quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Outonos (mas a História é, sim, necessária!)




Alemanha, 2001



Não, não são flores. Esse multicor que me encanta é o outono que chega. Encontrei enfim a minha estação favorita, é esta, sem dúvida. Sensação de plenitude e madurez, talvez por coincidir com o outono que se aproxima em mim.

Sobretudo é bela esta paisagem: tudo tão cuidado e verde e claro - ainda claro, me dizem, pois, quando chega o inverno, a luz será escassa e todos sentirão sua falta. A falta de luz chegará a doer (daí o moderno estilo em vidro da Universidade de Genebra).

Montes e vales, essas incríveis nuances de amarelescência, o vermelho aqui e ali. A casa recoberta de folhas vermelhas em Konstanz. As folhas no chão, suavizando cada passo, nos fazendo um pouco árvores. Onde começa a copa, onde começam as raízes, onde o solo, onde eu?
Ao entardecer, estamos no entre-deux: folhagem e copas, viramos hera e liame, nos vegetalizamos, sombra e claridade, ouro em pó no ar.

Sim, eu faria a poesia do outono, denso, profundo, se desfazendo em silêncio. Morte, fecundidade, renascimento. E as flores ainda presentes. Tudo morre, tudo renasce, prelibando o recolhimento que aqui marca a brancura do inverno.

Esse entardecer me acalma profundamente.

Tudo está em paz e em correspondência com a ordem da Criação.

Nova Inglaterra, 2005

As inacreditáveis cores do outono, mais e mais, infinitamente. Mil nuances levam dos verdes aos amarelos, laranjas, vermelhos. Como por sutis caprichos, as árvores trocam de roupa, indolentemente, rapidamente, numa profusão de cores e estilos de matar de inveja o mais imaginativo designer de moda. Deixam cair suas folhas, que o vento leva, dançantes, enquanto nós restamos, na vã ilusão de reter sua efêmera, mas absoluta, beleza.

Em um segundo paramos, extasiados. Mas já se vai, com o vento, como se por puro capricho da natureza. Que, sábia, nada procura reter, se tudo nascerá novamente. Mas eu me entristeço, incapaz de lembrar – ou de esquecer? -, de apreciar os ciclos da vida, presa nas armadilhas de tudo que é reter, possuir.

Hoje não há chuva nem ventos fortes. As folhas caem indolentemente, suavemente, irreversivelmente, tendo alcançado seu ponto de cair. Nada mais. Silenciosa, fascinante dança. Estou estranhamente em paz, aceitando esse irreversível movimento daquilo que se vai.

O sol se põe e mal posso crer no espetáculo final de seu reflexo sobre as multicores, como se iluminando tudo, levando a um paroxismo o brilho dourado. Folhagens, lagos, horizonte. Às vezes apenas os cimos das árvores iluminados. Chego a buscar com os olhos de onde vem a eletricidade, mas é o sol, seu último brilho do dia, quase pachorrentamente, mas sem qualquer parcimônia.

Árvores que retêm sua claridade por um átimo de tempo. E então, mais nada. Efêmero.

Nenhuma história é necessária.


Fotos de MVítor em Worcester, MA, novembro, 2005.

7 comentários:

Luísa disse...

Será sempre mais uma alma sensível a sentir a metamorfose da natureza na sua fase mais multicolor: o outono!
Ofereço-lhe o que escrevi sobre esta estação...

Luísa disse...

Há sempre um olhar sereno que assiste ao tumulto da modificação da natureza nesta altura do ano...
Seremos sempre mais um olhar sobre aquilo que a natureza oferece. O belo!

Luísa disse...
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Luísa disse...

O meu Outono, foi postado em 18 de Outubro.Convido-a a sentir o cheiro das folhas caídas...e demais sensações de outono!

Pavitra disse...


ana, esse me tocou como brisa...
tão suave, tão lindo...

adorei a sua visão do outono - o seu sentimento, como sempre!

beijos!

SIMONE GOIS disse...

Olá menina,
Muito bom seu texto, também amo os tons do outono.
Já vou te linkar pra acompanhar seu trabalho.
abraço
simone

Cosmunicando disse...

"Ao entardecer, estamos no entre-deux: folhagem e copas, viramos hera e liame, nos vegetalizamos, sombra e claridade, ouro em pó no ar."

isso nem dá pra comentar, Ana. Muito lindo!