Itacimirim, Bahia, janeiro, 2000




A meus irmãos, com amor.

Descanso no silêncio de Itacimirim e o dia é manso.

Só me quero mar e verde e bichos e rios. Rios da infância que não são chamados e insistem em chegar, sensação de repouso e aderência ao real, a terra molhada e o cheiro de profundidade como extensão dos nossos corpos de criança, que, no entanto, dela eram feitos (“De que são feitos os meninos, de que são feitas as meninas”? perguntava). O barro e a terra onde nos plantamos até hoje.

Itacimirim é conchas do mar, que aparecem a essa época do ano. Ainda aparecem, mesmo quebradas e tímidas. As caravelas e sua transparência, seu violeta infinito. Os bichinhos que emergem da na grama, besouros multicores, lagartos e até um siri que veio do mar até em casa, migrante sem norte, atordoado. O mar que um dia vai inundar nossa casa... Os gatinhos que vêm à noite brincar na grama, ariscos mas sempre vindo quando eu chamo (também porque estou aberta, relaxada, nenhuma dor de cabeça, nenhum cansaço ou irritação ou pressa ou agonia ou compromissos de não ser, e assim me reconhece o que é bicho).

Os pássaros, todos reconhecidos por meu pai, e amo perguntar-lhe e nunca saber dos nomes para poder perguntar de novo e ouvi-lo em seu saber mais genuíno de menino passarinho. São muitas espécies que vivem aqui, e cantos vários, e nomes belos (casaca de couro, viana, graúna, sabiás, ferreiro...). Ouvir o mar e os pássaros, privilégio e necessidade vital. Agora o silêncio é absoluto, todos dormem nessa hora quente da tarde. Escuto o silêncio, e há pássaros ao longe, e são diversos, e são de versos, palavra nenhuma poderia preencher esse momento. Esse lugar está sempre aqui e nunca o tenho como agora... O silêncio, o pai e a mãe, o meu amor só para mim. Mas as crianças, quando vêm, são parte da grama e do mar, se não fossem as preocupações do cotidiano que vêm junto via os adultos.

E os irmãos, não sou sem eles. Como no livro de Marguerite Duras, o tudo que Luís evocava ao me dar de presente. E eu que não registrei, ou mal registrei, ocupada, e nunca o fiz sabedor do que significou para mim. Mas ele sabe, contudo, porque o nosso tecido de ser irmãos é precioso. Falta o fazer saber sem o qual somos silenciosos e nos colocamos cortinas e banalidades; ele sabe que ser irmãos é poder chorar pelas mesmas coisas.

Vislumbro nossa infância de nove irmãos, de ser criança muito, e os pais tão jovens como há muito fui. Minha mãe conta que até Luís nascer todos dormíamos no seu quarto; ela nunca abriu mão de cuidar de nós à noite. Eram três, quatro berços. Viro ternura e quase choro ao ver - na lembrança ainda, uma lembrança dentro de um corredor no qual minha mãe toma minha mão e seguimos - os berços, o cestinho enfeitado e mantido tão limpo com as coisas do nenê. A caixa plástica para mamadeiras e demais utensílios, protegida em um cantinho especial da cozinha. Os objetos suaves na penumbra do quarto e o cheirinho de bebê, tão naturalmente gerado naquele tempo, misto de leite e lavanda Johnson e talco e hipoglós e fraldas de pano sujas.

Minha mãe me conta desses arranjos para demonstrar o quanto ela me queria. Desde que chegaram de Ubajara, e acho que é a primeira vez que realmente vivem, mesmo que por cinco dias, em casa de um filho na chegada de um neto – eles falaram repetidamente sobre o quarto de sua netinha caçula: muito rosa e enfeites e rendados, um exagero que eles estranham. Fico enternecida ao vê-los, esses avós convivendo com práticas de criação tão distantes da sua experiência de pais, e obtendo um equilíbrio entre estranheza, descoberta e aceitação que só se explica pelo amor.

Imagino os dois com três filhos de até quatro anos de idade, e mais um por chegar. E o que minha mãe conta, de querer estar perto às noites para estender a mão sobre a gente ao primeiro chorinho ou sinal de inquietação, e acalentar baixinho, um cicio, de modo que a gente nem chegava a chorar, voltava para o sono.

Não lembro, esse tempo é só imaginação. Mas me parece que vejo nitidamente como era, e sei em algum lugar que éramos crianças tranqüilas, e que chorávamos pouco, e que era um acontecimento se algum chorasse muito à noite. Não me vejo quando eu era o meu ser original... no tempo que não lembro, ainda intacta.

Sou oceano nas extremidades e sou terra. A infância é mar e terra, e aquele poço profundo no Caboclo – trilha estreita, árvores mirradas mas envolventes, a nos emprestar galhos dos quais pulávamos na água, trampolim de delícias e completude.

Estou à toa e as lembranças também. As conversas fluem, as lembranças vêm, gratuitas, livres, sem nenhuma exigência de nexo.

Há um novo milênio e quero verdades. Verdadeiramente viver. Sentir e significar cada momento e cada tarefa.

Fotos: MVítor.


Comentários

Maria Muadiê disse…
Ana, você é muito boa em textos longos! Escrita muito poética, delícia de ler.
beijo
Luísa disse…
Plic!Ploc!
Ouvem-se os pés a saltitar na água...
Lindo texto!Lindas imagens!
Respira-se bom gosto, por aqui!
Será sempre um prazer visitar as suas paragens.
Bom fim-de-semana!
Martha, Luísa,
obrigada! é muito bom poder partilhar essas experiências com vocês.
Maria Beatriz disse…
Ana,
Você não é apenas a única irmã a quem eu tanto amo e admiro. Você é única. Ao ler suas palavras, viajo no tempo e sinto o cheiro da nossa infância tão longínqua, em outro cenário, sem barulho do mar, mas em contato íntimo com a mãe natureza - ar puro, água cristalina, árvores, frutos, pássaros... Tempo vivido com paz, tranquilidade, aconchego, segurança, amor, enfim felicidade. Não lembro de nenhuma ameaça, não tínhamos os temores do hoje, e o mundo era tão infinito quanto a Serra do Araripe.
Viver a infância dos nossos filhos em Itacemirim, é propiciar a eles um pouco do que tivemos. É nos permitir um prazeroso reencontro que o dia-a dia nos rouba. Agradeço sempre pela irmã que é, pela família que somos.
Um abraço bem apertado (mas não me derrube...)

Maninha
Um abraço bem apertado
oi Maninha,
assim eu vou chorar...
mas é como você diz, coisas guardadas lá dentro, para sempre.
amo você e acho que você é a melhor irmã que eu poderia ter!
Anônimo disse…
Bê kdodiabodoblog, sumiu......
Anônimo disse…
Paulo, entre lágrimas! Se pudesse, agora, escreveria algumas páginas provocadas pela sua mestria em dizer o indizível e vasculhar nos nossos antigos quintais as mais simples e puras emoções. Que surpresa (não é aprimeira vez)ver tanta poesia esbanjando beleza nas palavras de Maninha, que garante, além de sorrisos esculpidos dedicadamente, momentos de singela incursão a tempos que o tempo nos traz de volta, como conchas lançadas na areia pela maré. Já tinha percebido o valor do tesouro que vocês proporcionam aos seus filhos, para que conheçam não nossa nostalgia, mas a essência de luzes e sonoridades interiores que somente a natureza pode nos dar de graça.

Amo vocês! Mais do que digo e do que possam imaginar.

Paulo
Adalene disse…
Ana,

Fiquei profundamente emocionada com seu relato sobre a forma de dormir da tua família. Lembro que meus pais tb sempre nos tiveram por perto. Mesmo qdo optamos por nossos quartos, a porta deles estava sempre aberta para nos receber, ou, como era muito comum, colocávamos todos os colchões na sala para que, todos no mesmo nível, pudéssemos escutar as inúmeras lembranças da infância deles, e (re)contarmos a nossa.

Meu arranjo familiar para dormir tb é "todos na mesma toca".

bjs

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