Roma, junho, 2001




Escritos como fotos de viagem.

Lugar e tempo de ver à distância.

Modo de percorrer juntos lugares de sonho e memória.

Um retiro e um mergulho em profundezas, sob o véu de uma timidez aguçada, de um pouco à vontade civilizatório neste fim de tarde festivo em Roma. Antes de viajar, chego a sonhar com isso, essa aflição de saber falar e não poder, essa estranha dislalia que me acomete. Sou eu, meu corpo que não chega perto, meu silêncio. Sou sempre a que até compreende o idioma, mas não fala. O meu eu arrítmico, talvez...

São tantos e tão profundos os sentimentos a partir de Roma que nem sei como começar. Essa cidade é excessiva, não se contém. Por isso seus habitantes se expressam tanto, falam, se expõem, sem precisar guardar nenhum segredo sobre si próprios – se já guardam algo muito maior, como relíquia, como História, como destino. Algo impossível de tangenciar, tocar, cotidianamente.

Queria dividir isso com os meus queridos. Penso neles ao longo da cidade. Roma e seus tons de bege, sol e luz. Todos esses monumentos únicos, mesmo os anônimos. Como respirar entre uma beleza e outra?

É tudo suntuoso, mas de uma coerência e bom gosto que aqui parecem mais aguçados do que, por exemplo, no Louvre e no National Gallery (onde há mais misturas e “coleção”). Aqui é o “site”original de quase todas as obras mais importantes, como as de Rafael, Fra Angélico, Bernini, Michelangelo e tantos outros, que as criaram para Roma, caput mundi em vários momentos da História. E os anônimos, que são como presentes de gratuidade.

Também hoje, caput mundi, espiritualmente falando. Como diz Scola em seu livro, a história desta Roma que conhecemos é inseparável da história do cristianismo. É por causa dele que ela é Roma, cosmopolita, universal, católica.

Escadas, salas de infinita beleza, o chiaroescuro (fantástico!), mesmo a arte moderna (fiquei maravilhada com algumas representações modernas da Pietà e da Anunciação, fiz uma ou outra foto); tudo isso, contudo, não diminui o impacto de entrar na Capela Sixtina, que é um deslumbre, mesmo entulhada de gente barulhenta (os guardas não paravam de pedir silêncio; que privilégio a visita que fizemos em pequeno grupo há dois anos atrás!). Há alguma coisa com as cores, de fato. Sem entender nada de pintura, sinto uma euforia induzida pela contemplação do teto. Distingo alguns estilos e seus efeitos. Olho longamente tudo, sem pressa, sem juízo – e sem juízo, como devaneio ou delírio... Crio, na multidão, um espaço de silêncio e me maravilho com toda aquela beleza inspirada pela relação do homem com o mistério de sua criação e de seu destino.

Queria poder escrever tudo, cada detalhe que me impressionou. Mas era impossível qualquer movimento que não a fruição do belo, a reverência diante do mais que humano.

Não é o “poder da Igreja” em dado momento da História, mas sua força enquanto expressão de um acontecimento mais forte que tudo, “atravessando os séculos”, como diz o canto, criando uma aliança que é nossa – o homem contemporâneo e o mesmo sujeito humano de sempre - com um terceiro, uma alteridade – um sinal talvez? Algo que é a nossa identidade. E também se liga, nessa aliança, o sentimento do criador da obra de arte ao daquele que por ela se sente tocado. Uma marca, em ambos, assinalando quem somos nós, a que somos chamados. O mesmo sentimento, outros os símbolos.

Os detalhes no teto de Michelângelo: o infinito amor de Deus, sua postura, seu olhar, imagem de pura bondade contrastando com o terrível Juízo Final. Há um corpo como frangalhos, que um anjo ou profeta vingador segura com desprezo e que me dá calafrios. A total entrega e confiança e inocência do homem, como não podia deixar de ser, alvo desse amor maior que tudo.

No Novo Testamento há algo assim: “quem é o homem, Senhor, para que dele cuides com tanta bondade?” É disso que me lembro aqui e agora.
Fotos de MVítor, Roma, 2007.

Comentários

Pavitra disse…

o teto de michelângelo...
só de pensar a minha cabeça (até ela) fica arrepiada.

essa emoção eu tomo emprestada, ana, dentro do silêncio contemplativo que vc descreve.

p.s. vou ficar para trás na sua viagem, pq tbm farei uma daqui a pouco e só voltarei no próximo final de semana, mas nos encontraremos lá - onde quer que seja a próxima parada...

boa semana pra vc.
beijos

sim, não há como nos desencontrarmos mais!
Faça uma boa viagem, querida.
beijos,
Ana
"À porta quem virá bater?
Em uma porta aberta se entra
Uma porta fechada um antro
O mundo bate do outro lado de minha porta!"
(Pierre Albert-Birot)

A sua sensibilidade me comove, Ana... A propósito, você conhece Gaston Bachelard? Não consigo ler seus textos sem me lembrar dele, de sua "Poética do espaço". Um filósofo fascinante.

Abraços.
bonito trecho este, Thalita. Não conheço Albert-Birot. Já li algo de Bachelard, mas não de sua poética. Sou apaixonada pelo tema da poética de todo homem, no sentido da invenção, do que transcende o aqui e agora. Agora que você falou, vou dar uma olhada nessa poética do espaço.
beijo e obrigada!
Cosmunicando disse…
de perder o fôlego, literalmente... esse é um dos lugares do mundo em que quero estar com a mesma disposição para o encantamento, essa que trespassou seu texto.
Lindo, Ana!
beijos

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