quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Eu detesto a nova reforma ortográfica!

Estou na praia, com limitado acesso à internet, mas entrei para dizer isto. Detesto mesmo!
Alguém pode me explicar por que, quando se luta, em tantas plagas, pelo reconhecimento das singularidades, inclusive de linguagens, por que haveremos de querer esta uniformidade que nos desfigura?

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

...e Feliz Ano Novo!



Desejo a todos que 2008 chegue em paz a seu ocaso e, sobretudo, que o Novo Ano nos traga coragem, fé e a confiança inaugural de uma criança frente ao mistério da vida.


O mar de Itacimirim, junto ao qual me recolho no recesso destes dias, não será diverso daquele que me foi lembrado em um belo especial de fim de ano sobre Fernando Pessoa, no poema que transcrevo a seguir, como um presente para os amigos que me dão a alegria de por aqui passar. Pois "...Tudo vale a pena, se a alma não é pequena". Até breve!



Mar Portuguez



Ó mar salgado, quando do teu sal

São lagrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão resaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!



Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quere passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abysmo deu,

Mas nelle é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa. Mensagem. Obra Poética. Rio de Janeiro: Editora José Aguilar Ltda., 1960, p. 19.


O mar de Itacimirim. Fotos de MVítor.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Feliz Natal!


O Rei sem manto e sem jóias,
nu como folha de erva,
distribui riquezas não tituladas.
Oferece a transparência
da alma liberta de cuidados vis.
As coisas já não são as antigas coisas
de perecível beleza
e o homem não é mais cativo de sua sombra.
A limitação dos seres foi vencida
por uma alegria não censurada,
graça de reinventar a Terra,
antes castigo e exílio,
hoje flecha em direção infinita.

O Rei Menino, de Carlos Drummond de Andrade, em Farewell (fragmento).

Desejamos a você um Feliz Natal e um 2009 cheio de paz, saúde e bem-querer.

Ana Cecília, Virgílio, Vítor e Ana Clara.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Aos meus queridos amigos de blogs






Para vocês, mais um trabalho de Ígor Souza, a pretexto de agradecer todas as suas visitas e palavras recentes, que o fim de ano me impede de responder como gostaria. Contudo, elas permanecem comigo, e a oportunidade de conhecer o trabalho de cada um de vocês foi um dos presentes especiais que este ano de 2008 me trouxe.


Obrigada!


Trabalho de Ígor Souza. Em Miniusina. http://www.fotolog.com/igorsouza/

"Como se fosse o mesmo céu": Gina Leite no texto, Igor Souza e tantos outros nas ilustrações



"Amor não tem beirada, ou é abismo ou céu", diz Gina na abertura de seu livro, lançado na última sexta-feira. Muitas idéias e imagens me ocorrem a partir da leitura do primorosamente construído livro de Gina. Nelas se confundem a menininha que vi nascer e a jovem sempre tão criativa e cheia de talentos. São contos incrivelmente modernos e maduros, os que lemos aqui. Sempre repletos de sensibilidade e alvo de um trabalho experimental consciente e seguro. Sempre repletos de poesia. As ilustrações são belíssimas, e destaco o nome de Ígor porque, além de ser um artista extraordinário, é meu sobrinho de coração.

Aqui estou, pois, neste domingo, encantada com a vida e seu inesgotável poder de renovação, tomada de afeto por esses meninos queridos, filhos de meus amigos, amigos de meus filhos.


A seguir, um trecho do segundo conto, "Como se fosse o céu II", e os links para o site do livro (com informações inclusive sobre como pode ser adquirido) e para a Miniusina, fotolog de Ígor (autor do trabalho que acompanha este post).


(...) Retorno aos rascunhos que já escondem a mesa. Num sobressalto, percebo os dias repetirem tua partida em única lembrança. Reescrevo teus sinais, traço um atalho para que possa me encontrar outra vez, porém quanto mais te desenho, mais você se aproxima da irrealidade.


De que serve teu nome se nunca a alcanço? Sem nós, vivo da minha sonolência, da preguiça absurda, vivo da falta, do desconhecimento, anônimo de mim. Tudo foi escrito, mas quase nada aconteceu.


Os versos que inventei se acumulam pelos cantos, sujos, mudos, inúteis. Minhas palavras são todas de tristeza. As palavras mais belas são pássaros que desaprenderam a voar.



Sem título. Trabalho de Ígor Souza. Em Miniusina: http://www.fotolog.com/igorsouza/

sábado, 13 de dezembro de 2008

Stacatto





É o verão que se insinua.
É a gota de sangue na letargia da tarde.
O aconchego das nuvens ao entardecer.
Rosas e azuis.

Não vi o semblante das ruas e pessoas.
Talvez alguns passos.

Não vi o suor e a lágrima colados ao humano.
O dia é cor de shopping e estou morta.

Publicado em A Impossível Transcrição (De tudo fica a poesia).
160 graus. Foto de MVítor.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Um poema de Adélia Prado

...desses que nos fazem querer dizer: obrigada, Adélia.


Ex-voto

Na tarde clara de um domingo quente
surpreendi-me,
intestinos urgentes, ânsia de vômito, choro,
desejo de raspar a cabeça e me pôr nua
no centro de minha vida e uivar
até me secarem os ossos:
que queres que eu faça, Deus?
Quando parei de chorar
o homem que me aguardava disse-me:
"você é muito sensível, por isso tem falta de ar".
Chorei de novo porque era verdade
e era também mentira,
sendo só meio consolo.
Respira fundo, insistiu, joga água fria no rosto,
vamos dar uma volta, é psicológico.
Que ex-voto levo à Aparecida,
se não tenho doença e só lhe peço a cura?
Minha amiga devota se tornou budista,
torço para que se desiluda
e volte a rezar comigo as orações católicas.
Eu nunca ia ser budista,
por medo de não sofrer, por medo de ficar zen.
Existe santo alegre ou são os biógrafos
que os põem assim felizes como bobos?
Minas tem coisas terríveis,
a Serra da Piedade me transtorna.
Em meio a tanta rocha
de tão imediata beleza,
edificações geridas pelo inferno,
pelo descriador do mundo.
O menino não consegue mais,
vai morrer, sem força para sugar
a corda de carne preta do que seria um seio,
agora às moscas.
Meu coração é bom
mas não aceita que o seja.
O homem me presenteia,
por que tanto recebo,
quando seria justo mandarem-me à solitária?
Palavras não, eu disse, só aceito chorar.
Por que então limpei os olhos
quando avistei roseiras
e mais o que não queria,
de jeito nenhum àquela hora,
o poema,
meu ex-voto,
não a forma do que é doente,
mas do que é são em mim
e rejeito e rejeito,
premida pela mesma força
do que trabalha contra a beleza das rochas?
Me imploram amor Deus e o mundo,
sou pois mais rica que os dois,
só eu posso dizer à pedra:
és bela até à aflição;
o mesmo que dizer a Ele:
sois belo, belo, sois belo!
Quase entendo a razão de minha falta de ar.
Ao escolher palavras com que narrar minha
angústia,
eu já respiro melhor.
A uns Deus os quer doentes,
a outros quer escrevendo.

Mar virado



O mar o mar o mar o mar o mar o mar o mar.
Derramar.
Maravilhar.

Mar virado. Itacimirim, Bahia. Foto de MVítor.