terça-feira, 11 de novembro de 2008

Brasília, 1989-1991







Entre discussões de doutores e o inatingível céu de Brasília,
busco um lugar para um poema.
Uma leve insinuação poética, talvez, apenas.

Pena.

*

Fico doente, por falta de vida.
Planejo repassar antigos escritos.
Enquanto isso, poemas novos passam por mim.
Instalada nas leituras de Psicologia, lanço sobre eles um olhar melancólico.
Tanta coisa e um só olhar...
Falta-me o ar.

*

Perco-me na difícil geometria de Brasília.

Pesa-me não poder vagar sem rumo pela cidade,
meu corpo habituado a perder-se, sempre seguro no traçado tão vivo da Bahia.
A poesia se afasta de mim e nem mesmo sei se é em definitivo.

*

Noite em Brasília.
Esses ruídos impessoais...
Um choro de criança.
O grito que escuto é pavor ou desvario?
Encontros construídos geometricamente na noite.

*


Noite em Brasília

A silhueta na noite.
Esplanada de mistérios.
Quem somos nós?
Que dizem de nós esses ângulos?
Chuva, infinito, solidão.
Nuvens e rotações, ângulos e viezes,
aéreo delírio.
E esse anjo sem face,
desfigurado barroco
em mesa de hotel.

(Publicado em A impossível transcrição – De tudo fica a poesia).

*

Há um traço comum entre Brasília e Nordeste, linha cruel costurando em um mesmo mapa esse mar de desigualdades. São essas mãos descarnadas, erguidas para o céu, em desespero.
Apenas estendidas, desesperançadas de qualquer resposta.
Apenas um apelo mudo.
Cactos, ingazeiros, árvores mirradas, igualmente despidas pela seca.
Em Brasília, essas mãos descarnadas dão-se ares, deixam-se envolver por uma névoa seca, e nos encantam quando se vestem de bruma ao amanhecer e ao cair da noite; assumem um quê de cosmopolitas.
Mas na mesma manhã em que emudeço, fascinada, contemplando essas mãos nordestinas que clamam aos céus por entre um cinza de Europa, encontro o homem e o menino.
O homem magro, camisa rente ao corpo, olhar sem viço.
O menino, olhar faminto e a cola no saco plástico.
O Brasil e seus retalhos, na mesma tessitura.

*


Partindo, concluí que amo Brasília.
Suas árvores desesperadas,
seus incríveis lugares de silêncio.

Amo Brasília,
cidade em busca,
altar de sacrifício.

A luz intensa, sempre,
e essa inatingível
esperança em concreto.



Fotos: (1) Vítor e Ana Clara no campus da UnB; (2) na Torre, 1989: Virgílio, Ana Clara, minha mãe, Vítor e eu.

3 comentários:

Thalita Castello Branco, disse...

Brasília é uma coisa que eu não sei ainda, mas que sempre imagino ter um cheiro familiar... Esses concretos cheios de digitais nordestinas, talvez...


(Você é psicóloga! É, é, é sim, constatei aqui e ali. E é escritora e é sensível. É uma raridade, você. Que bom ter te achado...)

Beijos!

Casulo Temporário disse...

verdade, Thalita - você também? sou professora na UFBa.
não sou raridade não... só sou teimosa em defender certos espaços pessoais.
desconfio que você também...
a gente se fala mais, beijo.

Cosmunicando disse...

Ana, fico sem palavras com a sua sensibilidade ao olhar os locais por onde viajou... Brasília agora foi descrita como nunca antes eu havia lido.

Estive numa correria tão doida na semana que passou, que quase perco o vôo destas viagens daqui... minha poesia também anda fugindo. Mas suas palavras são sempre uma inspiração.
beijos