New York, novembro, 2005 (três anos depois, numa torcida de antevéspera por Barack Obama, esta esperança)





Para Virgílio, Ana Clara, Vítor e Luciana, companheiros de viagem.

Esta terrivelmente bela cidade me faz chorar, a mim que não posso descrevê-la tão precisamente quanto o faz Jean Baudrillard: a cidade da prostituição total e da total eletricidade, que em relativamente pouco tempo alcançou essa qualidade histórica de cidade síntese, expressão do humano em sua época. E assim herdeira de Atenas, Alexandria, Persépolis. Por minha conta, acrescento: herdeira de Roma.

Ando pelas ruas de New York, transida de frio e de beleza ante seu inacreditável mosaico de vestígios humanos. Inutilmente procuro um símbolo para a cidade. Impossível defini-la.
Ainda assim penso na escultura em Wall Street. Um touro raivoso e a beleza rompendo a pedra, como se involuntária. A arquitetura da cidade era para ser uma demonstração de riqueza e poderio. O que emerge é essa estranha, absoluta beleza, nascendo de tantos contrastes.

Esta cidade me faz chorar. Sua forte personalidade, sem rosto algum. Mil faces e nenhuma face. A solidão abaixo de zero me corta o coração. A pobreza é aqui um acinte de extrema violência. Pessoas catando o lixo. Homem semi-descalço, passos dolorosos. Ao cruzar com ele, escuto um gemido que diz tudo. Homens mal vestidos no subway, reconheço seu olhar e suas mãos de trabalhadores rurais. Quase dizia: discrepantes no subway, mas não são, pertencem sim, a esta cidade, mesmo quando falam espanhol. “Pertencem”, em suas formas singulares de pertencimento. Atração e repulsão permanentes. Esta é a cidade medusa, sem rosto, tentáculos mil movendo-se por si mesmos. Todas as identidades e nenhuma identidade, exceto talvez a dos negros que se movimentam livres, em carne e osso, desafiadores, donos dos espaços.

Muitas pessoas têm frio e fome na cidade de maior poder financeiro do mundo. Muitas crianças nascidas aqui vivem miseravelmente nesta que é o mais poderoso centro financeiro do mundo.

Esta cidade me fascina e me apavora, em seus múltiplos fragmentos impessoais, incessantemente inventando solidão. Eu poderia viver aqui para sempre, fascinada, e poderia, horrorizada, fugir correndo, sem jamais olhar para trás.

Neste lugar onde tudo é possível, muitos artistas podem viver, instalados nesse fac-símile imediato, ilusório, de totalidade. Criando na areia como se fosse pedra, como nos é possível. Penso nos versos de Borges: Nada se edifica sobre la piedra, todo sobre la arena/Pero nuestro deber es edificar como se fuera piedra la arena…

Tenho amigos que poderiam viver aqui.

Esta cidade me faz sofrer, meus passos nas ruas, nenhum eco.

A cidade que se inventa sem parar e nunca pode dormir. A cidade que inventa sem parar o próprio esquecimento, supremo oblivion. Onde tudo é possível (só o eu, impossível – tenho que parafrasear Drummond).

Esta cidade me faz sofrer porque não posso compreendê-la, a um só tempo majestosa e infantil, grandiosa, magnífica e primitiva. Não posso compreender essa imensa via crucis, esses passos dolorosos pelas ruas. Há uma súbita, profunda, nostalgia do sagrado.

Muda de espanto, estou à noite no alto do Empire State, sobre o imenso tapete luminoso, dourado, quase um altar. Tudo o que o homem construiu, o ápice de tudo por que luta, às custas de uma irreversível solidão, ao preço de um vertiginoso make up de alegria.

Estamos aqui do alto do Empire State contemplando a cidade, reverenciando seu esplendor. Somos muitos, de todas as raças, lugares e credos. As imensas e ágeis filas dessa Babilônia. Um funcionário nos promete diversão e então fico sabendo que é por isso que viemos até ali: you’ll have a lot of fun, I promise you. The only bad part is to pass the security system. Digo a ele: it’s not so bad, pois ele é tão gentil. Aliás, em geral todos são gentis conosco. Nós, os turistas, somos ali os inocentes do Leblon, de quem Drummond falava – aqueles que passam óleo sobre o corpo e esquecem. Somos inocentes perversos atordoados pelo feérico espetáculo e também queremos esquecer.

Queremos a festa das luzes, como os músicos do Buena Vista Social Club caminhando no Times Square. Igualmente deslumbrados estamos nós, boquiabertos diante das luzes, diante desse fluir quase real dos luminosos da Broadway que nos encantam e nada nos dizem. A fotografia e o cinema captam o fragmento, mas não esse vertiginoso fluxo, que só é possível sentir estando aqui, fascinados.

Nessa cidade monumental, os edifícios dominam. Um edifício sem janelas pretende facilitar a comunicação, evitando que os funcionários, que trabalham com telefonia, se distraiam.

Igrejas espremidas entre prédios altos e sufocadas por essas outras tantas catedrais. Catedrais do nada? Catedrais do desespero, talvez, erguendo-se muito alto, para o nada. Para o Ground Zero.

Ground Zero. O único lugar onde faz silêncio em New York. Chocante, no 11 de setembro e agora.

Andamos no MoMa e no Guggenheim, pensando: é a perfeição. Mas as pessoas fazem um alarido de vozes e passos e penso que a contemplação da beleza se tornou insuportável para o homem contemporâneo, do qual essa cidade é uma síntese. E, no entanto, esses museus são perfeitos. Belíssimos. Em nenhum outro lugar como em New York a arte contemporânea poderia encontrar seu nicho e sua perfeita, precisa expressão. O efeito final é estranho, flagrantemente belo. Novamente quero chorar, um sentimento de indefinível e inesperada compaixão.

Tudo contrastante, tanta personalidade nessa medusa em concreto armado e luz. Tanta solidão. Em nenhum lugar será tão fácil igualar verdade e ilusão.

A vista do Empire State é bela, fascinante e ao mesmo tempo me entristece, diante desta cidade que é a máxima expressão da humanidade hoje, depositária de nossos maiores sonhos e de nossos mais profundos medos. É tudo isso, mas... isso é tudo?

Cidade-síntese. Seria isto possível em pleno século XXI?

New York, New York.
Sem dúvida é para você que Simon e Garfunkel, em The only living boy in New York, cantam: “half of the time you’ve gone and you don’t know where, you don’t know where”.



Comentários

Cosmunicando disse…
que maravilha... que passeio feérico acabei de fazer através das suas palavras... meu silêncio agora, digerindo tudo isso, é zero ground.
Vou curtir muito essa série de posts =)
beijos
denise disse…
ana, querida,

acho que somente o silêncio e algumas lágrimas dizem em mim o que sinto ao ler esta sua crônica mais linda (até agora!).
ontem, sobrevoando congonhas, vinda de uberlândia, olhei são paulo de cima e de perto, lembrando de new york, essas sensações que você tão belamente descreve. quanto cinza e quanta vida. prédios e carros e gentes tão assemelhados e diversos... de estarrecer.
obrigada!

beijos, denise.
Maria Muadiê disse…
Ana, que texto forte, eu, que nunca lembro de New York, gostei de ler.
Um beijo,
M.

PS: Adorei a nova foto
Pavitra disse…

ana,

sua viagem e suas emoções chegaram até mim...
tanto o fascínio quanto o aturdimento,
tanto a beleza quanto o caos...
eu fiquei emocionada até arrepiar.

e, tenho que dizer, sua maneira de descrever a big maçã é muito mais interessante do que a própria cidade...

esse texto, sim, foi a própria viagem para mim.

Queridas,
Obrigada pela sintonia. Quanto ao texto, para mim é tão forte que não posso comentar nem uma vírgula...
beijos!

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