A Cidade de São Salvador da Bahia






... que é meu amor eterno, da infância e desde a idade jovem, quando o mundo nasce de novo a cada dia e as pátrias se espraiam.

...para a qual não há palavras suficientes.


A Avenida Contorno e seus meninos de rua. Suas famílias de rua, miseráveis na bela tarde ensolarada, nesse deslumbre da natureza que é o brilho dessas tardes de verão na Bahia, luxúria de sol e mar.

O registro de uma lembrança remota: uma viagem de trem, iniciada em Petrolina. Subúrbios de Salvador, já vislumbrado um pedaço de mar, Aratu. Um encantamento. Eu era menina, retornava a Salvador pela primeira vez, após a nossa mudança para o Crato. No trem, o grande barato era a expectativa do mar, o momento exato em que o víamos pela primeira vez, com o nome de “braço de mar”, que até hoje me causa certo espanto. Era verão, era sol. O verde, o colorido das casas, as promessas de mar: uma duna, a visão da água ao longe. Não sei que lugar era: Paripe? São Cristóvão? Ano: 1962? Teria 7, 8 anos então.

Os olhos buscavam uma paisagem de infância - a minha própria, já incluindo lembrança - e encantamento. Paz, beleza eram os registros. São preenchidos por uma outra paisagem, já me dizendo como são várias as infâncias: bandos de crianças nuas, descalças, olhos grandes, escuros, brilhantes. Barrigas imensas. Uma delas, do mesmo tamanho que eu então, e de chupeta na boca. Lembro do registro múltiplo, díspar: idéias de abandono, liberdade, tristeza, alegria. Vida pulsando loucamente, cores vibrantes. Sensação como que carnaval.

Na feira do Crato, aqueles olhos de criança, nariz escorrendo, chupeta e saliva, espreitando pelos cantos nas barracas na feira, aqueles olhos que falavam mais do que quaisquer regras e histórias de quase aristocracia da família... E o cheiro do fumo de rolo, igual em todo o Nordeste, de fora a fora (e até na Bahia); o mascar e o cuspir no chão, e por trás dos chapéus o olhar sombrio e desdentado dos homens, facão na cintura. E o cantar, a festa, pois quando era alegria era absoluta. E a sala de visitas das casas nossas, arrumadas, o óleo passado nos móveis, a flanela, até brilhar. A sala imóvel, a qualquer hora podia chegar uma pessoa, sem causar vergonha; não sendo criança, porém. Criança passava furtivamente, na ponta dos pés, aprendendo a construir espaços secretos de solidão. A vida, a totalidade plena do viver, estavam na feira e na estrada. E de certa forma, até hoje, para mim, a verdade é uma cidade do interior.

O mar era romance, estava nos livros e na infância na Bahia - algo como se não vida, paisagem pintada no quadro da sala, bonita para viajar nela, para viver nem tanto. Porque vida era uma coisa sóbria, verdadeira, essencial, sem exageros, luxos, extravagâncias. Outra coisa era cinema, algo de se olhar. Mas a Bahia, paisagem tão bela e luxuriante, era também tão forte já, tão vida e tão cinema, dança e movimento para olhos afeitos ao corpo estanque do nordestino: registros desde aquela infância de antes dos cinco anos e novamente meu amor eterno desde a idade jovem, quando o mundo nasce de novo a cada dia e as pátrias se espraiam.

*

Janeiro: O verão veste a cidade de deslumbramento. Perambulo, de encanto em encanto.
Súbito, porém, é setembro. O tempo pára pelo simples incidir do sol sobre as casas do morro que vejo da janela. O sol ilumina cores, portas e janelas. Pequenas ruelas, pequena gente, singelo recorte. O puro brilho do sol fazendo tudo o mais irrelevância.
A primavera caiu sobre a Bahia, enquanto eu me trancava em frente ao computador. A natureza brinca, adolescente. O mar, como um felino. Cores, flores, amores. A natureza é doce.


Praça da Sé

Estreita
a rua
Sinuoso
o tempo

Apelo
silente
Olhar
infantil

E o riso súbito
livre na boca.


Praça Castro Alves


Chove de repente no centro da cidade quebrando a tarde vazia o encontro vazio a moça triste

chove e eu ando pela rua e é escuro

e tenho medo do meu companheiro que passa e é infeliz e torto e sujo que cidade triste meu Deus quando chove

e tenho medo do povo que se acotovela sob as marquises cansado e triste e escuro depois do cansaço de todo o dia antes da noite de todo dia que noite sem dia que tempo escuro e chuvoso

e como meu coração bate de medo por causa do dinheiro que levo na bolsa que tempo escuro e triste

e como de repente há silêncio na rua só chuva sem vozes arengas sem rumores de sol alegria dia claro

e como de repente o olhar é limpo e triste sem a máscara do sol da Bahia

Um mar visita Salvador

O mar de O Piano esteve em Salvador por toda a semana.
Nele confundo coração e alma até ter os olhos liquefeitos.

Sonho formas de inauditas cores.

Bem dentro de mim
o mundo é veludo, formas dançantes, lágrimas azuis e corações de filho.
As palavras migraram para outros fazeres,
imagens silenciosas bailam sem normas.

O avassalador espelho do mar esses dias.



Posse

Dias em que somos acometidos pela cidade.

A cidade é soberana e nós,
seres involuntários na paisagem.

O mar, o sempre
sentimento do que é talássico,
báratro, abismo.
O oceano absoluto a nos envolver,
envoltório simultâneo de ruas acanhadas e eternas.

Dias em que a cidade se sobrepõe muito naturalmente à rotina
e nada somos senão seus viventes.

Dias em que palavras são apenas
a superfície das coisas,
e como tal as dispo
e sigo nua,
desmielinizada.

Os dois últimos poemas foram publicados em Uma Vaga Lembrança do Tempo.
Fotos: MVítor.



Comentários

Luísa disse…
Algo aqui me bateu muito lá dentro...
Algo aqui me fez sentir muito perto!
Desmielinizada já sou mas luto por o não ser...
São lesões que estão lá dentro e eu procuro não ver!!!
Beijo grande, de alguém que embora distante se sente muito de perto.
Pavitra disse…

adoro ler seus textos, ana!

dessa vez vou destacar o que me tocou imensamente:

"para mim, a verdade é uma cidade do interior."

essa frase e o poema Um mar visita Salvador - lindo demais!

beijos!

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