo tipo de peregrino que perambula pelas ruas – pessoas com deformidades, andando de muletas. Mesmo aqui na Europa, nada de cadeiras de roda modernas ou facilities para portadores de deficiências. Não; aqui a pobreza é um signo, cruamente exibida ao lado dos monumentos, alinhada com eles.
Claro que não são muitos os pobres - isto é, se não incluo entre eles os “pobres nossos irmãos” que fazem esse turismo a jato, vazio e fotográfico, apenas aparência. Há duas brasileiras oxigenadas no seat next me, de uma lamentável pobreza. Tenho que me esforçar para interagir com elas – tipo que dá vergonha de ser brasileiro, este sim, e não os nossos nordestinos, ou os romeiros do Juazeiro ou do Canindé (que eram franciscanos, acho) e que tanto me impressionavam ao passar, quando eu era menina, no Crato: famílias inteiras, crianças inclusive, com aquela túnica marrom dos frades, de tecido grosseiro, pesado, sob o sol inclemente.

Mas são, de todo modo, os daqui, pobres assim: instalados nessa condição, em um absoluto desamparo alguns, alguns drogados, aquele olhar ausente, etéreo e, em Assis, em busca de abrigo, cura ou redenção.

Também eu busco redenção, anyway.

Descubro que no silêncio está Deus. Era disso que falava nos meus escritos, essa busca, essa angústia do infinito, essa falta definidora.

Assis é linda, também eu fotografei cantos, portas, ruas, lugares anônimos cheios de encanto. E até um lindo cão pastor, com uma cara tão boa, que se deixou afagar e fotografar e cuja foto levo, é claro, para os meus amores felinos...

Dos demais lugares, comprei postais, mesmo porque é proibido fotografar o interior das igrejas, o que acho muito certo; fora com os vendilhões no Templo. Roma nem liga para isso, tudo já mais secularizado talvez, a começar pela própria Igreja, mais externalidade. Mas Assis lembra todo o tempo sua identidade de lugar sagrado.

O lugar onde nasceu Francisco. Onde está sepultado. E sobretudo, em Santa Maria dos Anjos, a Porciúncula, onde vivia e rezava, e todos os sinais de seu trabalho ali em torno. Sem palavras.

Francisco em sua cela.

Francisco e os animais, ternura de Deus para conosco.

Francisco e sua túnica, rude, cheia de remendos e rasgões a lã grosseira.

Il Poverello e a força de sua vida. Até hoje.


*

Curioso: o barroco e o “completamente feito”- perfeito – surgiram quando a vida era sóbria e havia escassez (o único manto de São Francisco).

Hoje, que se vive o supérfluo e tudo é excessivo (até a fome), a arte encontra a beleza na sobriedade – aquelas salas imensas que vemos em algumas exposições, uma única peça que se mostra, o minimalismo.

Também estou impressionada com a recorrência com que encontro aqui na Itália a imagem do meu sonho nas pedreiras: depois dos ciprestes em Assis, no meio da ópera que vejo em Verona, passam frades encapuzados, feito ciprestes, exatamente as longas fileiras com archotes, passando três vezes, dando a impressão de filas intermináveis no solo –também feito pedra - do cenário.

...mas quem diria que aquela garota sonhadora (mas jamais fazendo projetos concretos) viajaria em sua coleção de postais dos 12 anos de idade?
Fotos disponíveis na internet (site turístico de Assis).

sábado, 8 de novembro de 2008

Roma, junho, 2001




Escritos como fotos de viagem.

Lugar e tempo de ver à distância.

Modo de percorrer juntos lugares de sonho e memória.

Um retiro e um mergulho em profundezas, sob o véu de uma timidez aguçada, de um pouco à vontade civilizatório neste fim de tarde festivo em Roma. Antes de viajar, chego a sonhar com isso, essa aflição de saber falar e não poder, essa estranha dislalia que me acomete. Sou eu, meu corpo que não chega perto, meu silêncio. Sou sempre a que até compreende o idioma, mas não fala. O meu eu arrítmico, talvez...

São tantos e tão profundos os sentimentos a partir de Roma que nem sei como começar. Essa cidade é excessiva, não se contém. Por isso seus habitantes se expressam tanto, falam, se expõem, sem precisar guardar nenhum segredo sobre si próprios – se já guardam algo muito maior, como relíquia, como História, como destino. Algo impossível de tangenciar, tocar, cotidianamente.

Queria dividir isso com os meus queridos. Penso neles ao longo da cidade. Roma e seus tons de bege, sol e luz. Todos esses monumentos únicos, mesmo os anônimos. Como respirar entre uma beleza e outra?

É tudo suntuoso, mas de uma coerência e bom gosto que aqui parecem mais aguçados do que, por exemplo, no Louvre e no National Gallery (onde há mais misturas e “coleção”). Aqui é o “site”original de quase todas as obras mais importantes, como as de Rafael, Fra Angélico, Bernini, Michelangelo e tantos outros, que as criaram para Roma, caput mundi em vários momentos da História. E os anônimos, que são como presentes de gratuidade.

Também hoje, caput mundi, espiritualmente falando. Como diz Scola em seu livro, a história desta Roma que conhecemos é inseparável da história do cristianismo. É por causa dele que ela é Roma, cosmopolita, universal, católica.

Escadas, salas de infinita beleza, o chiaroescuro (fantástico!), mesmo a arte moderna (fiquei maravilhada com algumas representações modernas da Pietà e da Anunciação, fiz uma ou outra foto); tudo isso, contudo, não diminui o impacto de entrar na Capela Sixtina, que é um deslumbre, mesmo entulhada de gente barulhenta (os guardas não paravam de pedir silêncio; que privilégio a visita que fizemos em pequeno grupo há dois anos atrás!). Há alguma coisa com as cores, de fato. Sem entender nada de pintura, sinto uma euforia induzida pela contemplação do teto. Distingo alguns estilos e seus efeitos. Olho longamente tudo, sem pressa, sem juízo – e sem juízo, como devaneio ou delírio... Crio, na multidão, um espaço de silêncio e me maravilho com toda aquela beleza inspirada pela relação do homem com o mistério de sua criação e de seu destino.

Queria poder escrever tudo, cada detalhe que me impressionou. Mas era impossível qualquer movimento que não a fruição do belo, a reverência diante do mais que humano.

Não é o “poder da Igreja” em dado momento da História, mas sua força enquanto expressão de um acontecimento mais forte que tudo, “atravessando os séculos”, como diz o canto, criando uma aliança que é nossa – o homem contemporâneo e o mesmo sujeito humano de sempre - com um terceiro, uma alteridade – um sinal talvez? Algo que é a nossa identidade. E também se liga, nessa aliança, o sentimento do criador da obra de arte ao daquele que por ela se sente tocado. Uma marca, em ambos, assinalando quem somos nós, a que somos chamados. O mesmo sentimento, outros os símbolos.

Os detalhes no teto de Michelângelo: o infinito amor de Deus, sua postura, seu olhar, imagem de pura bondade contrastando com o terrível Juízo Final. Há um corpo como frangalhos, que um anjo ou profeta vingador segura com desprezo e que me dá calafrios. A total entrega e confiança e inocência do homem, como não podia deixar de ser, alvo desse amor maior que tudo.

No Novo Testamento há algo assim: “quem é o homem, Senhor, para que dele cuides com tanta bondade?” É disso que me lembro aqui e agora.
Fotos de MVítor, Roma, 2007.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Londres, 1999, 2007






A Eloneida e Nizam, por seu carinho.


Fevereiro, 1999

O que quero ver? The market place where Desmond had a barrow and Molly was a singer... Ou então:... go looking for flying saucers in the sky... Nosso anfitrião, tão gentil, me olha com total estranheza diante de semelhante non sense.

Mas amei Londres, a ponto de não ter tido tempo para escrever.

O cosmopolita, o universal, os tantos mundos se expressando naquelas ruas aparentemente iguais. O intenso movimento, mas não há ninguém. Ninguém olha para nós, e se olhamos as pessoas parecem se ofender.

A evocação de London, London é inevitável para alguém de minha geração:

I'm wandering round and round, nowhere to go
I'm lonely in London, London is lovely so
I cross the streets without fear
Everybody keeps the way clear
I know I know no one here to say hello ...
I know they keep the way clear
I am lonely in London without fear
I'm wandering round and round, nowhere to go
While my eyes go looking for flying saucers in the sky (Caetano Veloso)


Julho, 2007

Em meio ao turismo e seus tentáculos e através da deslumbrante e fossilizada beleza do velho mundo, que parecem, ambos, nos subtrair o real da experiência em si mesma, o que mais valeu foram os encontros com as pessoas em seu cotidiano - aquilo que não foi fotografado mas permanece.

Quase dez anos após a primeira tão sossegada ida a Londres, enfrentamos esse tempo de obsessiva vigilância. Até cogitei do título de um post: “brincos, rinossoro e terrorismo”. Sobre o controle no aeroporto de Londres, ritual desesperado, entre o trágico e o risível - escrevi aqui no Casulo. A seriedade dos agentes manuseando um vidro de soro fisiológico ou uma bolsinha com brincos e nos dizendo: I'm looking for explosives.

Já não lembro, são reais, aqueles gestos de tão relativa resolutividade? Pobre ser humano, perdido entre rituais inúteis, que apenas persistem e nada asseguram.

Postei, aqui mesmo no Casulo, ao retornar, a seguinte nota sobre o metrô:

Subways (notas extemporâneas)

Os metrôs são os intestinos das cidades neste lado do mundo que é outro.

Vísceras que reconectam pessoas, fornecendo espaços transitórios pelos quais realizem o retorno ao mundo privado, afastando de cada rosto os traços que o tornam anônimo.

A imensa solidão humana das multidões na cosmopolita Londres, em dia de ameaça terrorista.

Este mundo, que se apresenta como espelho da civilização, é oco.

É hora do rush e a multidão prossegue, seguindo impotente, quase autômata, imenso mecanismo, hidra de mil cabeças, seguindo.Este é o rosto da solidão e da mais total incomunicabilidade.
Viajamos em família, os quatro juntos, e é tão bom isso, e criamos células de alegria ali dentro, como se fossem, naquele momento, modos de estar como que clandestinos, subterrâneos. Subways. Modos de estar felizes no deserto.

Fotos de MVítor, Londres, 2007: (1) Tensions. (2) There she goes. Covent Garden (3) Lonely in London. (4) City Hall.

London London: ver em http://br.youtube.com/watch?v=SFt6J8-ZM1A&feature=related

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Paris, fevereiro, 1999













Por um dia inteiro, resto muda pela emoção de estar em Paris. Todo o tempo à flor da pele, completamente sensibilizada por tudo. No segundo dia, recupero a voz diante do menininho no metrô cantando Mon Ami Pierrot.

Há um gato numa janela no Quartier Latin. Aliás, em todas as cidades encontro gatos, que até vêm ao meu encontro, “falam” comigo e se deixam afagar.

C'est la plus belle ville du monde. E bela de um jeito só seu.

Nosso hotel parece ter sido sempre o mesmo por muitos anos. Nosso quarto tem móveis dos anos 50, 60. O hotel tem sido dirigido e cuidado pelas mesmas pessoas, os pais já idosos, e mais a filha. Monsieur fica nosso amigo. Uma tarde, Madame pintava as cadeiras com verniz. Tudo se restaura, nenhuma aflição do imediato e descartável.

Contra tudo que me diziam dos parisienses, as pessoas são especialmente gentis comigo em Paris - vous, qui parlez d'une voix si douce.... Tocadas por minha emoção amorosa em relação à cidade, possivelmente. No hotel, sem que peçamos, nos emprestam um guarda-chuva (chove muito, faz zero grau).

Gosto das ruas de St. Germain-des-Prés e Montparnasse, suas livrarias, cafés e cinemas.

Deposito flores nos túmulos de Simone de Beauvoir e Sartre, de Marguerite Duras. Sim, Paris é para mim existencialista e vagamente revolucionária.

As maravilhosas e tantas livrarias, e temos que nos conter. Os nomes são lindos: L'écume des pages, Le temps retrouvé. Passaria semanas ali, interessada por tudo - até mesmo por psicologia (sempre a última escolha na minha hierarquia de interesses - cada vez mais me acontece de encontrar material significativo sobre o fenômeno psicológico em outros campos que não o próprio...). Compro alguma literatura. Em Paris há sempre alguém lendo: no metrô, nos jardins, cafés, rua.

Tudo é talvez como nas outras cidades: ruas, monumentos, estátuas, vitrines, luzes, jardins. Mas o charme é único de Paris.

O metrô, porém, me angustia: por vezes sujo e sombrio, por vezes ameaçador. A pobreza: músicos nos vagões, mendigos, um deles com um cartaz: J'ai faim.

É bom andar pelas ruas e constatar as marcas da História: Égalité, Liberté, Fraternité. Le tombeau au soldat inconnu. Na Rue de la Huchette, a placa marcando o lugar onde um herói da Resistência foi morto em missão, pela Gestapo, em 1944. Os lugares que encontramos sem esperar: a Sainte Chapelle e seus vitrais, concertos, o Museu Rodin, seus jardins. E Camille Claudel - como dói.

Fotos de MVítor, 2007.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Outonos (mas a História é, sim, necessária!)




Alemanha, 2001



Não, não são flores. Esse multicor que me encanta é o outono que chega. Encontrei enfim a minha estação favorita, é esta, sem dúvida. Sensação de plenitude e madurez, talvez por coincidir com o outono que se aproxima em mim.

Sobretudo é bela esta paisagem: tudo tão cuidado e verde e claro - ainda claro, me dizem, pois, quando chega o inverno, a luz será escassa e todos sentirão sua falta. A falta de luz chegará a doer (daí o moderno estilo em vidro da Universidade de Genebra).

Montes e vales, essas incríveis nuances de amarelescência, o vermelho aqui e ali. A casa recoberta de folhas vermelhas em Konstanz. As folhas no chão, suavizando cada passo, nos fazendo um pouco árvores. Onde começa a copa, onde começam as raízes, onde o solo, onde eu?
Ao entardecer, estamos no entre-deux: folhagem e copas, viramos hera e liame, nos vegetalizamos, sombra e claridade, ouro em pó no ar.

Sim, eu faria a poesia do outono, denso, profundo, se desfazendo em silêncio. Morte, fecundidade, renascimento. E as flores ainda presentes. Tudo morre, tudo renasce, prelibando o recolhimento que aqui marca a brancura do inverno.

Esse entardecer me acalma profundamente.

Tudo está em paz e em correspondência com a ordem da Criação.

Nova Inglaterra, 2005

As inacreditáveis cores do outono, mais e mais, infinitamente. Mil nuances levam dos verdes aos amarelos, laranjas, vermelhos. Como por sutis caprichos, as árvores trocam de roupa, indolentemente, rapidamente, numa profusão de cores e estilos de matar de inveja o mais imaginativo designer de moda. Deixam cair suas folhas, que o vento leva, dançantes, enquanto nós restamos, na vã ilusão de reter sua efêmera, mas absoluta, beleza.

Em um segundo paramos, extasiados. Mas já se vai, com o vento, como se por puro capricho da natureza. Que, sábia, nada procura reter, se tudo nascerá novamente. Mas eu me entristeço, incapaz de lembrar – ou de esquecer? -, de apreciar os ciclos da vida, presa nas armadilhas de tudo que é reter, possuir.

Hoje não há chuva nem ventos fortes. As folhas caem indolentemente, suavemente, irreversivelmente, tendo alcançado seu ponto de cair. Nada mais. Silenciosa, fascinante dança. Estou estranhamente em paz, aceitando esse irreversível movimento daquilo que se vai.

O sol se põe e mal posso crer no espetáculo final de seu reflexo sobre as multicores, como se iluminando tudo, levando a um paroxismo o brilho dourado. Folhagens, lagos, horizonte. Às vezes apenas os cimos das árvores iluminados. Chego a buscar com os olhos de onde vem a eletricidade, mas é o sol, seu último brilho do dia, quase pachorrentamente, mas sem qualquer parcimônia.

Árvores que retêm sua claridade por um átimo de tempo. E então, mais nada. Efêmero.

Nenhuma história é necessária.


Fotos de MVítor em Worcester, MA, novembro, 2005.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Espanha, 1999, 2006






Madrid, fevereiro, 1999


É claro para nós o quanto é pobre organizar o mundo, o pensamento, nos pólos ocidental/não ocidental, sendo tão múltiplo o ocidental em si mesmo. Quanto de não cartesiano, de pouco racional vemos em todo lugar! Todas essas matrizes culturais preservadas e em luta, esta orgulhosa luta por autonomia, tudo isso foge a qualquer compreensão superficial. Essa impressão é particularmente nítida na Espanha, mesmo nesta tão rápida passagem por aqui.


Olho os homeless: desabrigados no frio, dormindo pelas calçadas da mais importante rua de Madrid. Latinos como nós, que de repente estamos remetidos a esse pertencimento tão claro. Jovens de qualquer lugar pedindo dinheiro, jovens nas cercanias do metrô e seus olhares perdidos, alucinados. Lejos, cercano... o castelhano soa duro em Madrid, as pessoas são duras, que fizeram de sua música, de sua língua tão bela? Sinto-me nostálgica de uma Espanha que nunca vi. Lorca não estava em Madrid.


O tempo é muito pouco, fazemos uma excursão, no segundo dia. Tantos lugares impressionantes. A Madrid dos Bourbon. El Escorial: Panteão, Basílica. Valle de los Caídos, onde não vou junto ao túmulo de Franco. Toledo: reino de Castela. Almoço no Monterey, onde chega de repente para cantar, linda, a Tuna Universitária. Toledo é um esplendor, cidade medieval e cidade imperial. Vemos a Catedral - absolutamente monumental, riquíssima -, a Sinagoga da Virgem Branca, a Basílica dos Franciscanos (San Juan de los Reyes), a Fábrica de artesanato damasquino.


(Na primeira foto, detalhe da Catedral de Toledo - disponível em http://www.moleiro.com/).


Caminho para Santiago de Compostela, junho, 2006.

A primeira parada é a catedral de Pontevedra, Basílica de Santa Maria Mayor, onde peço à Mãe que cuide do meu coração. Ando pelas ruas de Espanha e seus lugares tão longínquos no tempo, esquecidos na história, e ainda assim preservados.

Velho Mundo – não impactante nem impaciente quanto New York. A missa a que assistimos em Pontevedra é uma missa de corpo presente. Uma mãe (como a minha). Muitos filhos e netos. A emoção contida do viúvo, que cambaleia ao entrar. O filho de meia-idade (como eu) que lhe dá o braço. Contido e amoroso.

Também o meu coração está contido e as palavras, secretas. Imagens e pedidos. Para que Deus nos proteja. Mas estou a caminho de Santiago de Compostela e peço ao Senhor forças. A Mãe me compreende, de algum modo este é um caminho para/por ela.

Não rezo o bastante, não peço o bastante. Sou arrogante e me deixo obcecar por detalhes, por minha própria medida. É incrível que a primeira “parada” nessa peregrinação – inesperada, não planejada e aparentemente fruto do acaso - seja por meio desta Palavra:

Caminho, Verdade e Vida.

*

Caminho de trem para Santiago.

Peço a Deus luz e força, no dia do aniversário de meu pai. O Salmo não poderia ser mais apropriado:

Felizes os que encontram em Vós sua força,
E em seus corações resolvem seguir-Vos.
Assim é o meu pai, porto seguro em nossas vidas, sem estranhar que fiquemos por vezes à deriva, à mercê de imprevisíveis marés.

*

Espanha – e também Portugal – têm essa mistura de profunda alma, tanta religiosidade, e ao mesmo tempo esse “tudo é possível” de fragmentos de modernidade. O garoto de programa que encontramos em Vigo. Uma jovem com a mão machucada, que nos pede dinheiro no bar, à noite. Uma outra pobreza... Há em Vigo uma casa de Refúgio para Mulheres, com os dizeres: “Não basta perdoar, tens que pedir perdão”.

Aqui é Galícia e o sol é inclemente. A língua portuguesa está em toda parte.

*
O mar de Vigo é de um belíssimo, quase metálico azul. Profundo, quieto. É uma baía, muito linda. Grandes pássaros: gaivotas? Talvez albatrozes.

Os trens são novíssimos e rápidos. O retorno para Braga será ele mesmo uma peregrinação (três conexões).

Há uma linda ponte em Vigo, recortando a baía, no encontro entre rio e mar. Suspensa como eu... suspensa por cabos de aço, enquanto eu, por nervo e sentimento.

*

Catedral de Santiago de Compostela

Missa do Peregrino. 12 h.

Todos os dias às 12 horas a missa é celebrada na nave principal dessa impressionante Catedral.
Tenho a sorte de chegar a tempo justo para este momento, nessa visita tão rápida, de apenas quatro horas. A Catedral está lotada de gente, nem encontro lugar para sentar. Fico tocada pela expressão e pelo olhar das pessoas que caminharam a pé até aqui. Têm uma luz diferente.
Rezo e peço para todos que amo, e para mim também, fé e esperança. O resto virá por acréscimo.

Atrás da estátua de São Tiago, apóstolo de Jesus, os degraus de pedra trazem as marcas dos pés dos peregrinos que, desde o século XII, vêm de todo lugar apresentar ao Senhor a sua humanidade.

O Evangelho fala do vinhateiro e do Senhor que lhes manda o próprio Filho e Sua compaixão. O padre fala que a fé é um dom de Deus e um grande presente. Perdê-la é uma desgraça. Nossa base, porém, é frágil; sozinhos, não conseguimos.

Ele menciona os tantos peregrinos, especialmente os que vieram a pé, em grupo ou sozinhos, vindos de diversos pontos de partida na Europa (França, Espanha...) e de todos os continentes (inclusive – ele enumera – dois do Brasil, um de Singapura, dois dos Estados Unidos; e de toda a Europa, inclusive Tchecoslováquia).

Estar aqui – ele diz – é uma experiência de catolicismo. De unidade de toda esta tão diversa gente, todos nós: crentes mas pecadores, buscando a Eucaristia como único meio de sustentar nossa fé. Fico sabendo que São Tiago foi o primeiro apóstolo mártir, por isso simboliza a coragem – o arrojo de professar a fé (em espanhol, as palavras parecem mais dramáticas). Sua resposta, quando martirizado, era uma única: “sou cristão”.

Isso nos deseja a todos o padre, especialmente aos que fizeram o caminho a pé - para muitos, de iluminação e conversão. “Vamos com decisão e valentia ao encontro do Pai, para professar a fé”.
A oração dos fiéis inclui preces rezadas em italiano, em alemão, em japonês, em tcheco, além do espanhol.

Respondemos: Señor, escucha y tiene piedad.
*

Santiago de Compostela (Campo de Estrela) me comove.

Mais uma vez sou tomada pela sensação de que nada do que se passa aqui comigo é por acaso. Como encontrar justo essas linhas, que sempre me marcaram:
Arrancai o nosso coração de pedra,
E dai-nos um coração de carne.

Toda essa humanidade ferida que aqui vem, tão diversa, é sinal de esperança.

Em busca, como minhas companheiras de viagem - que não reencontrei mais, acho que precisava mesmo estar sozinha nesta inesperada, intensa e curta peregrinação - e eu mesma.

Jovens, pessoas de meia idade, idosos. Peregrinos que caminharam durante dias, via de silêncio e introspecção. Tantos outros, como nós, que fizeram seus próprios percursos.

Nossos tantos Caminhos de Santiago, mesmo quando nem sabemos que, apesar de tudo, seguimos.



(A segunda foto é de uma das entradas da Catedral.)




segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Lisboa, fevereiro, 1999



Um anônimo põe uma rosa vermelha sobre o túmulo de Camões no Mosteiro dos Jerônimos (não para Vasco da Gama, o descobridor). O sonho fala mais alto e mais longe que a conquista...
Lisboa, como Salvador, tem cantos e encantos. Uma cidade fascinante, cheia de surpresas. Palmilhamos indícios, buscando pegadas de nossas matrizes.



Talvez os países europeus possuam alta auto-estima. Nós, colônia, ao contrário, somos sempre pouco referidos a nós mesmos, voltados à apreciação de olhares externos. Como se nós mesmos não fôssemos razão suficiente para cuidarmos de nossas cidades e de nossas vidas... Que matriz perversa, impregnando o subjetivo de cada um!





A última flor do Lácio. Meu ouvido (colonizado, talvez) se encanta com o português falado em Lisboa. Não só por sua música: sobretudo o poético da estrutura da frase, sua correção e o que ressoa em mim quase clássico, castiço.


E quando se canta o fado, canta-se "para dentro", quase um canto em silêncio, abafado no peito. Convidado, o público cantarola em surdina. Tudo é, porém, intensa emoção.

*

Museu da Marinha: na memória dos navegantes, nenhum registro da descoberta do Brasil. Quem somos nós para eles? Uma descoberta que não é a das Índias, não é a de Vasco da Gama. Parece que o Brasil não é motivo de orgulho do descobridor. Clandestino e onipresente, o amor por nossas novelas, sensualidade, axé.

*

No taxi, escutamos no rádio que, a esta altura do milênio, ocupados pelo técnico, os homens não conseguiram resolver ou atender às suas necessidades de afeto, calor humano, relacionamento, etc. Soa estranha essa constatação no velho mundo. O que de lá há muito estava guardado (humanismo), marca de civilização às vésperas do novo milênio. Mais importante que os monumentos dos poderosos.

*

Portugal: tão "piccolino", ouço dizer uma turista italiana. "Piccolino" e arrogante. Antigo e suave. Nada é abandonado, tudo é reconstruído. Cinzel do que se é, novos modos se integrando, justapostos, como se tudo o mais permanecesse intacto. Olhos felinos de quem há um milênio vê as modas aparecerem e sumirem, sendo que apenas restam os monumentos (agora começo a compreendê-los) e seu fascínio.

E não dá para rotular Portugal (como os outros tão singulares e diversos países). Seriam "portuguesas com certeza" as estórias de Inês de Castro, a rainha morta? Do pobre D. Alfonso, louco, isolado e encarcerado até a morte no mais alto das escadas do Castelo de Sintra? As rainhas loucas, Carlota Joaquina e sua cadeira de criança, de rainha aos dez anos. Isso fica, delineando lendas e registros de existências pessoais possíveis através da história.
Foto do túmulo de Camões no Mosteiro dos Jerônimos. Disponível em http://www.reflexosonline.com/reflexos.php?num_foto=101421.

domingo, 2 de novembro de 2008

New York, novembro, 2005 (três anos depois, numa torcida de antevéspera por Barack Obama, esta esperança)





Para Virgílio, Ana Clara, Vítor e Luciana, companheiros de viagem.

Esta terrivelmente bela cidade me faz chorar, a mim que não posso descrevê-la tão precisamente quanto o faz Jean Baudrillard: a cidade da prostituição total e da total eletricidade, que em relativamente pouco tempo alcançou essa qualidade histórica de cidade síntese, expressão do humano em sua época. E assim herdeira de Atenas, Alexandria, Persépolis. Por minha conta, acrescento: herdeira de Roma.

Ando pelas ruas de New York, transida de frio e de beleza ante seu inacreditável mosaico de vestígios humanos. Inutilmente procuro um símbolo para a cidade. Impossível defini-la.
Ainda assim penso na escultura em Wall Street. Um touro raivoso e a beleza rompendo a pedra, como se involuntária. A arquitetura da cidade era para ser uma demonstração de riqueza e poderio. O que emerge é essa estranha, absoluta beleza, nascendo de tantos contrastes.

Esta cidade me faz chorar. Sua forte personalidade, sem rosto algum. Mil faces e nenhuma face. A solidão abaixo de zero me corta o coração. A pobreza é aqui um acinte de extrema violência. Pessoas catando o lixo. Homem semi-descalço, passos dolorosos. Ao cruzar com ele, escuto um gemido que diz tudo. Homens mal vestidos no subway, reconheço seu olhar e suas mãos de trabalhadores rurais. Quase dizia: discrepantes no subway, mas não são, pertencem sim, a esta cidade, mesmo quando falam espanhol. “Pertencem”, em suas formas singulares de pertencimento. Atração e repulsão permanentes. Esta é a cidade medusa, sem rosto, tentáculos mil movendo-se por si mesmos. Todas as identidades e nenhuma identidade, exceto talvez a dos negros que se movimentam livres, em carne e osso, desafiadores, donos dos espaços.

Muitas pessoas têm frio e fome na cidade de maior poder financeiro do mundo. Muitas crianças nascidas aqui vivem miseravelmente nesta que é o mais poderoso centro financeiro do mundo.

Esta cidade me fascina e me apavora, em seus múltiplos fragmentos impessoais, incessantemente inventando solidão. Eu poderia viver aqui para sempre, fascinada, e poderia, horrorizada, fugir correndo, sem jamais olhar para trás.

Neste lugar onde tudo é possível, muitos artistas podem viver, instalados nesse fac-símile imediato, ilusório, de totalidade. Criando na areia como se fosse pedra, como nos é possível. Penso nos versos de Borges: Nada se edifica sobre la piedra, todo sobre la arena/Pero nuestro deber es edificar como se fuera piedra la arena…

Tenho amigos que poderiam viver aqui.

Esta cidade me faz sofrer, meus passos nas ruas, nenhum eco.

A cidade que se inventa sem parar e nunca pode dormir. A cidade que inventa sem parar o próprio esquecimento, supremo oblivion. Onde tudo é possível (só o eu, impossível – tenho que parafrasear Drummond).

Esta cidade me faz sofrer porque não posso compreendê-la, a um só tempo majestosa e infantil, grandiosa, magnífica e primitiva. Não posso compreender essa imensa via crucis, esses passos dolorosos pelas ruas. Há uma súbita, profunda, nostalgia do sagrado.

Muda de espanto, estou à noite no alto do Empire State, sobre o imenso tapete luminoso, dourado, quase um altar. Tudo o que o homem construiu, o ápice de tudo por que luta, às custas de uma irreversível solidão, ao preço de um vertiginoso make up de alegria.

Estamos aqui do alto do Empire State contemplando a cidade, reverenciando seu esplendor. Somos muitos, de todas as raças, lugares e credos. As imensas e ágeis filas dessa Babilônia. Um funcionário nos promete diversão e então fico sabendo que é por isso que viemos até ali: you’ll have a lot of fun, I promise you. The only bad part is to pass the security system. Digo a ele: it’s not so bad, pois ele é tão gentil. Aliás, em geral todos são gentis conosco. Nós, os turistas, somos ali os inocentes do Leblon, de quem Drummond falava – aqueles que passam óleo sobre o corpo e esquecem. Somos inocentes perversos atordoados pelo feérico espetáculo e também queremos esquecer.

Queremos a festa das luzes, como os músicos do Buena Vista Social Club caminhando no Times Square. Igualmente deslumbrados estamos nós, boquiabertos diante das luzes, diante desse fluir quase real dos luminosos da Broadway que nos encantam e nada nos dizem. A fotografia e o cinema captam o fragmento, mas não esse vertiginoso fluxo, que só é possível sentir estando aqui, fascinados.

Nessa cidade monumental, os edifícios dominam. Um edifício sem janelas pretende facilitar a comunicação, evitando que os funcionários, que trabalham com telefonia, se distraiam.

Igrejas espremidas entre prédios altos e sufocadas por essas outras tantas catedrais. Catedrais do nada? Catedrais do desespero, talvez, erguendo-se muito alto, para o nada. Para o Ground Zero.

Ground Zero. O único lugar onde faz silêncio em New York. Chocante, no 11 de setembro e agora.

Andamos no MoMa e no Guggenheim, pensando: é a perfeição. Mas as pessoas fazem um alarido de vozes e passos e penso que a contemplação da beleza se tornou insuportável para o homem contemporâneo, do qual essa cidade é uma síntese. E, no entanto, esses museus são perfeitos. Belíssimos. Em nenhum outro lugar como em New York a arte contemporânea poderia encontrar seu nicho e sua perfeita, precisa expressão. O efeito final é estranho, flagrantemente belo. Novamente quero chorar, um sentimento de indefinível e inesperada compaixão.

Tudo contrastante, tanta personalidade nessa medusa em concreto armado e luz. Tanta solidão. Em nenhum lugar será tão fácil igualar verdade e ilusão.

A vista do Empire State é bela, fascinante e ao mesmo tempo me entristece, diante desta cidade que é a máxima expressão da humanidade hoje, depositária de nossos maiores sonhos e de nossos mais profundos medos. É tudo isso, mas... isso é tudo?

Cidade-síntese. Seria isto possível em pleno século XXI?

New York, New York.
Sem dúvida é para você que Simon e Garfunkel, em The only living boy in New York, cantam: “half of the time you’ve gone and you don’t know where, you don’t know where”.



sábado, 1 de novembro de 2008

De quando eu tinha uma coleção de cartões postais, e do desejo de não viajar.


Uma bronquite me prende em casa por alguns dias. Com isso, abre-se uma clareira em minha agenda e visito amiúde esse mundo dos blogs, convencida de que é um mundo de aventuras; cada vez mais me dou conta de que nele acontecem coisas extraordinárias. Viagens. Entre o primeiro fato e essa constatação, ocorre-me postar, no meu espaço virtual, escritos de viagens reais que andei fazendo, o que é algo surpreendente para mim, ainda agora.

Quando criança, morava em Crato, no interior do Ceará, e lia muito, sobretudo aventuras de grandes viajantes por terras exóticas. Mas, quando descobri que Winnetou, o herói índio cujas façanhas me fascinavam, não existiu de verdade e, mais ainda - caso houvesse existido, não poderia estar mais vivo então, e muito menos quando eu crescesse, fiquei muito decepcionada. A História, toda ela, era minha contemporânea - de verdade, em minha fantasia infantil, e não como uma figura de linguagem.
Também queria correr mundo e ser pirata, fazer guerras românticas em que, claro, não havia sangue. Algumas vezes, criança pequena, fugi de casa com meu irmão Beto, pequenas fugas apenas imensas em nossa memória - o Poeta Bruno Tolentino dizia que isso era devido à minha alma corsária. E lembro da frustração que senti quando compreendi que, mesmo em sendo as terras coexistentes, de certa forma, no mapa de cada época, os fatos e os séculos tinham sua própria cronologia e os mundos deixavam de existir.

Já adolescente, ganhei de presente, de um amigo de meus pais, italiano, uma coleção de cartões postais. Àquela altura, porém, não chegava sequer a pensar em viajar pelo mundo, é como se as decepções da infância tivessem anulado para sempre esse interesse. Quando tinha 15 anos, tive a possibilidade de uma bolsa de estudos para a França e recusei de imediato, até porque era muito tímida para viver por um ano longe de minha família.

Depois, as viagens que fiz - não muitas, mas significativas - foram sempre ocasião para escrever, talvez por representarem um corte em relação ao cotidiano tão denso de trabalho que vivemos na universidade, o qual, por vezes, me faz sentir encapsulada, desterrada das palavras que desejo percorrer.


Assim é que, entre uma bronquite e essas imagens, senti o desejo de começar esta série de posts, "Viagens".

Começou ontem, mas só hoje me dei conta de que seria mesmo uma série, pois "achei" uma quantidade de escritos maior do que de fato me recordava. Seguirei ao sabor das cidades, sem levar em conta a seqüência em que as viagens aconteceram. Peço a paciência dos leitores se por vezes me estender um pouco demais.


O post de hoje, como antítese, fala justamente do desejo de não viajar...



Não desejo ir à Europa.
Basta-me esta gravura da Tour Eiffel na parede,
que alguém me trouxe de presente.

Não quero outras cidades e paragens.

Na verdade, quero só silêncio, em qualquer idade.
Tempo.
Um pouco de sol, de ver o mar,
de poder estar à toa,
sem pressa.

Remexer velhos papéis,
alguma música,
algum cinema.
Arrumar a bagagem e a matalotagem
de uma viagem secreta.
Paz, interiores, sombras.

Mar da Bahia. Foto de MVítor.