terça-feira, 4 de novembro de 2008

Espanha, 1999, 2006






Madrid, fevereiro, 1999


É claro para nós o quanto é pobre organizar o mundo, o pensamento, nos pólos ocidental/não ocidental, sendo tão múltiplo o ocidental em si mesmo. Quanto de não cartesiano, de pouco racional vemos em todo lugar! Todas essas matrizes culturais preservadas e em luta, esta orgulhosa luta por autonomia, tudo isso foge a qualquer compreensão superficial. Essa impressão é particularmente nítida na Espanha, mesmo nesta tão rápida passagem por aqui.


Olho os homeless: desabrigados no frio, dormindo pelas calçadas da mais importante rua de Madrid. Latinos como nós, que de repente estamos remetidos a esse pertencimento tão claro. Jovens de qualquer lugar pedindo dinheiro, jovens nas cercanias do metrô e seus olhares perdidos, alucinados. Lejos, cercano... o castelhano soa duro em Madrid, as pessoas são duras, que fizeram de sua música, de sua língua tão bela? Sinto-me nostálgica de uma Espanha que nunca vi. Lorca não estava em Madrid.


O tempo é muito pouco, fazemos uma excursão, no segundo dia. Tantos lugares impressionantes. A Madrid dos Bourbon. El Escorial: Panteão, Basílica. Valle de los Caídos, onde não vou junto ao túmulo de Franco. Toledo: reino de Castela. Almoço no Monterey, onde chega de repente para cantar, linda, a Tuna Universitária. Toledo é um esplendor, cidade medieval e cidade imperial. Vemos a Catedral - absolutamente monumental, riquíssima -, a Sinagoga da Virgem Branca, a Basílica dos Franciscanos (San Juan de los Reyes), a Fábrica de artesanato damasquino.


(Na primeira foto, detalhe da Catedral de Toledo - disponível em http://www.moleiro.com/).


Caminho para Santiago de Compostela, junho, 2006.

A primeira parada é a catedral de Pontevedra, Basílica de Santa Maria Mayor, onde peço à Mãe que cuide do meu coração. Ando pelas ruas de Espanha e seus lugares tão longínquos no tempo, esquecidos na história, e ainda assim preservados.

Velho Mundo – não impactante nem impaciente quanto New York. A missa a que assistimos em Pontevedra é uma missa de corpo presente. Uma mãe (como a minha). Muitos filhos e netos. A emoção contida do viúvo, que cambaleia ao entrar. O filho de meia-idade (como eu) que lhe dá o braço. Contido e amoroso.

Também o meu coração está contido e as palavras, secretas. Imagens e pedidos. Para que Deus nos proteja. Mas estou a caminho de Santiago de Compostela e peço ao Senhor forças. A Mãe me compreende, de algum modo este é um caminho para/por ela.

Não rezo o bastante, não peço o bastante. Sou arrogante e me deixo obcecar por detalhes, por minha própria medida. É incrível que a primeira “parada” nessa peregrinação – inesperada, não planejada e aparentemente fruto do acaso - seja por meio desta Palavra:

Caminho, Verdade e Vida.

*

Caminho de trem para Santiago.

Peço a Deus luz e força, no dia do aniversário de meu pai. O Salmo não poderia ser mais apropriado:

Felizes os que encontram em Vós sua força,
E em seus corações resolvem seguir-Vos.
Assim é o meu pai, porto seguro em nossas vidas, sem estranhar que fiquemos por vezes à deriva, à mercê de imprevisíveis marés.

*

Espanha – e também Portugal – têm essa mistura de profunda alma, tanta religiosidade, e ao mesmo tempo esse “tudo é possível” de fragmentos de modernidade. O garoto de programa que encontramos em Vigo. Uma jovem com a mão machucada, que nos pede dinheiro no bar, à noite. Uma outra pobreza... Há em Vigo uma casa de Refúgio para Mulheres, com os dizeres: “Não basta perdoar, tens que pedir perdão”.

Aqui é Galícia e o sol é inclemente. A língua portuguesa está em toda parte.

*
O mar de Vigo é de um belíssimo, quase metálico azul. Profundo, quieto. É uma baía, muito linda. Grandes pássaros: gaivotas? Talvez albatrozes.

Os trens são novíssimos e rápidos. O retorno para Braga será ele mesmo uma peregrinação (três conexões).

Há uma linda ponte em Vigo, recortando a baía, no encontro entre rio e mar. Suspensa como eu... suspensa por cabos de aço, enquanto eu, por nervo e sentimento.

*

Catedral de Santiago de Compostela

Missa do Peregrino. 12 h.

Todos os dias às 12 horas a missa é celebrada na nave principal dessa impressionante Catedral.
Tenho a sorte de chegar a tempo justo para este momento, nessa visita tão rápida, de apenas quatro horas. A Catedral está lotada de gente, nem encontro lugar para sentar. Fico tocada pela expressão e pelo olhar das pessoas que caminharam a pé até aqui. Têm uma luz diferente.
Rezo e peço para todos que amo, e para mim também, fé e esperança. O resto virá por acréscimo.

Atrás da estátua de São Tiago, apóstolo de Jesus, os degraus de pedra trazem as marcas dos pés dos peregrinos que, desde o século XII, vêm de todo lugar apresentar ao Senhor a sua humanidade.

O Evangelho fala do vinhateiro e do Senhor que lhes manda o próprio Filho e Sua compaixão. O padre fala que a fé é um dom de Deus e um grande presente. Perdê-la é uma desgraça. Nossa base, porém, é frágil; sozinhos, não conseguimos.

Ele menciona os tantos peregrinos, especialmente os que vieram a pé, em grupo ou sozinhos, vindos de diversos pontos de partida na Europa (França, Espanha...) e de todos os continentes (inclusive – ele enumera – dois do Brasil, um de Singapura, dois dos Estados Unidos; e de toda a Europa, inclusive Tchecoslováquia).

Estar aqui – ele diz – é uma experiência de catolicismo. De unidade de toda esta tão diversa gente, todos nós: crentes mas pecadores, buscando a Eucaristia como único meio de sustentar nossa fé. Fico sabendo que São Tiago foi o primeiro apóstolo mártir, por isso simboliza a coragem – o arrojo de professar a fé (em espanhol, as palavras parecem mais dramáticas). Sua resposta, quando martirizado, era uma única: “sou cristão”.

Isso nos deseja a todos o padre, especialmente aos que fizeram o caminho a pé - para muitos, de iluminação e conversão. “Vamos com decisão e valentia ao encontro do Pai, para professar a fé”.
A oração dos fiéis inclui preces rezadas em italiano, em alemão, em japonês, em tcheco, além do espanhol.

Respondemos: Señor, escucha y tiene piedad.
*

Santiago de Compostela (Campo de Estrela) me comove.

Mais uma vez sou tomada pela sensação de que nada do que se passa aqui comigo é por acaso. Como encontrar justo essas linhas, que sempre me marcaram:
Arrancai o nosso coração de pedra,
E dai-nos um coração de carne.

Toda essa humanidade ferida que aqui vem, tão diversa, é sinal de esperança.

Em busca, como minhas companheiras de viagem - que não reencontrei mais, acho que precisava mesmo estar sozinha nesta inesperada, intensa e curta peregrinação - e eu mesma.

Jovens, pessoas de meia idade, idosos. Peregrinos que caminharam durante dias, via de silêncio e introspecção. Tantos outros, como nós, que fizeram seus próprios percursos.

Nossos tantos Caminhos de Santiago, mesmo quando nem sabemos que, apesar de tudo, seguimos.



(A segunda foto é de uma das entradas da Catedral.)




3 comentários:

Cosmunicando disse...

Ana, seu relato me toca particularmente... sou filha de espanhóis e meu pai nascido na Galícia. No mais, estou aqui meio sem palavras, imaginando essa viagem fantástica (que um dia farei).
beijos

Pavitra disse...


e eu ainda acompanhando vc nessa viagem... o que me toca profundamente é mesmo a sua emoção, ana...
sabe, às vezes fico imaginando como foram os momentos em que vc escrevia sobre essas viagens...

até a próxima!
beijos

Casulo Temporário disse...

que forte isso, Padmaya. Viagens que se encontram e percorrem. Estivemos em Pontevedra justamente porque era a terra dos avós da minha amiga com quem viajava naquela ocasião.

E é isso mesmo, Pavitra - gente como nós temos essa emoção assim, tão à flor de tudo. As viagens acabam sendo uma oportunidade de sintonizar, um deserto, um lugar de reconhecer a própria identidade, fora da vida normal e suas anestesias.

É uma delícia ter a companhia de vocês, obrigada!
espero que tenham paciência... ainda faltam uns dez dias nessa aventura.

Hoje trago o outono, pensando no belo outono americano e na festa da democracia que hoje acontece lá.