domingo, 30 de agosto de 2009

Estação



Transbordo.
Poros abertos ao tanto que posso ver.
Ver através da pele, sem formato ou palavra.
A pura imagem, nela repouso.
Conter-me ali, quando tudo se dissolve e se esvai
a certeza do ser.



Imensidão. Foto de MVìtor.

sábado, 29 de agosto de 2009

Rilke: "E por causa de um verso..."



Estas são palavras que me acompanham:

"E por causa de um verso é preciso ver muitas cidades, pessoas e coisas, é preciso conhecer bichos, é preciso sentir como voam os pássaros, e saber com que gestos flores diminutas se abrem ao amanhecer. É preciso poder recordar caminhos em regiões desconhecidas, encontros inesperados, e despedidas que há muito sentíamos chegar - dias da infância, ainda não explicados (...).

E também não basta ter recordações. É preciso saber esquecê-las, quando são muitas, e ter a grande paciência de esperar que retornem por si. Pois as lembranças em si ainda não o são. Só quando se tornarem sangue em nós, olhar e gesto, sem nome, não mais distinguíveis de nós mesmos, só então pode acontecer que numa hora muito rara se erga do meio delas a primeira palavra de um poema".


Rainer Maria Rilke. Em Os Cadernos de Malte Laurids Brigge

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

"A serenata". Um poema de Adélia Prado, em tempos de ler poesia.





Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com a boca e mão incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobro
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Qunado ele vier, porque é certo que vem
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
- só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?


Adélia Prado. Em Poesia Reunida, Siciliano, 1991.


Desenho: "Parede". Ígor Souza.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Um poema de Raquel Martins




L U Z



Na casa
há maçanetas
e treliças, mas
a porta do meu quarto
não tem chaves.
Todo mundo vê
a magreza do meu lombo
cansado de trabalhar.
Todo mundo vê
o flagelo do meu sexo
cansado de amar.
Todo mundo vê
meu rosto esmaecido,
meus cabelos brancos
desmaiados
e meus olhos...
Ah, meus olhos!
apesar de tudo,
iluminados.


Sarça. Foto de MVítor

domingo, 23 de agosto de 2009

Um poema de Eugénio de Castro, celebrando um novo tempo de liberdade




Epígrafe

Murmúrio de água na clepsidra gotejante,
Lentas gotas de som no relógio da torre,
Fio de areia na ampulheta vigilante,
Leve sombra azulando a pedra do quadrante,
Assim se escoa a hora, assim se vive e morre...

Homem, que fazes tu? Para que tanta lida,
Tão doidas ambições, tanto ódio e tanta ameaça?
Procuremos somente a Beleza, que a vida
É um punhado infantil de areia ressequida,
Um som de água ou de bronze e uma sombra que passa...


Ode à liberdade. Foto de MVítor.

domingo, 9 de agosto de 2009

Estrela entre poeira e gás




Estas estrelas capturadas por fotógrafos de galáxias e outros imponderáveis me fascinam. Esta que se mostra hoje pela internet é considerada foto de rara precisão.

Nela me fascinam, porém, o impreciso e o inatingível. Acompanho essas notícias, vagamente atenta.

E aqui está esta imagem, para homenagear os pais em seu dia.

Afinal, deles somos feitos, nós, que fomos um dia poeira de estrelas.


Fotografia disponível no site do UOL, em 9 de agosto de 2009.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Da memória







Do que se desfigura e reconfigura,
entre tanto.
Dos espaços onde perambulamos,
por vezes secretos, por vezes desertos.
Por vezes a pergunta: quem é você que ressoa em meu silêncio?
O rumor de passos fazendo eco,
ocupando terrenos que nem mais existem...

Por vezes não há palavras,
imagens incógnitas reverberam, resquícios do vivido,
imponderável eco.

Do que é inútil medir, se nem mais possa existir,
como se fosse a luz de uma pequenina estrela, há muito desaparecida,
mas que ainda agora nos chega -
nessas vias as lembranças fazem a curva.

A saudade nem sabe disso, e surge encarnada,
como se o passado existisse.
Por vezes, tudo em mim fantasmeia.



Walking by. Foto de MVítor.
Disponível em http://www.flickr.com/photos/mvitor