quarta-feira, 27 de maio de 2009

Nebulosas




Definitivamente silêncio.
Vem uma forte virose e como que isso me esvazia.
Tenho imagens que são apenas acalanto,
nuvens, nebulosas, onde me deito e repouso, sem qualquer realidade.

Atravessa o dia essa tristeza.
Pontilhão ilógico, estrutura às avessas,
Cor de chumbo, pesada, ou etérea, como saber?

Irreal, inexistente.
Estilhaços de algum meteorito sem destino ou razão.
Lançados do nada, ou do mais essencial.
E caem sobre mim, e me estilhaçam, e nada sou,
e desmorono,
súbito deserta dos eus em que me expresso e sou.

Por vezes não há qualquer circunstância que explique essa dor.
Este não haver onde estar, onde me instalar.
Este não haver
ar que respirar,
palavras que dizer.


Morro do Cristo, Salvador, Bahia. Foto de MVítor.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

"Words support like bone"

MERCY STREET

looking down on empty streets, all she can see
are the dreams all made solid
are the dreams all made real

all of the buildings, all of those cars
were once just a dream
in somebody's head

she pictures the broken glass, she pictures the steam
she pictures a soul
with no leak at the seam

lets take the boat out
wait until darkness
let's take the boat out
wait until darkness comes

nowhere in the corridors of pale green and grey
nowhere in the suburbs
in the cold light of day

there in the midst of it so alive and alone
words support like bone

dreaming of mercy street
wear your inside out
dreaming of mercy
in your daddy's arms again
dreaming of mercy street
'swear they moved that sign
dreaming of mercy
in your daddy's arms

pulling out the papers from the drawers that slide smooth
tugging at the darkness, word upon word

confessing all the secret things in the warm velvet box
to the priest-he's the doctor
he can handle the shocks

dreaming of the tenderness-the tremble in the hips
of kissing Mary's lips

dreaming of mercy street
wear your inside out
dreaming of mercy
in your daddy's arms again
dreaming of mercy street
'swear they moved that sign
looking for mercy
in your daddy's arms

mercy, mercy, looking for mercy
mercy, mercy, looking for mercy

Anne, with her father is out in the boat
riding the water
riding the waves on the sea


De Peter Gabriel. Baseado no poema 45 Mercy Street, de Ann Sexton

No youtube, encontrei este belo vídeo, tão delicado: http://www.youtube.com/watch?v=-m4fFQb7yfc

terça-feira, 19 de maio de 2009

Que coisa é essa que é um blog?




No começo, perguntava-me que coisa é essa que é um blog.
Queria saber que possibilidade era esta, de escrever ao vivo e no instante. De que era feita essa transparência, essa conexão com o tempo, esse faceless face-to-face.

Fui escrevendo: fragmentos, registros, gatos e bugalhos. Às vezes ali mesmo, uma quase crônica, às vezes material não editado, coisas guardadas, ou mesmo já publicadas, de que algo me fazia lembrar naquele momento exato. Por vezes uma "blog-episteme": de que natureza é esta coisa em fluxo, temporária, fragmentada, justaposta, pós-moderna?

Vieram poemas que li e amei. Ficavam reverberando em mim e, portanto, tinha a urgência de postar. Há também uma ou outra canção ouvida no rádio.

Vieram as fotos de Mário Vítor, e a experiência do texto que tantas vezes vinha por elas, interativo. Os desenhos de Ígor, mais tarde.

E os amigos, tantos! As páginas abertas e as fronteiras tão facilmente ultrapassadas, o mundo todo é aqui, o melhor lugar é ser feliz. Muitos presentes ganhei nessa partilha de palavras e identidades. E assim foi crescendo a lista dos "sítios lindos de ver e ler", que visito sempre, mesmo quando não tenho tempo de comentar.

E aquela necessidade de definir o que é um blog?

Passou. Completamente!


Prisioneiro do tempo. Foto de MVítor.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Um poema de Everardo Norões






JOHN O INGLÊS DISSE

John o inglês disse
gosto da palavra bruma
turner turva bruma
o acento amargo sob
o chicote de sol desse verão
no alto mundo das taquaras
som carmesim de uma estação
de trem ou trovão
contido num som de órgão
de Bach
gosto da palavra bruma
núcleo obscuro da saudade
I like it
álacre é o aberto
bruma o fechado
o roxo de um deus crucificado
nas santas semanas da paixão
bronze zen a retinir
sozinho


Em: http://retabulodejeronimobosch.blogspot.com

A ilustração é colagem de um quadro do pintor inglês William Turner e fotografia dos altos de Taquaritinga (também por Everardo).

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Poemas antigos, cor de hoje






AZUL E DORES


É maio.
E faltam-me
pára-raios.



AZUL E AMORES

É maio.
Nada é mais importante que o puro azul de seus dias.

Quem lavou os dias
dos dias de maio?
Qual laboratório revelou a pura
cor do tempo?

Publicado em Uma Vaga Lembrança do Tempo.
Salvador. Foto de MVítor.

domingo, 10 de maio de 2009

Presente


...porque ganhei as duas flores mais especiais do mundo: Vítor e Ana Clara.


SENSÍVEL. Para minha mãe, com amor. Foto de Mário Vítor.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Súplica Cearense

Oh! Deus, perdoe este pobre coitado
Que de joelhos rezou um bocado
Pedindo pra chuva cair sem parar

Oh! Deus, será que o senhor se zangou
E só por isso o sol se arretirou
Fazendo cair toda chuva que há

Senhor, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho
Pedir pra chover, mas chover de mansinho
Pra ver se nascia uma planta no chão

Meu Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe,
Eu acho que a culpa foi
Desse pobre que nem sabe fazer oração

Meu Deus, perdoe eu encher os meus olhos de água
E ter-lhe pedido cheinho de mágoa
Pro sol inclemente se arretirar

Desculpe eu pedir a toda hora pra chegar o inverno
Desculpe eu pedir para acabar com o inferno
Que sempre queimou o meu Ceará



A gravação original é de Luiz Gonzaga (autoria: Gordurinha e Nelinho). Vejam versão de O Rappa em http://www.youtube.com/watch?v=6ipTrllTuDw

domingo, 3 de maio de 2009

A Romã de Vidro

Recomendo:


http://romadevidro.blogspot.com/

De Maria Gomes.
Em Angola, país-irmão.

Espanto




Na avalanche,
os poemas inventam lugares.
Registros em água, vento, chuva.
Assim vou achando rabiscos,
notas para um depois.
Nunca chegado.

Em Brasília, a chuva era açoite,
a cidade atônita.




Publicado em "Uma Vaga Lembrança do Tempo".
Foto de MVítor.