sábado, 22 de novembro de 2008

Sonho




Atrás de seus olhos
minha mãe guarda
os meus cabelos cortados.

Eu estava morta
ou de há muito partida.

Atrás de seus olhos
as coisas estão muito bem postas:
gavetas, papel de seda,
laços de fita.

Eu olhava por seus olhos e via
assim translúcidos,
os ossos de sua face,
móveis, diáfanos,
dissolvendo-se em névoa.


E lá estavam, estendidos sobre panos dobrados,
meus longos cabelos de criança
(que meu pai amava)
cortados para que eu não ficasse raquítica
e porque não cuidava bem deles:
não queria lavar,
não prendia que prestasse,
não queria desembaraçar.

(A não ser que ela o fizesse,
dia de sábado, usando óleo “Suave”,
para não doer.)


Publicado em A Impossível Transcrição (de tudo fica a poesia).
Nuances. Foto de MVítor.


11 comentários:

Pavitra disse...


um sonho e a impossível transcrição...

fica a poesia dos cabelos cortados,
fica nos olhos da mãe e nos meus...

é suave e não dói.

beijos, ana!

Mariana disse...

Ana, toda vez que venho aqui tenho a mesma sensação boa, dolorosa e misteriosamente nostálgica.

sempre me emociono.

Cosmunicando disse...

ah, os olhos da mãe são inesquecíveis e imprescrutáveis...

que lindo, Ana.

beijos

fred disse...

Belo poema, Ana.
Estou linkando o seu site.
Beijos

Andréia Alves Pires disse...

bonito. :)

Luísa disse...

Mais uma vez,
não sinto longe nem distãncia na descrição das emoções vividas em familia!
Crescimento sustentado no mundo dos afectos...
Gostei muito!

Maria Muadiê disse...

Muito lindo.

Mariana disse...

Ana, querida.
minha poesia está lá graças a você.

então ela é sua também.

muitos beijos e abraços de carinho em agradecimento a ti.

beijos

Ana Cecília disse...

Obrigada pelas visitas e doces palavras.
Ando correndo demais neste fim de ano.
beijos!

Janaina Amado disse...

Olá, Ana Cecília, bom-dia! Estou vindo do blog da Sílvia Camara. Gostei muito deste seu poema e do blog também, repleto de textos interessantes e comoventes. Adorei o do Saramago. Posso voltar?

Sílvia Câmara disse...

Ana, querida,
Andei sumida, mas estou voltando.
Peregrinações diversas...
Adorei vc passar no Brisa.
Obrigada, querida e parabéns, sempre, pelos teus escritos.
Ah, a memória...
Um dia nos sentaremos na varanda e iremos conversar sobre isso.
um beijo e um abraço