sábado, 1 de novembro de 2008

De quando eu tinha uma coleção de cartões postais, e do desejo de não viajar.


Uma bronquite me prende em casa por alguns dias. Com isso, abre-se uma clareira em minha agenda e visito amiúde esse mundo dos blogs, convencida de que é um mundo de aventuras; cada vez mais me dou conta de que nele acontecem coisas extraordinárias. Viagens. Entre o primeiro fato e essa constatação, ocorre-me postar, no meu espaço virtual, escritos de viagens reais que andei fazendo, o que é algo surpreendente para mim, ainda agora.

Quando criança, morava em Crato, no interior do Ceará, e lia muito, sobretudo aventuras de grandes viajantes por terras exóticas. Mas, quando descobri que Winnetou, o herói índio cujas façanhas me fascinavam, não existiu de verdade e, mais ainda - caso houvesse existido, não poderia estar mais vivo então, e muito menos quando eu crescesse, fiquei muito decepcionada. A História, toda ela, era minha contemporânea - de verdade, em minha fantasia infantil, e não como uma figura de linguagem.
Também queria correr mundo e ser pirata, fazer guerras românticas em que, claro, não havia sangue. Algumas vezes, criança pequena, fugi de casa com meu irmão Beto, pequenas fugas apenas imensas em nossa memória - o Poeta Bruno Tolentino dizia que isso era devido à minha alma corsária. E lembro da frustração que senti quando compreendi que, mesmo em sendo as terras coexistentes, de certa forma, no mapa de cada época, os fatos e os séculos tinham sua própria cronologia e os mundos deixavam de existir.

Já adolescente, ganhei de presente, de um amigo de meus pais, italiano, uma coleção de cartões postais. Àquela altura, porém, não chegava sequer a pensar em viajar pelo mundo, é como se as decepções da infância tivessem anulado para sempre esse interesse. Quando tinha 15 anos, tive a possibilidade de uma bolsa de estudos para a França e recusei de imediato, até porque era muito tímida para viver por um ano longe de minha família.

Depois, as viagens que fiz - não muitas, mas significativas - foram sempre ocasião para escrever, talvez por representarem um corte em relação ao cotidiano tão denso de trabalho que vivemos na universidade, o qual, por vezes, me faz sentir encapsulada, desterrada das palavras que desejo percorrer.


Assim é que, entre uma bronquite e essas imagens, senti o desejo de começar esta série de posts, "Viagens".

Começou ontem, mas só hoje me dei conta de que seria mesmo uma série, pois "achei" uma quantidade de escritos maior do que de fato me recordava. Seguirei ao sabor das cidades, sem levar em conta a seqüência em que as viagens aconteceram. Peço a paciência dos leitores se por vezes me estender um pouco demais.


O post de hoje, como antítese, fala justamente do desejo de não viajar...



Não desejo ir à Europa.
Basta-me esta gravura da Tour Eiffel na parede,
que alguém me trouxe de presente.

Não quero outras cidades e paragens.

Na verdade, quero só silêncio, em qualquer idade.
Tempo.
Um pouco de sol, de ver o mar,
de poder estar à toa,
sem pressa.

Remexer velhos papéis,
alguma música,
algum cinema.
Arrumar a bagagem e a matalotagem
de uma viagem secreta.
Paz, interiores, sombras.

Mar da Bahia. Foto de MVítor.

6 comentários:

Cosmunicando disse...

amei isso... de verdade. Por vezes, também não quero viajar a qualquer lugar que não seja pra dentro de mim. Adoro viagens, mais pelo percurso do que pelo destino final... isso deve ser alma corsária ou cigana também? rsrs
O fato é que você me fez pensar nas viagens que quis fazer apenas pra poder não-viajar (que loucura rsrs)
beijos

Casulo Temporário disse...

isso mesmo, minha amiga! "fazer viagem apenas pra poder não-viajar", compreendo perfeitamente.
Preparar esta série está sendo uma viagem pra mim... espero que você curta.
beijos!

Casulo Temporário disse...

e saudações à sua alma corsária!

Cosmunicando disse...

ah, adorei a nova foto! muito alto astral =)

Pavitra disse...


vou pegar a deixa da padmaya:

também adorei a nova foto, de ver mais de perto como figura a alma que intuo...

o poema me tocou no silêncio,
sem murmúrios, sem muros, sem fronteiras... uma viagem ao interior!

beijos, ana!

Maria Muadiê disse...

linda poesia.
beijo