
Dores e Moendas
Minas dói.
Pernambuco mói.
A Bahia rói
o osso amargo de sua alegria.
Minas dói
a dor nas veias do ouro
tortura de ferro e sal
suplício do Aleijadinho
silêncio sussurrado
entre montanhas.
Minas dói
com seus poetas
seus profetas de pedra
e horizontes ríspidos.
Pernambuco mói.
Remói a cana-cainana
serpente verde
caldo grosso
que retarda o passo do tempo.
E ao rés-do-chão
bangüê bagaceira.
Pernambuco mói
maracatus
míticas Holandas
palmas de Palmares
lama do mangue.
A Bahia rói
um gosto de sombra e desencontro
pelourinho n'alma
e tanta luz e tanto alvoroço.
Mas quando os tambores
se calam
e todos os dentes se quebram
no osso
oco da alegria
- Bahia, cadê Bahia?
Resta a mesma
dor de Minas
o mesmo caldo avesso
de Pernambuco.
Atabaques, calai!
Minas dói Pernambuco dói Bahia dói
cada qual em seu recôncavo
cada qual
em sua
única
íntima
e indevassável disciplina.
Em: Pássaro de Vidro. São Paulo: Editora Hedra, 2006.
Contraluz. Foto de M. Vítor.
