domingo, 9 de novembro de 2008

Assis, junho, 2001



Os ciprestes se vestem de franciscanos
Ou é o contrário?

*

Plantação de girassóis.
Como um exército que se move em uníssono,
brigadas suaves,
aveludadas milícias romanas,
pachorrentamente.

*

Para mim a compulsão de fotografar tudo é substituída pela de escrever.

A Viagem à Itália, de Goethe (presente de meu pai um pouco antes de minha vinda) traz também esse registro. Incrível, isto. Inegavelmente sou presa desse estigma, dessa marca sobre a qual a realidade se instaura, atravessando linhas e rabiscos, via esse filtro, sob pena de esvanecer-se, de restar o nada.

Mas o tipo (apenas o tipo!) de relato que faz Goethe - outros o tempo e as possibilidades, evidentemente - não é, em natureza, diverso daquele que faço: os focos de atenção coincidem. A luz das cidades, sua gente, as obras de arte, o impacto pessoal sempre.

*

Estou no ônibus para Orvietto e Assis.
Que emoção ver os lugares onde viveu Francisco.
A Catedral de Orvietto é belíssima. Ouvir os hinos litúrgicos no interior dessa catedral me encheu de emoção, do sentimento do sagrado em meio ao silêncio que ocupava a imensa nave gótica.
O que impressiona sobre as catedrais não é que tenham substituído a escrita como forma de transmitir a palavra de Deus. Mas o fato de que o fazem com tanta arte e transcendência, transmitindo um sentimento como aquele, do sagrado, da totalidade. Essa reverência.

Estamos na Úmbria, saídos da região do Lazzio. Este é o “coração verde da Itália”, conta-nos a guia. Também é a “Itália mística”, pela quantidade de santos que viveram aqui (Santa Rita de Cássia, São Bento, Santa Clara, São Francisco), e pela paz, tranqüilidade, beleza do lugar; concentra ainda sítios arqueológicos e importante patrimônio artístico.

São lindas de se ver as pequenas e tantas cidades medievais no alto das colinas, sobre a pedra. Mas não queria morar lá...

A palavra UMBRAL poderia ter se originado daqui. Cidades medievais como fortalezas, antigo cinturão protetor de Roma ou mesmo da Etruria. Umbral do jardim do Lácio do qual nos coube essa última flor, inculta e bela, que nos faz como somos.

*
Querida Márcia,

Levo seu presente de aniversário de Assis, nestas duas palavras: “Paz e Bem”. Apenas duas, e são tudo que se pode desejar a alguém.

Penso em como você gostaria de vir aqui – não apenas Londres, mas certamente também a Itália! Não necessariamente como um ritual de cultura e espiritualidade a ser cumprido - embora possa ser uma espécie de peregrinação moderna, como para mim tem sido - mas porque a sua sensibilidade captaria toda essa beleza como poucos.

É tudo tão intenso e significativo que às vezes não consigo dormir à noite, tão avassaladora é aqui a experiência do Belo. É tudo muito visual e muito pertencente à cidade, ao lugar onde vivem as pessoas. Tudo humano, intenso, expressões que não se contêm, exageradas (parece que estando aqui entendemos um pouco Felini); mas sempre belo. Os italianos têm um caso de amor com a eternidade e a perfeição.

Em Assis, esse caso de amor se personifica em Francisco. Estive lá, criando um espaço de peregrinação em meio ao agitado ritmo de um tour de ônibus que em um só dia incluía também Orvietto.

Francisco é uma nudez, um abraço amoroso ao essencial, em contraste com a exuberância de sua cultura (e origem), mas imerso nela no modo intenso e radical (eternidade e perfeição) com que se move e marca sua presença de um modo que nos chega quase violentamente.

Vejo o lugar onde morreu e seu túmulo, mas, sobretudo (impressionantes!), os lugares onde viveu. É lembrando Francisco e coisas essenciais da vida, como a amizade, que desejo a você, por seu aniversário e sempre, Paz e Bem.


*

Certamente há algo em comum entre Assis, na Itália e Juazeiro do Norte, no Ceará.

O mesmo modo de enfileirar os souvenirs nas muitas lojinhas que vivem disso.

O mesmo tipo de peregrino que perambula pelas ruas – pessoas com deformidades, andando de muletas. Mesmo aqui na Europa, nada de cadeiras de roda modernas ou facilities para portadores de deficiências. Não; aqui a pobreza é um signo, cruamente exibida ao lado dos monumentos, alinhada com eles.
Claro que não são muitos os pobres - isto é, se não incluo entre eles os “pobres nossos irmãos” que fazem esse turismo a jato, vazio e fotográfico, apenas aparência. Há duas brasileiras oxigenadas no seat next me, de uma lamentável pobreza. Tenho que me esforçar para interagir com elas – tipo que dá vergonha de ser brasileiro, este sim, e não os nossos nordestinos, ou os romeiros do Juazeiro ou do Canindé (que eram franciscanos, acho) e que tanto me impressionavam ao passar, quando eu era menina, no Crato: famílias inteiras, crianças inclusive, com aquela túnica marrom dos frades, de tecido grosseiro, pesado, sob o sol inclemente.

Mas são, de todo modo, os daqui, pobres assim: instalados nessa condição, em um absoluto desamparo alguns, alguns drogados, aquele olhar ausente, etéreo e, em Assis, em busca de abrigo, cura ou redenção.

Também eu busco redenção, anyway.

Descubro que no silêncio está Deus. Era disso que falava nos meus escritos, essa busca, essa angústia do infinito, essa falta definidora.

Assis é linda, também eu fotografei cantos, portas, ruas, lugares anônimos cheios de encanto. E até um lindo cão pastor, com uma cara tão boa, que se deixou afagar e fotografar e cuja foto levo, é claro, para os meus amores felinos...

Dos demais lugares, comprei postais, mesmo porque é proibido fotografar o interior das igrejas, o que acho muito certo; fora com os vendilhões no Templo. Roma nem liga para isso, tudo já mais secularizado talvez, a começar pela própria Igreja, mais externalidade. Mas Assis lembra todo o tempo sua identidade de lugar sagrado.

O lugar onde nasceu Francisco. Onde está sepultado. E sobretudo, em Santa Maria dos Anjos, a Porciúncula, onde vivia e rezava, e todos os sinais de seu trabalho ali em torno. Sem palavras.

Francisco em sua cela.

Francisco e os animais, ternura de Deus para conosco.

Francisco e sua túnica, rude, cheia de remendos e rasgões a lã grosseira.

Il Poverello e a força de sua vida. Até hoje.


*

Curioso: o barroco e o “completamente feito”- perfeito – surgiram quando a vida era sóbria e havia escassez (o único manto de São Francisco).

Hoje, que se vive o supérfluo e tudo é excessivo (até a fome), a arte encontra a beleza na sobriedade – aquelas salas imensas que vemos em algumas exposições, uma única peça que se mostra, o minimalismo.

Também estou impressionada com a recorrência com que encontro aqui na Itália a imagem do meu sonho nas pedreiras: depois dos ciprestes em Assis, no meio da ópera que vejo em Verona, passam frades encapuzados, feito ciprestes, exatamente as longas fileiras com archotes, passando três vezes, dando a impressão de filas intermináveis no solo –também feito pedra - do cenário.

...mas quem diria que aquela garota sonhadora (mas jamais fazendo projetos concretos) viajaria em sua coleção de postais dos 12 anos de idade?
Fotos disponíveis na internet (site turístico de Assis).

4 comentários:

Maykson disse...

Nossa, cá estou impressionado com a beleza de tua descrição. Maravilha! Agradecido, pois, pela visita que me fizeste! Sê sempre bem-vinda!

Maykson disse...

Nossa! Impressionado pela tua descrição sobre estes sítios de Itália e as paragens de Francisco. Lindíssimo como descorres sobre tudo, sobre os detalhes. Lindíssima tua sensibilidade. Agradecido por tua visita ao meu rincão. Sê sempre bem-vinda!

Maria Muadiê disse...

Lindo mesmo, Ana.

Cosmunicando disse...

você narra como ninguém o silêncio da paz, Ana... que belo!

PS: estou saboreando esta série aos poucos, como um doce que não quero que acabe... rsrs

beijos