Um poema de Adélia Prado

...desses que nos fazem querer dizer: obrigada, Adélia.


Ex-voto

Na tarde clara de um domingo quente
surpreendi-me,
intestinos urgentes, ânsia de vômito, choro,
desejo de raspar a cabeça e me pôr nua
no centro de minha vida e uivar
até me secarem os ossos:
que queres que eu faça, Deus?
Quando parei de chorar
o homem que me aguardava disse-me:
"você é muito sensível, por isso tem falta de ar".
Chorei de novo porque era verdade
e era também mentira,
sendo só meio consolo.
Respira fundo, insistiu, joga água fria no rosto,
vamos dar uma volta, é psicológico.
Que ex-voto levo à Aparecida,
se não tenho doença e só lhe peço a cura?
Minha amiga devota se tornou budista,
torço para que se desiluda
e volte a rezar comigo as orações católicas.
Eu nunca ia ser budista,
por medo de não sofrer, por medo de ficar zen.
Existe santo alegre ou são os biógrafos
que os põem assim felizes como bobos?
Minas tem coisas terríveis,
a Serra da Piedade me transtorna.
Em meio a tanta rocha
de tão imediata beleza,
edificações geridas pelo inferno,
pelo descriador do mundo.
O menino não consegue mais,
vai morrer, sem força para sugar
a corda de carne preta do que seria um seio,
agora às moscas.
Meu coração é bom
mas não aceita que o seja.
O homem me presenteia,
por que tanto recebo,
quando seria justo mandarem-me à solitária?
Palavras não, eu disse, só aceito chorar.
Por que então limpei os olhos
quando avistei roseiras
e mais o que não queria,
de jeito nenhum àquela hora,
o poema,
meu ex-voto,
não a forma do que é doente,
mas do que é são em mim
e rejeito e rejeito,
premida pela mesma força
do que trabalha contra a beleza das rochas?
Me imploram amor Deus e o mundo,
sou pois mais rica que os dois,
só eu posso dizer à pedra:
és bela até à aflição;
o mesmo que dizer a Ele:
sois belo, belo, sois belo!
Quase entendo a razão de minha falta de ar.
Ao escolher palavras com que narrar minha
angústia,
eu já respiro melhor.
A uns Deus os quer doentes,
a outros quer escrevendo.

Comentários

soledade disse…
«A uns Deus os quer doentes,
a outros quer escrevendo.»

Adélia desarma-nos, tantas vezes... Gostei de ler, este poema não o conhecia.

Um beijo
soledade disse…
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Janaina Amado disse…
Lindíssimo o poema. Adélia Prado sempre me comove, por essa capacidade de por o cotidiano em poesia, e expressar tão bem o que sentimos. Obrigada!
mirela disse…
queria ter a coragem dos artistas: Adélia, Ana, Vitor.... mas em não tendo, meu consolo é poder encontrar neles um casulo para respirar as palavras, os versos, as imagens e me anestesiar da cruesa do real, que nos põem cada um no seu quadrado. As palavras reunidas parecem tesouros que se abrem para uma infinitude de mundos possíveis no que às vezes parece impossível.
Obrigada,
Mirela
Maria Muadiê disse…
Lembro exatamente da primeira vez que li essa poesia. Muito muito linda.
Mariana disse…
Um amigo meu me contou (fofoca passada por preço de custo...rs) que a Adélia vai a São Gonçalo do Rio das Pedras, vilarejo aqui do Vale do Jequitinhonha, ouvir as histórias de D. Helena e transformá-las em poesia...

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