Lisboa, fevereiro, 1999



Um anônimo põe uma rosa vermelha sobre o túmulo de Camões no Mosteiro dos Jerônimos (não para Vasco da Gama, o descobridor). O sonho fala mais alto e mais longe que a conquista...
Lisboa, como Salvador, tem cantos e encantos. Uma cidade fascinante, cheia de surpresas. Palmilhamos indícios, buscando pegadas de nossas matrizes.



Talvez os países europeus possuam alta auto-estima. Nós, colônia, ao contrário, somos sempre pouco referidos a nós mesmos, voltados à apreciação de olhares externos. Como se nós mesmos não fôssemos razão suficiente para cuidarmos de nossas cidades e de nossas vidas... Que matriz perversa, impregnando o subjetivo de cada um!





A última flor do Lácio. Meu ouvido (colonizado, talvez) se encanta com o português falado em Lisboa. Não só por sua música: sobretudo o poético da estrutura da frase, sua correção e o que ressoa em mim quase clássico, castiço.


E quando se canta o fado, canta-se "para dentro", quase um canto em silêncio, abafado no peito. Convidado, o público cantarola em surdina. Tudo é, porém, intensa emoção.

*

Museu da Marinha: na memória dos navegantes, nenhum registro da descoberta do Brasil. Quem somos nós para eles? Uma descoberta que não é a das Índias, não é a de Vasco da Gama. Parece que o Brasil não é motivo de orgulho do descobridor. Clandestino e onipresente, o amor por nossas novelas, sensualidade, axé.

*

No taxi, escutamos no rádio que, a esta altura do milênio, ocupados pelo técnico, os homens não conseguiram resolver ou atender às suas necessidades de afeto, calor humano, relacionamento, etc. Soa estranha essa constatação no velho mundo. O que de lá há muito estava guardado (humanismo), marca de civilização às vésperas do novo milênio. Mais importante que os monumentos dos poderosos.

*

Portugal: tão "piccolino", ouço dizer uma turista italiana. "Piccolino" e arrogante. Antigo e suave. Nada é abandonado, tudo é reconstruído. Cinzel do que se é, novos modos se integrando, justapostos, como se tudo o mais permanecesse intacto. Olhos felinos de quem há um milênio vê as modas aparecerem e sumirem, sendo que apenas restam os monumentos (agora começo a compreendê-los) e seu fascínio.

E não dá para rotular Portugal (como os outros tão singulares e diversos países). Seriam "portuguesas com certeza" as estórias de Inês de Castro, a rainha morta? Do pobre D. Alfonso, louco, isolado e encarcerado até a morte no mais alto das escadas do Castelo de Sintra? As rainhas loucas, Carlota Joaquina e sua cadeira de criança, de rainha aos dez anos. Isso fica, delineando lendas e registros de existências pessoais possíveis através da história.
Foto do túmulo de Camões no Mosteiro dos Jerônimos. Disponível em http://www.reflexosonline.com/reflexos.php?num_foto=101421.

Comentários

Pavitra disse…

caramba, ana!

a padmaya falou no texto anterior e eu repito nesse: vou viajar com vc a cada um desses lugares...

ah, o que me chamou muito a atenção dessa vez:

"Nada é abandonado, tudo é reconstruído. Cinzel do que se é, novos modos se integrando, justapostos, como se tudo o mais permanecesse intacto."

lamento por isso não acontecer aqui no brasil, às vezes com lágrimas... e nunca consegui entender!

até a próxima parada!

beijos

Elinalva disse…
Ler suas impressões sobre as cidades, levou-me a Ítalo Calvino em "Cidades Invisíveis".
Não importa o século em que estamos, porque as cidades falarão por si mesma, de forma diferente para cada um que a vê.
Abraços
Pra mim é muito bom viajar de novo nessas paisagens, agora na companhia de vocês!
bjs,
Ana

Postagens mais visitadas