sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Londres, 1999, 2007






A Eloneida e Nizam, por seu carinho.


Fevereiro, 1999

O que quero ver? The market place where Desmond had a barrow and Molly was a singer... Ou então:... go looking for flying saucers in the sky... Nosso anfitrião, tão gentil, me olha com total estranheza diante de semelhante non sense.

Mas amei Londres, a ponto de não ter tido tempo para escrever.

O cosmopolita, o universal, os tantos mundos se expressando naquelas ruas aparentemente iguais. O intenso movimento, mas não há ninguém. Ninguém olha para nós, e se olhamos as pessoas parecem se ofender.

A evocação de London, London é inevitável para alguém de minha geração:

I'm wandering round and round, nowhere to go
I'm lonely in London, London is lovely so
I cross the streets without fear
Everybody keeps the way clear
I know I know no one here to say hello ...
I know they keep the way clear
I am lonely in London without fear
I'm wandering round and round, nowhere to go
While my eyes go looking for flying saucers in the sky (Caetano Veloso)


Julho, 2007

Em meio ao turismo e seus tentáculos e através da deslumbrante e fossilizada beleza do velho mundo, que parecem, ambos, nos subtrair o real da experiência em si mesma, o que mais valeu foram os encontros com as pessoas em seu cotidiano - aquilo que não foi fotografado mas permanece.

Quase dez anos após a primeira tão sossegada ida a Londres, enfrentamos esse tempo de obsessiva vigilância. Até cogitei do título de um post: “brincos, rinossoro e terrorismo”. Sobre o controle no aeroporto de Londres, ritual desesperado, entre o trágico e o risível - escrevi aqui no Casulo. A seriedade dos agentes manuseando um vidro de soro fisiológico ou uma bolsinha com brincos e nos dizendo: I'm looking for explosives.

Já não lembro, são reais, aqueles gestos de tão relativa resolutividade? Pobre ser humano, perdido entre rituais inúteis, que apenas persistem e nada asseguram.

Postei, aqui mesmo no Casulo, ao retornar, a seguinte nota sobre o metrô:

Subways (notas extemporâneas)

Os metrôs são os intestinos das cidades neste lado do mundo que é outro.

Vísceras que reconectam pessoas, fornecendo espaços transitórios pelos quais realizem o retorno ao mundo privado, afastando de cada rosto os traços que o tornam anônimo.

A imensa solidão humana das multidões na cosmopolita Londres, em dia de ameaça terrorista.

Este mundo, que se apresenta como espelho da civilização, é oco.

É hora do rush e a multidão prossegue, seguindo impotente, quase autômata, imenso mecanismo, hidra de mil cabeças, seguindo.Este é o rosto da solidão e da mais total incomunicabilidade.
Viajamos em família, os quatro juntos, e é tão bom isso, e criamos células de alegria ali dentro, como se fossem, naquele momento, modos de estar como que clandestinos, subterrâneos. Subways. Modos de estar felizes no deserto.

Fotos de MVítor, Londres, 2007: (1) Tensions. (2) There she goes. Covent Garden (3) Lonely in London. (4) City Hall.

London London: ver em http://br.youtube.com/watch?v=SFt6J8-ZM1A&feature=related

4 comentários:

Pavitra disse...


ana, é incrível oq ue vc escreveu sobre o metrô...
vejo isso cada vez mais, em cada esquina, essa completa incapacidade de comunicação, e por comunicação quero dizer "o mínimo de afeto" ou de reconhecimento do "outro"...
acho que viajei aqui, mas realmente vejo e me espanto com isso!

mas sigamos!
beijos

Thalita Castello Branco, disse...

Nossa... Ainda tenho dúvidas se estou lendo palavras de uma geógrafa sensível ou de uma psicóloga que se importa com o mundo. De qualquer forma, lindo.

A propósito, a parte do metrô é mesmo formidável. Esse não-lugar que nos leva pra lugar algum...

Casulo Temporário disse...

Pav, Thalita,
tinha acontecido a explosão de um carro bomba no dia em que chegamos a Londres (ano passado) e escrevi isso. Vocês podem imaginar o clima... Mas, lendo vocês agora, dou-me conta também de que se trata de algo mais pervasivo, mais geral.
beijos, obrigada de novo pela companhia.

Cosmunicando disse...

hoje Londres!

e a cada vez que me aconchego neste casulo, é também um olhar sobre tudo o que realmente vale a pena ser visto numa viagem...
nesta o metrô, os rituais automáticos, a solidão em meio às pessoas, e claro, caetano!
neste post tem até fog londrino, tal o clima =)
beijos Ana