Paris, fevereiro, 1999













Por um dia inteiro, resto muda pela emoção de estar em Paris. Todo o tempo à flor da pele, completamente sensibilizada por tudo. No segundo dia, recupero a voz diante do menininho no metrô cantando Mon Ami Pierrot.

Há um gato numa janela no Quartier Latin. Aliás, em todas as cidades encontro gatos, que até vêm ao meu encontro, “falam” comigo e se deixam afagar.

C'est la plus belle ville du monde. E bela de um jeito só seu.

Nosso hotel parece ter sido sempre o mesmo por muitos anos. Nosso quarto tem móveis dos anos 50, 60. O hotel tem sido dirigido e cuidado pelas mesmas pessoas, os pais já idosos, e mais a filha. Monsieur fica nosso amigo. Uma tarde, Madame pintava as cadeiras com verniz. Tudo se restaura, nenhuma aflição do imediato e descartável.

Contra tudo que me diziam dos parisienses, as pessoas são especialmente gentis comigo em Paris - vous, qui parlez d'une voix si douce.... Tocadas por minha emoção amorosa em relação à cidade, possivelmente. No hotel, sem que peçamos, nos emprestam um guarda-chuva (chove muito, faz zero grau).

Gosto das ruas de St. Germain-des-Prés e Montparnasse, suas livrarias, cafés e cinemas.

Deposito flores nos túmulos de Simone de Beauvoir e Sartre, de Marguerite Duras. Sim, Paris é para mim existencialista e vagamente revolucionária.

As maravilhosas e tantas livrarias, e temos que nos conter. Os nomes são lindos: L'écume des pages, Le temps retrouvé. Passaria semanas ali, interessada por tudo - até mesmo por psicologia (sempre a última escolha na minha hierarquia de interesses - cada vez mais me acontece de encontrar material significativo sobre o fenômeno psicológico em outros campos que não o próprio...). Compro alguma literatura. Em Paris há sempre alguém lendo: no metrô, nos jardins, cafés, rua.

Tudo é talvez como nas outras cidades: ruas, monumentos, estátuas, vitrines, luzes, jardins. Mas o charme é único de Paris.

O metrô, porém, me angustia: por vezes sujo e sombrio, por vezes ameaçador. A pobreza: músicos nos vagões, mendigos, um deles com um cartaz: J'ai faim.

É bom andar pelas ruas e constatar as marcas da História: Égalité, Liberté, Fraternité. Le tombeau au soldat inconnu. Na Rue de la Huchette, a placa marcando o lugar onde um herói da Resistência foi morto em missão, pela Gestapo, em 1944. Os lugares que encontramos sem esperar: a Sainte Chapelle e seus vitrais, concertos, o Museu Rodin, seus jardins. E Camille Claudel - como dói.

Fotos de MVítor, 2007.

Comentários

Este comentário foi removido pelo autor.
SIMONE GOIS disse…
Pôxa, que texto, que marca pessoal deixaste e trouxeste de Paris.
Deu uma inveja... de linha branca, tá!
beijos
simone
Thalita, Simone,
É bom ter a companhia de vocês nesta blog-aventura que, de certa forma, é viajar outra vez!
obrigada.
ainda tenho uns oito ou nove "postais" pela frente. Já antecipo que a surpresa estará no último...
Maria Muadiê disse…
Que beleza essa série viagens...
Martha, querida!
e você é super bemvinda.
Cosmunicando disse…
andei defasada e hoje vim a Paris... ah, se houvesse um 'guia turístico-poético', você seria a autora!
Aliás, pense no assunto, porque essa série está encantadora.
beijos
Padmaya,
esse já é - se não um guia, um roteiro turístico-poético.
Fico pensando que somos todos turistas, estamos sempre passando,só que não nos damos conta, não é?
bjs, obrigada,
Ana.
osamoreseosdias disse…
Sim, é isso aí, como vc conta, o meu conto sobre Paris.De 30 anos p cá a Paris dos quartiers elegantes começou a ser suja pela pobreza, visível até ali. Como a concierge de um general- q eu conheci no metrô- me disse: não é que exista pobreza em paris - Eles a enxota... Ils le chassent...para os quartiers mais longinquos... Mas agora mesmo no sixième nos deparamos c a face oculta de paris... mas ainda é linda.

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