Na emoção de ler o novo livro do grande poeta, trago dois poemas seus, sempre fortes, incisivos.
Que me transpassam neste domingo.
O QUE NÃO SE PODE MEDIR
Quem pode medir o tempo
se de ausência o tempo é feito?
se evapora em nossas mãos
como um rio no seu leito?
Quem pode medir o tempo
do que se perde ou se ganha
quando ela solta os cabelos
rumo ao veio em que se banha?
Se o tempo é caule de espuma,
rajada que apaga a chama?
Se o tempo dispersa os mortos
numa nau de porcelana?
Quem pode medir o tempo
como se mede uma ceifa?
ritmos do pulso da amada
quando se despe ou se deita?
Quem pode deter as horas
esse rebanho de ovelhas
que pastam nossas volúpias
entre os seios das tigelas?
Quem pode deter o tempo,
as patas desse cavalo
que à noite nos presenteia
seus galopes de centauro?
Quem pode medir o tempo
da mentira e do cinismo?
o corvo ao lado da cova
de sete palmos de abismo?
PALAVRAS AO ABISMO
Com que palavras, Mãe,
poderei falar de tua ausência?
de tua pobreza indomável?
de tuas esperanças no imponderável?
das contas desbotadas do teu velho rosário?
Ou da falta que nos fizeste?
das rosas que murcharam nos teus jarros?
dos pássaros que se calaram nos beirais?
do vento que derrrubou as vigas de nossa casa?
onde sonhavas com nosso pai, quando
regressava de suas plantações de relâmpagos?
Perguntavas pela chuva e pelo vento,
pelos estios, pelo milho que desmoronava
na ausência do inverno. Pelas ovelhas
magras, pelas vacas tristes, pelos
bezerros famintos, as crias desmamadas
e os rios que agonizavam nas almofadas de areia.
Francisco Carvalho: Mortos não jogam xadrez. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2008.
O que é conversão? - Por Magali de Figueiredo Esmeraldo
39 minutos atrás