sábado, 28 de fevereiro de 2009

Irresistível

Recomendo, ainda em fevereiro, o post "Carnaval", no blog de Caetano.
Sim, minha língua é minha pátria...
Não deixem de ver os comentários.

O link é: http://www.obraemprogresso.com.br/2009/02/21/carnaval/

Coisas lidas e ouvidas em fevereiro





Da coletânea Nantes/Recife – Um Olhar Transatlântico (organizada por Heloísa Morais e Magali Brazil; os poemas são vertidos para o francês por Everardo Norões, que também tem poemas seus aí inclusos), este poema do alagoano e pernambucano Jaci Bezerra.

"No sonho a mão de alguém me apóia e guia"

O pai tinha um cavalo luminoso
e cuidava das rosas do jardim,
porém seu coração não tinha pouso
e, por isso, ele foi um homem assim,
calado e só, talvez misterioso,
mesmo ao bordar estórias para mim.
Dele herdei o silêncio em que me movo
e os meus pastos de antúrio e capim.
Ao recordá-lo, inteiro me enterneço.
O pai é a minha infância aurorescendo
nesses currais de luz onde adormeço.
Mito que me acompanha tempo afora,
o pai é uma canção esmaecendo
no atormentado sótão da memória.


Da Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa, de Eugénio de Andrade, esta Epígrafe de Eugénio de Castro.

"Epígrafe"

Murmúrio de água na clepsidra gotejante,
Lentas goras de som no relógio da torre,
Fio de areia na ampulheta vigilante,
Leve sombra azulando a pedra do quadrante,
Assim se escoa a hora, assim se vive e morre...

Homem, que fazes tu? Para que tanta lida,
Tão doidas ambições, tanto ódio e tanta ameaça?
Procuremos somente a Beleza, que a vida
É um punhado infantil de areia ressequida,
Um som de água ou de bronze e uma sombra que passa...


E esta Canção de Fernando Pessoa:

"Canção"

Sol nulo dos dias vãos,
Cheios de lida e de calma,
Aquele ao menos as mãos
A quem não entras na alma!

Que ao menos a mão, roçando
A mão que por ela passe
Com externo calor brando
O frio da alma disfarce!

Senhor, já que a dor é nossa
E a fraqueza que ela tem,
Dá-nos ao menos a força
De a não mostrar a ninguém!


Da poesia que sai da boca do povo, esta última preciosidade, de uma mãe de 11 filhos a quem uma outra mãe recomendou cuidar de mais um:

"Não sei porque foi, se foi ouvindo ela falar daquele jeito, mas garrei um amor por esse menino... um amor terríve!"

Desenho de Ígor Souza. Disponível em http://www.fotolog.com/igorsouza/

...e outros registros de fevereiro


Com meu caderno favorito (o moleskine que Virgílio me trouxe de Lisboa) e
minha melhor caneta (que Vitinho me trouxe da casa de Neruda em Isla Negra)



.... apenas para saber que o vôo da gaivota é sempre muito mais.





Fevereiro é um mês curioso, quando (além do fato de não menor importância de que é carnaval na Bahia) ficamos um tanto emparedados entre várias necessidades mais ou menos impossíveis, tais como descansar, finalizar (último prazo) pendências de trabalho do ano que passou, preparar tudo para que as coisas fluam melhor no novo semestre, resolver problemas de saúde também antes que o ano comece pra valer...

Enfim, hoje já é o último dia do mês.

Registro alguma coisa - agora, fotos de uma viagem de navio.

Um poema de Vera Lúcia Oliveira

Filhos


fiz meus filhos antes de ter-me feito
fiquei multiplicado sem ser-me reunido
depois parti eles ficaram e se esqueceram
de mim agora pergunto fui feito só para
gerá-los fui feito só para sê-los?